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Homilia no aniversário do Círculo Católico de Operários do Porto PDF Versão para impressão Enviar por E-mail
Documentos - Homilias 2016

1.Estamos aqui reunidos para celebrar a Eucaristia, convocados pelo Senhor Ressuscitado. É Ele que nos convida hoje como sempre para a sua mesa, como outrora fez com os apóstolos, no Cenáculo.

A Palavra de Deus, hoje proclamada, diz-nos pela voz de S. Paulo na Carta aos Gálatas que “todos somos filhos de Deus pela fé em Jesus Cristo, porque todos os que fomos baptizados em Cristo fomos revestidos de Cristo” (cf Gal 3, 26-29).

É desta certeza da nossa filiação divina e do amor misericordioso de Deus, nosso Pai, para connosco que parto para partilhar esta breve e simples mensagem, em dia feliz de aniversário do nosso Círculo Católico de Operários do Porto.

 

Regressemos às suas origens, a 9 de junho de 1898, solenidade do Corpo de Deus, naquele ano, dia da fundação do Círculo Católico de Operários do Porto. Alarguemos o nosso olhar ao contexto daquele tempo. A Europa e Portugal viviam, à época, um contexto social, económico e político de verdadeira mudança, a braços com enormes desafios, nascidos sobretudo das ideologias reinantes ao tempo e da revolução industrial, que trazia consigo novas conquistas científicas e tecnológicas e profundas e aceleradas transformações sociais. O operariado era, assim, uma realidade nova e estruturante do horizonte do pensamento e do paradigma social e cultural dos fins do século XIX.

O magistério da Igreja afirma-se, também, nesta área com a novidade evangélica e com a visão profética de quem nunca se qui atrasar em relação à história para ser capaz de abrir caminhos novos, de adiantar quadros de valores e de oferecer critérios de inspiração para os cristãos serem “sal da terra e luz do mundo”(Mt 5, 13) nos novos tempos e nas “coisas novas” que já aí se adivinhavam.

Destaquemos primeiramente a encíclica Rerum Novarum de Leão XIII, datada de 15 de maio de 1891, verdadeira fonte e matriz da doutrina social da Igreja. Lembremos a partir daí os documentos mais significativos neste campo específico do magistério da Igreja: assim, a encíclica Quadragesimo Anno de Pio XI, de 15 de maio de 1931, quarenta anos após a Rerum Novarum; depois as oportunas radiomensagens de Natal do Papa Pio XII e as inspiradoras encíclicas de João XXIII: Mater et Magistra, de 15 de Maio de 1961, e Pacem in Terris, de 11 de abril de 1963,  seu verdadeiro testamento espiritual; mais tarde as cartas encíclicas Populorum Progressio e Octogesima Adveniens e as muitas mensagens para o Dia Mundial da Paz que ficamos a dever a Paulo VI, assim como as encíclicas de João Paulo II: Laborem Exercens, em 1981, Sollicitudo Rei Socialis, em 1987, e Centesimus Annus, publicada em maio de 1991, cem anos depois da Rerum Novarum; mais recentemente cumpre-nos conhecer, também, o magistério de Bento XVI e do Papa Francisco, pilares estruturantes da actual doutrina social da Igreja e realçar a recente e inovadora encíclica Laudato Si, do Papa Francisco

2. Os Círculos Católicos de Operários nascem desta visão interpretativa do lugar e da missão dos leigos inseridos no mundo do trabalho e empenhados na transformação social, cultural e política a que o magistério da Igreja convida os operários. É, por isso, que poucos anos após a publicação da encíclica Rerum Novarum, de Leão XIII, surge no Porto, com a bênção e pelo zelo apostólico do nosso Bispo de então, Cardeal D. Américo Ferreira dos Santos Siva, o primeiro Círculo Católico em Portugal. Sabemos bem como estava preparado o terreno na nossa Diocese, graças a um intenso trabalho de reflexão, de formação e de compromisso apostólico do Clero e dos Leigos na linha da frente do movimento social católico e das organizações laicais inseridas e interventivas no tecido social, académico, profissional e político ao tempo. Também aqui, o Porto foi pioneiro e muito lhe devem Portugal e a Igreja, neste campo específico do pensamento e da acção no âmbito da doutrina social cristã.

O Círculo Católico de Operários do Porto nasceu desta consciência assumida por todos, muito concretamente pelos leigos e operários católicos do Porto, alguns recém-convertidos vindos do “campo sindical e revolucionário”, como então se dizia. O Círculo Católico não é fruto de imposição de elites sociais ou de decisões da Hierarquia, embora nunca lhe faltasse esta presença, seja no caminho comum a fazer seja na necessária assistência espiritual, que dos sucessivos bispos do Porto e de muitos sacerdotes sempre receberam.

O Círculo Católico de Operários do Porto foi, assim, desde o seu início uma pujante associação de católicos, não só para operários mas constituída por um número sempre muito significativo de operários. Foi seu grande impulsionador Manuel Frutuoso da Fonseca, homem de uma fé militante e grande jornalista no norte do País, que foi igualmente seu primeiro presidente até à morte, em 1908.

Sedeado primeiramente no n.º 192 da Rua dos Mártires da Liberdade e mais tarde transferido para edifício próprio na Rua Duque de Loulé, o Círculo Católico de Operários do Porto foi casa de cultura, escola de formação cristã, espaço de partilha solidária e palco de debate livre na vanguarda da missão da Igreja na sua relação com o mundo do trabalho, ao longo destes 118 anos. Nem sempre foi fácil a travessia deste tempo histórico mas, mesmo nos momentos mais difíceis, nunca faltaram servidores generosos desta causa nem obreiros disponíveis para esta casa, mantendo intocável o carisma inicial e respondendo aos desafios novos com que, em cada época, são confrontados os operários e as suas famílias.

