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MENSAGEM QUARESMAL DE 2012 – HOMILIA DA MISSA DAS CINZAS PDF Versão para impressão Enviar por E-mail
Documentos - Homilias 2012



- Uma Feliz Quaresma, da autêntica felicidade da Cruz!


“Tende cuidado em não praticar as vossas boas obras diante dos homens, para serdes vistos por eles … O teu Pai, que vê o que está oculto, te dará a recompensa”.

Amados irmãos: Este cuidado que Cristo nos inculca, parecendo simples, é o mais custoso; e pode ser até a Quaresma toda. Não só este tempo de graça, rumo à Páscoa de 2012, mas a própria vida, como realização nossa unicamente em Deus e abarcando universalmente a todos.

 

“Ser vistos pelos outros” é tendência atávica e espontânea, que nos leva a viver mais superficial que verdadeiramente. O que é de facto grande mal e despiste certo. Em Cristo, revelação do que havemos de ser no seu Espírito, acontece exatamente o contrário: Jesus vive autenticamente, isto é, na consistência íntima em que sempre se define.

Cristo vive do Pai e para o Pai, da primeira à última frase que lhe ouvimos, segundo São Lucas. Assim pelos doze anos no templo, respondendo a Maria e José: “Não sabíeis que devia estar em casa de meu Pai?” (Lc 2, 49). Assim pelos trinta e cravado na cruz: “Pai, nas tuas mãos entrego o meu espírito!” (Lc 23, 46). E, quanto a sustento, motivação ou propósito, também não deixou margem para dúvidas, como adianta no 4º Evangelho: “O meu alimento é fazer a vontade d’Aquele que me enviou e realizar a sua obra” (Jo 4, 34).

Amados irmãos, esta essencial atenção ao Pai é a verdadeira Quaresma de Jesus, como as tentações que venceu bem demonstram. Em qualquer dos relatos a propósito, é o desvio da atenção para si, o seu próprio interesse ou ostentação, que liminarmente rejeita. Assim em São Mateus: “Nem só de pão vive o homem, mas de toda a palavra que sai da boca de Deus… Não tentarás ao Senhor teu Deus… Ao Senhor, teu Deus adorarás e só a Ele prestarás culto!” (cf. Mt 4, 1 ss).

- Que importantes e oportunas são estas sagradas referências! São-no sempre, porque tais palavras “não passarão”. Ouvidas e assimiladas por cada um de nós, concentrar-nos-ão também em Deus como o verdadeiro tudo da nossa vida, seja em que fase for e em qualquer circunstância. Frases que repetimos tanto, como “seja o que Deus quiser”, ganharão mais coerência e autêntica substância, libertadora enfim. Convertendo-nos “dos ídolos a Deus”, livrar-nos-ão a alma de ansiedades vãs, dolorosas frustrações e desilusões pesadas. Não nos deixarão trocar a esperança, teologalmente garantida, por desejos nossos, demasiadamente nossos, que só adiam a vida, mesmo parecendo entretê-la. Como as cinzas que receberemos e já foram chama e lume, fugazmente o foram…

Isto quanto a nós e muito em geral. Mas mal seria, ainda agora, se tivéssemos presente a Liturgia, sem estarmos nós presentes nela e por ela convertidos. Olhando a Deus, como O entrevemos em Cristo, ouvindo-O sobretudo a Ele, na Palavra tão selecionada e certa que a Igreja nos oferece em cada Missa ou Ofício. Alimentando-nos espiritualmente assim, certos de que o mais virá depois por acréscimo. Para ficarmos realmente em Quaresma, diante de Deus e de todos, no único Espírito de Cristo.

Mas a oportunidade redobra-se na atual situação do mundo, a começar pelo que nos toca mais de perto. – Pois não foi em grande parte o contrário que nos trouxe às atuais circunstâncias, pesadas circunstâncias para todos? – Não foi o autocomprazimento, a autoimposição dos desejos, a demorada ambição do ter, do parecer ou do poder que nos fez olvidar os outros, bem como o significado autêntico da vida e da convivência?

Infelizmente e em tão excessiva medida, o “ser visto” e apreciado pelos outros, segundo os critérios do sucesso, da fama e da moda, pesaram muito nos objetivos, como sobrepesam agora nas frustrações e desistências. Infelizmente assim foi e também pode continuar a ser, se não voltarmos decididamente o olhar para Deus, “mais íntimo do que o nosso próprio íntimo e mais alto do que a nossa maior altura”, como ensinou Santo Agostinho. Este mesmo, inesquecível mestre das verdades re-encontradas, ainda que demorasse a descobri-las como tais. São dele estes arranques de alma, nunca por demais citados e que nos faria bem decorar, tão inultrapassáveis são: “Tarde Vos amei, ó beleza tão antiga e sempre nova, tarde Vos amei! Vós estáveis dentro de mim, mas eu estava fora, e fora de mim Vos procurava; com o meu espírito deformado, precipitava-me sobre as coisas formosas que criastes. Estáveis comigo e eu não estava convosco, Retinha-me longe de Vós aquilo que não existiria se não existisse em Vós. Chamastes, clamastes e rompestes a minha surdez. Brilhastes, resplandecestes e dissipastes a minha cegueira. Exalastes sobre mim o vosso perfume: aspirei-o profundamente, e agora suspiro por Vós. Saboreei-Vos, e agora tenho fome e sede de Vós. Tocastes-me e agora desejo ardentemente a vossa paz” (Confissões, 10).

