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Pensar Fátima: o Congresso do Centenário PDF Versão para impressão Enviar por E-mail
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Pensar Fátima, foi o tema do Congresso Internacional sobre Fátima de junho passado. José Carlos Carvalho, docente da Faculdade de Teologia da UCP-Porto, e membro da Comissão Organizadora deste congresso, em entrevista à VP, refletiu sobre este importante acontecimento


Fátima é hoje um local de peregrinação para crentes e não crentes, um fenómeno religioso global que tem tido sempre uma atenção especial de todos os últimos Papas. Desde Paulo VI que todos os Papas vieram a Fátima. Francisco esteve em Fátima nos dias 12 e 13 de maio neste ano do centenário.

 

De 21 a 24 de junho decorreu em Fátima neste ano do Centenário das Aparições de Nossa Senhora na Cova da Iria o Congresso Internacional: “Pensar Fátima, Leituras interdisciplinares”. José Carlos Carvalho (JCC), docente da Faculdade de Teologia (FT) da Universidade Católica Portuguesa (UCP) no Porto, e membro da Comissão Organizadora deste Congresso, refletiu sobre este importante acontecimento, lançando algumas conclusões a título meramente pessoal.

VP: Quais foram as áreas das intervenções produzidas neste Congresso Internacional?

JCC: Foram sete: Fátima e as dinâmicas sociais, Fátima na perspectiva da fenomenologia religiosa, a História, a Mariologia nas fontes de Fátima, a Apocalíptica e as linguagens proféticas em Fátima, a Espiritualidade e a Teologia da própria mensagem, e as repercussões de Fátima ao longo destes cem anos. Procurou-se, deste modo, cobrir as grandes áreas, permitindo assim oferecer vários ângulos de abordagem e de estudo da mensagem de Fátima.

VP: É possível formular algumas sínteses sobre este Congresso?

JCC: Uma coisa é a avaliação formal do congresso em si, outra coisa é o que foi concluído, sintetizado e aberto para ulteriores investigações. Antes de mais este Congresso conclui uma série de outros seis simpósios teológico-pastorais anteriores que ajudaram a preparar o centenário. Do congresso em si há que dizer que, se por um lado sintetizou muita da reflexão anterior, por outro lado foi inovador ao nível da sua organização e estrutura (pois optou-se pela primeira vez por abrir a investigadores nacionais e internacionais a possibilidade de intervenções e de comunicações – o que aconteceu) Além disso, este congresso foi muito interessante, porque deixou várias pistas para a investigação e para a reflexão teológica em Portugal. Foi por isso um ponto de chegada mas também um ponto de partida. Se quisermos, poderemos considerar estas três grandes sínteses. Mas detenhamo-nos, então, nas grandes sínteses a que se chegou com este congresso, e que vieram confirmar vários estudos e reflexões.

Há hoje, por isso, algumas sínteses que já foram ficando estabilizadas. Logo a primeira: a própria leitura da história e as várias historiografias que leem o fenómeno e que o vão continuar a fazer.

A repercussão ecuménica da mensagem de Fátima no diálogo com os nossos irmãos protestantes (o que é que isso aportou, o que dificultou, ainda que considere que este aspeto é um pouco esquecido); ao nível da teologia, e ainda que nem todos os temas mereçam a mesma atenção e nem todos tenham sido tratados neste congresso, começa-se hoje a estabilizar a consciência de que ao nível da teologia a mensagem de Fátima é profundamente trinitária e cristológica (este é um lastro que vem de detrás, pois a reflexão, sobretudo desde os trabalhos do padre José Maria Alonzo, desde os primeiros congressos nos anos noventa do século passado, ajudou também a corrigir algumas leituras que se centraram demasiado em algumas práticas espirituais e devocionais).

A releitura por dentro da mensagem com a publicação dos vários volumes da Documentação Crítica que é absolutamente fundamental: temos ali uma fonte para se conhecer o fenómeno, o que está por trás, como surgiu, o contexto, o conhecimento que nós temos cada vez maior dos contextos da história do século passado, o contexto em que o fenómeno surgiu há cem anos e como foi evoluindo ao longo deste período.

O contributo do Santuário também ao nível da pastoral (aqui incluímos estes encontros científicos que são os simpósios e os congressos, bem como a tradução artística e plástica que nos últimos anos o Santuário tem conseguido em inúmeras manifestações culturais; consideramos que o congresso conseguiu mostrar como essas realizações musicais, teatrais, artísticas, esculturais, museológicas, de dança e de arte performativa e decorativa, arquitetónica são hoje expressão do esforço conseguido do santuário em traduzir a Mensagem em novas linguagens).

