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Quando Jesus começou a manifestar a consciência que tinha do termo próximo da sua presença física no mundo, as suas palavras e discursos passaram a ser marcados por interrogações, enigmas, mistérios e a consequente apreensão para os discípulos.
Tendo ido a Jerusalém, foi mal recebido, por reacção ao significado e mistério das obras e da obra que não entendiam. Com os discípulos que O acompanhavam falou da exigência de vocações apostólicas. Parece que era fácil prometer disponibilidade para a missão, contanto que não houvesse urgência perante outras prioridades de família, negócios e profissão.
Então o Senhor designou outros setenta e dois discípulos e enviou-os dois a dois. Avisou desde logo: "A messe é grande, mas os trabalhadores são poucos" (Lc.10, 2). Deu-lhes conselhos para a credibilidade e eficiência da missão: Pobreza, humildade, coragem, determinação, discernimento, sentimentos de paz... E dotou-os de carismas em favor dos necessitados, ao mesmo tempo que lhes ditava a síntese da sua pregação inicial e essencial: "O Reino de Deus está próximo de vós" (Lc.10, 9).
Entretanto, cumprida a missão, os setenta e dois voltaram cheios de alegria dizendo: "Senhor, até mesmo os demónios se nos sujeitaram em Teu nome" (Lc.10, 17). Jesus respondeu: "Sim, Eu via Satanás cair do céu como um raio". Reforçava-lhes o poder espiritual, a manifestar-se através dos prodígios, mas reorientava-lhes o entusiasmo: "Contudo, não vos alegreis porque os espíritos vos obedecem, alegrai-vos antes por estarem os vossos nomes escritos nos céus" (Lc.10, 20).
E nesse mesmo instante, estremeceu de alegria sob a acção do Espírito Santo. Este será o único momento, o único lugar teológico dos Evangelhos em que se fala expressamente da alegria de Jesus, e sob a acção do Espírito Santo. Esta manifestação exultante de Jesus é uma síntese dos seus sentimentos pelo êxito dos setenta e dois e pelo futuro da Igreja. Os discípulos estavam a tomar conhecimento dos maravilhosos mistérios do desígnio de Deus sobre o Reino. De facto, muitos profetas e reis teriam desejado ver e ouvir e não viram nem ouviram aquilo que estes primeiros discípulos testemunharam.
E por tudo aquilo que estava a acontecer com a Igreja que nascia é o próprio Jesus que dá graças ao Pai, pois tudo dependia do desígnio, do projecto e do agrado do Pai, que escondeu estas coisas aos que no mundo têm o nome de sábios e inteligentes e as revelou aos pequeninos. Esta relação do Filho, Jesus Cristo, com Deus Pai, é uma relação de confiança e missão, e de conhecimento, com carácter mútuo como é próprio de Pessoas Divinas na identidade de uma só natureza, mas é uma relação que abrange e compreende a Igreja dos discípulos de Cristo, filhos do mesmo Pai, na comunhão vital que o Espírito Santo lhes proporciona: "Tudo me foi entregue por meu Pai, e ninguém conhece o Filho senão o Pai; nem quem é o Pai senão o Filho e aquele a quem o Filho houver por bem revelar-lho" (Lc.10, 22).
Assim compreendemos melhor a resposta que Cristo deu a Tomé, que não conhecia o caminho para o Pai: "Eu sou o caminho, a verdade e a vida" (Jo.14,6). E a resposta a Filipe, para quem bastava conhecer o Pai: "Quem me vê, vê o Pai... Eu estou no Pai e o Pai está em Mim; acreditai ao menos pelas minhas obras... quem acredita em Mim fará também as obras que Eu faço" (Jo.14, 9ss.). A alegria de Cristo, como manifestação do Espírito, é consequentemente a alegria pela sua obra fundamental - a Igreja de Cristo e do Espírito.
Convocados para esta celebração, é-nos grato evocar os momentos e motivos mais significativos da história da Congregação das Franciscanas Missionárias de Nossa Senhora.
A vida, exemplo e espírito de S. Francisco de Assis esteve na origem de três comunidades religiosas que logo após a morte do Santo se constituíram em Saint-Pol (norte de França), filiadas numa comunidade da Ordem Terceira Regular. A fecundidade espiritual dessas três comunidades elevou o seu número para sete. Ultrapassada a crise de perseguição e extinção, provocada pelo laicismo extremo da Revolução Francesa (1789), restabeleceram-se e multiplicaram-se as comunidades e congregações, com destaque para a Diocese de Arras, onde a comunidade de Calais tomou e adiantou iniciativas que conduziram à união das sete casas. Sob a autoridade do Bispo da Diocese, tiveram importância fundamental o Abbé Adolphe Duchenne, capelão da comunidade de Calais, e a Irmã Louise Mabille, eleita e confirmada como Primeira Superiora Geral. O dia 30 de Maio de 1854 é considerado o dia da união das sete casas numa única Congregação, cujos Estatutos de aprovação definitiva datam de 10 de Março de 1873. Assim, as Franciscanas de Calais passaram a Congregação de direito pontifício. A partir de 1965 começaram a ser designadas Franciscanas Missionárias de Nossa Senhora.
Orientadas pelo seu carisma congregacional - Espírito de Família, de União e Comunhão - as Irmãs Franciscanas Missionárias de Nossa Senhora encerram as comemorações do 150º centenário neste ano de 2005 mas com referência ao ano 2004, e ao ano da fundação, que foi o ano da aparição da Senhora da Conceição em Lourdes. Evocando o serviço à Igreja e à Sociedade a partir do carisma original e concretizado na presença dedicada em hospitais, lares de idosos, escolas, obras sociais, paróquias e na missão ad gentes , as Irmãs fizeram proclamar nesta Eucaristia um texto da Carta de S. Paulo aos Filipenses. É uma fórmula de oração na alegria, no reconhecimento, na acção de graças e na abertura, sem medo, ao mundo que as acolhe: Alegrai-vos no Senhor! Que a vossa bondade não se esconda nem busque refúgios de humildade, mas seja uma luz que aquece, acalenta, anima e ilumina os caminhos da existência: "O Senhor está próximo". É a ideia da parusia e ao mesmo tempo da proximidade, da segurança, da serenidade, da paz, da esperança. Que a vossa oração não tenha a marca da mendicidade ou da angústia, mas seja a oração da felicidade e acção de graças. A vossa Páscoa permanente é a Páscoa da paz que o Senhor ressuscitado anuncia e dá, não a paz convencionada por equilíbrios humanos, mas a paz de Deus, que vem do Deus da paz.
"De resto, tudo o que é verdadeiro, tudo o que é nobre, tudo o que é justo, tudo o que é puro, tudo o que é amável, tudo o que é virtude e mereça louvor, tende isso em mente. E o que aprendestes e vistes em mim, ponde isso em prática" (Fil.4, 8-9).
Assim falou S. Paulo a uma comunidade cristã que se deixou possuir e iluminar pelo Evangelho para viver com felicidade e gerar alegria em quem lhes anunciou Cristo e a Salvação. Assim viveu S. Francisco de Assis na fraternidade com as irmãs criaturas e no louvor a Deus pelas suas criaturas.
Com o mesmo espírito de oração e acção de graças celebrais 150 anos de serviço ao mundo das criaturas e de fidelidade dedicada à Igreja que por isso faz festa convosco nesta hora de Eucaristia, de acção de graças. D. Armindo Lopes Coelho, Bispo do Porto
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