Vida em Cristo e com Cristo “escondida em Deus”, na magnífica expressão da Carta aos Colossenses (3, 3). Ele sim é que há de ver-nos, como só Ele, “que vê o que está oculto”, realmente nos percebe, aceita e recompensa. O mundo, amados irmãos, o nosso mundo precisa de gente assim, que só a Deus dê honra e glória, nisso mesmo se honrando, em humildade sempre e louvor constante. Simples e finalmente assim, vivendo em Cristo para o Pai e para todos, como assinala a Cruz de todas as Quaresmas.

Quando nos esvaziarmos de nós para sermos de Deus, haverá lugar para todos, como sempre havia em Cristo. Ele cumpriu inteiramente a vontade do Pai, procurando-nos sem descanso. Olhou-nos fixamente com aquele olhar que recebeu do Pai, ansioso sempre do regresso dos pródigos. Ele, que é “Deus de Deus, Luz da Luz, Deus verdadeiro de Deus verdadeiro”, também “por nós homens e para nossa salvação desceu do Céu”.

E é também por isso que a adoração do Pai, acrescentada agora pelas observâncias quaresmais, nos fixará o olhar onde Deus poisa o seu, isto é, nos outros, que Ele ama e requer.

Tem toda a oportunidade aqui a Mensagem que o Papa Bento XVI nos ofereceu para esta Quaresma. Parte dum versículo da Carta aos Hebreus (10, 24), sobremaneira incisivo: “Prestemos atenção uns aos outros, para nos estimularmos ao amor e às boas obras”. E nesta citação vai logo o essencial, tantas vezes demorado, por estarmos mais interessados em que sejam os outros a prestar-nos a atenção e o louvor que, bem vistas as coisas, só a Deus se devem. Deus, a fonte permanente de qualquer bem que houver.

O Santo Padre prossegue a Mensagem – leitura indispensável nesta Quaresma de cada um de nós – insistindo no significado etimológico e na incidência geral que esse “prestar atenção” acarreta. Lembra, por exemplo, que o termo traduz um verbo grego “que significa observar bem, estar atento, olhar consciosamente, dar-se conta de uma realidade”.

- Pois bem, amados irmãos, que atenção prestamos ou havemos de prestar, muito concretamente, a quem nos rodeia ou nos espera? Sucessivas notícias nos alertam para muitas gente que vive só e finalmente morre só e desapercebida, mesmo ao pé da porta…. Apelos redobrados solicitam-nos para refazermos vizinhanças, tão esquecidas. E isto mesmo, quando a tecnologia nos permite uma comunicação permanente, que não pode ficar-se por mera distração virtual. Até para não corrermos o risco de termos opinião sobre tudo, conhecendo realmente quase nada… Autojustificações ociosas, que nada resolvem e tudo alienam e adiam.

Somos cristãos do nome que nos deram. Mas sejamo-lo de facto, da vida que levamos no Espírito de Cristo, eterno adorador do Pai e constante servidor de todos, mesmo quando resistia a que lhe divulgassem os milagres, autênticos os seus. E olhemos os outros como Cristo os olhou, Ele que teve olhos humanos para ver e ser visto, com a infinda misericórdia que os Evangelhos relatam, mesmo quando propunha opções decisivas. Como quando fez depender a nossa salvação da correspondência que prestarmos à sua presença nos outros: “Sempre que fizestes isto – dar sustento, acolher ou visitar – a um destes meus irmãos mais pequeninos, a mim mesmo o fizestes” (Mt 25, 40).

Façamo-lo então, amados irmãos. Tomai esta Quaresma como possibilidade e não como peso. Concentremo-nos em Deus e nos outros, em quem Ele nos espera. Deus é simples, em si e para nós. Não sejamos nós tortuosos, pelas tristes sendas dos egoísmos mal desculpados. Deus está aqui: adoremo-Lo pois. Cristo está nos outros, sirvamo-Lo com alegria. “O Pai, que vê o que está oculto, vos dará a recompensa”.

Resumindo ainda: 1) Seja uma Quaresma de atenção redobrada a Deus e aos outros, interiormente orantes e exteriormente ativos, em caridade sempre. 2) Compreendamos que o amor de Deus, “derramado em nossos corações pelo Espírito Santo” (Rm 5, 5), não contraria, antes potencia infinitamente o humano afeto, impedindo-o de se fechar ou corromper em si mesmo, sendo por isso absolutamente ilegítimo opor solidariedade a caridade: Deus, “amigo dos homens”, é por excelência o “filantropo”; como nós o seremos precisamente quando ganharmos d’Ele o amor fontal que revelou em Cristo e ofereceu no Espírito. 3) Concretizemos a atenção aos outros no aprofundamento ou recriação de vizinhanças, do modo mais positivo e prático que possa ser e a oração nos inspire, como acontece naqueles trechos evangélicos em que Jesus parte da oração para a ação imediata junto deste ou daquele, interpelando ou servindo. 4) No que à Diocese respeita, complementemos as outras exercitações quaresmais com a renúncia material, que continuará a destinar-se ao Fundo Social Diocesano, com que correspondemos a tantas solicitações que nos são feitas (com o recebido, o Fundo Social Diocesano distribuiu desde a última Quaresma 182 500 euros, especialmente através das Conferências de São Vicente de Paulo e da Cáritas Diocesana, contemplando ainda diversas instituições de solidariedade).

Com tudo isto vos desejo uma Feliz Quaresma, da autêntica felicidade da Cruz, em que a vida se ganha na oferta!

+ Manuel Clemente

Quarta-feira de Cinzas, 22 de Fevereiro de 2012

 
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