“… a mensagem de Fátima

tem uma incidência pública,

tem consequências políticas

e tem uma repercussão social…”

Portanto, algumas conclusões começam como que a fazer parte do aprofundamento da mensagem de Fátima. Estou convencido que ainda haverá muito por aprofundar ao nível do tom e do carater apocalíptico da mensagem de Fátima, quer ao nível da linguagem quer ao nível da incidência pública e política da mesma, para lá do embate com a República à época das aparições. Estão por explorar os cambiantes mariológicos da Mensagem, quer ao nível da mariografia quer da mariologia e, nomeadamente, em contexto ecuménico. Considero este um tema particularmente interessente, ainda que difícil. Foi curioso ver que no congresso alguns oradores não descuraram, também em nome dessa apocalíptica (que recebeu tradução na teologia política do século passado), a repercussão social da mensagem de Fátima. E esse é um filão que eu considero que este Congresso do Centenário veio chamar a atenção para ele. Ou seja, a mensagem de Fátima tem uma incidência pública, tem consequências políticas e tem uma repercussão social quer na própria comunidade eclesial quer para a sociedade no seu todo. E torna-se permanentemente uma chave de confronto com as ideologias, com muitas modas. E é muito interessante fazer esse confronto mesmo que seja, muitas vezes, politicamente incorreto”.

VP: Podemos, assim, dizer que existe hoje ao nível da comunidade académica uma compreensão mais concreta do fenómeno e da mensagem de Fátima?

JCC: De algum modo em alguns temas há hoje uma estabilização. Como eu disse ao nível das várias visões historiográficas há hoje uma perceção muito maior das várias leituras quer dos acontecimentos quer do fenómeno Fátima.

Ao nível da teologia, ressalta cada vez mais a centralidade trinitária da mensagem de Fátima, o lugar central de Deus, e como é que isso é hoje traduzível, ou melhor: a que é que isso obriga a retraduzir a linguagem de 1917, porque hoje, obviamente, é preciso dizer o que é que significa sacrifício, reparação, consolação. Trata-se de categorias que não são imediatamente apropriadas pelas novas gerações e muito menos por muita da cultura contemporânea, pois praticamente desapareceram do léxico da comunicação social.

Aqui, ganharam relevo as categorias de encontro, de dom, de compaixão e de experiência. E nesse sentido, tem vindo a ser paulatinamente desenvolvido esse trabalho de retradução da mensagem de Fátima que é uma mensagem riquíssima e que inclusive do ponto de vista pedagógico e humano está centrado em três crianças.

Portanto, considero que alguns consensos começam a estabilizar-se e algumas pistas estão aí abertas na permanente releitura dos sinais dos tempos, na releitura da própria profecia que é a mensagem de Fátima em cada época e também na nossa e para as que vêm a seguir. Esse trabalho de reflexão obviamente que vai continuar e o Santuário encontrará as modalidades e os timings e modelos.”

“Porque hoje, obviamente,

é preciso dizer o que é que significa

sacrifício, reparação, consolação.”

VP: Quer destacar alguma novidade organizativa que este Congresso tenha trazido?

JCC: Este congresso trouxe uma novidade: pela primeira vez nas chamadas tardes havia uma primeira conferência temática sobre cada um dos temas gerais e a seguir abriu-se a possibilidade de que se auto propusessem investigadores internacionais. E isso abriu sobremaneira o leque de participantes. E essa foi uma novidade que permitiu e abriu o espectro de participações. E aquelas a que eu pude assistir foram muito interessantes, não apenas pela variedade, mas também pelo contexto dos intervenientes, pelo próprio testemunho partilhado. E, nesse sentido, isso foi uma novidade para o ritmo da organização destes encontros no Santuário de Fátima. Estas realizações, estas conferências, serão todas publicadas para ficar mais um contributo para este trabalho de reflexão teórica, científica na qual o Santuário recorreu em parceria à colaboração da FT da UCP, e assim tudo ficará aí como testemunho e como contributo onde poderão inspirar-se outros investigadores, para que também o mundo académico em Portugal tenha acesso a um conjunto de publicações.

Deste modo, quando começar a folhear estas páginas, não apenas devido ao currículo de quem interveio mas pelo próprio conteúdo, começará a dar-se conta de que o que foi tratado e como foi abordado está ao nível suficiente para dialogar com os vários saberes. Um dos propósitos aquando da organização e estruturação do congresso, que começou a ser preparado remotamente desde há cerca de três anos atrás, era desafiar e convidar a comunidade académica no nosso país a investigar o fenómeno Fátima em perspetiva inter e multidisciplinar. Este considero um objetivo que não foi atingido. Subsiste muito preconceito no ambiente académico português, por uma história que vem de longe. Mas a pastoral de inteligência que o Santuário desenvolve presta este serviço à ciência, e ao publicar as atas deixa aí acessível, a todos, esta reflexão. Deste modo, considero que o Santuário, para usar uma expressão clássica que remonta a Tertuliano, serve Atenas e Jerusalém.

 

Entrevista conduzida por Rui Saraiva

 
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