3. Aqui estamos hoje, 118 anos depois, para darmos graças a Deus por todos e por cada um daqueles que fizeram o Círculo Católico de Operários do Porto. Como instituição da Igreja e da Cidade e sedeado em pleno coração histórico do Porto, o Círculo Católico, agora transformado em instituição particular de solidariedade social, é um verdadeiro património da nossa Cidade e tem hoje caminhos abertos para prosseguir com imaginação e ousadia o seu desígnio de missão. Não lhe faltarão nunca, como nunca lhe faltaram no passado, a presença e a dedicação agradecida dos bispos e da Igreja do Porto. Tem sido sempre afirmada a colaboração solícita e aberta dos Responsáveis autárquicos da nossa Cidade, assim como é visível o carinho dos portuenses. Certamente que as realidades diferentes que agora vivemos obrigam-nos a um espírito criativo e imaginativo para encontrarmos as respostas necessárias e adequadas para os problemas novos, que temos pela frente.

Como católico que é na sua génese, nos seus propósitos e sobretudo nos seus membros, este Círculo foi sempre um espaço aberto a todos, independentemente da sua fé. E é assim que queremos e devemos continuar! Não esqueçamos o seu programa fundador, publicado a 17 de junho de 1899. Felizmente muito caminho foi percorrido em Portugal no mundo do trabalho, também graças aos nossos fundadores e a vós, membros e dirigentes do Círculo Católico de Operários do Porto! Basta, a título de exemplo, referir entre tantas outras porfiadas conquistas no sentido do trabalho digno e do salário justo quanto ao Círculo Católico do Porto se deve na afirmação corajosa e persistente do direito ao descanso dominical para os trabalhadores, que o Governo de João Franco haveria de legislar, em 1907.

Não é em vão que os Círculos Católicos de Operários foram sempre escolas de dignidade humana, de consciencialização do valor do trabalho como um direito, da realização da pessoa no trabalho e da dignidade da família dos operários. São chamados a ser, também hoje, porta aberta para lutar pelo direito ao trabalho digno para todos, ao salário justo e equitativo, ao respeito pelo lugar e valor da família no mundo do trabalho. Pertence-lhe igualmente afirmar o valor insubstituível do empreendedorismo e do esforço dos empresários, por mais pequenos que sejam, no serviço da justiça, no progresso social e no desenvolvimento dos povos, que nunca se conseguirá sem a lucidez e a verdade da economia e sem a audácia e a persistência dos empreendedores.

Como instituição da Igreja e da Cidade temos como dever primordial estabelecer pontes e criar sinergias com as outras instituições, as mais próximas e as mais distantes, sem esquecer o terceiro sector e o vasto mundo da florescente economia social, para não nos fecharmos em auto-referências que nos limitam e nos empobrecem.

4. Sabemos, também, que a nossa fé cristã tem como consequência lógica de termos encontrado Jesus Cristo procurar que O encontrem e amem também os nossos familiares, amigos, vizinhos e colegas de profissão e compreendemos que Deus se sirva habitualmente do testemunho e da palavra dos cristãos para atrair a Si aqueles que ainda não O conhecem.

Desde o início, este Círculo Católico de Operários do Porto foi dedicado á protecção do Sagrado Coração de Jesus. Não é indiferente a esta decisão o ambiente de fé e de devoção ao Coração de Jesus vivido no Porto graças à acção apostólica e à intervenção social da Irmã Maria do Divino Coração e da consagração do Mundo ao Coração de Jesus que, a pedido desta Religiosa, a quem o Porto tanto deve, o Papa Leão XIII fez, em 11 de junho de 1899, dois dias depois da morte da Madre Maria do Divino Coração.

Proponho-vos que continueis este espírito inicial que desde há muito aqui está presente. A generosidade tantas vezes heróica dos actuais dirigentes do Círculo Católico do Porto diz-nos que há gente disponível para o trabalho voluntário. Obrigado, por isso!

Os operários e as empresas do Porto, Cidade e Diocese, merecem o vosso esforço, agradecem a vossa dedicação e louvam o vosso exemplar testemunho. Importa ir ao encontro de todos e a cada um convidar para a missão que Deus nos confia através de uma Igreja atenta a todos, e muito concretamente aberta ao mundo operário.

5. É em comunhão com o Papa Francisco, Pastor universal da Igreja, que afirmamos sempre a nossa fé, nos reunimos e celebramos esta Eucaristia. É de olhos postos em Nossa Senhora, Mãe de Deus e nossa Mãe, Padroeira desta Cidade, Cidade da Virgem, que hoje vos convido a percorrer os horizontes do futuro e a assumirmos os propósitos e os sonhos que em comum acalentamos para o Círculo Católico de Operários do Porto.

Que o Sagrado Coração de Jesus, nosso Padroeiro, nos conceda graças e bênçãos para continuarmos a crescer como pessoas, como famílias e como instituição, disponíveis para a missão de anunciar “a Alegria do Evangelho” e de servir a Igreja e o Mundo do trabalho que tanto precisam da bênção de Deus e do testemunho dos cristãos.

Porto, Sé, 19 de junho de 2016

António, Bispo do Porto

 
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