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Um olhar sobre o 4º Encontro Nacional de Leigos PDF Versão para impressão Enviar por E-mail
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“Fazer Deus e a Sua Igreja presentes nas realidades da vida”


Ângelo Soares é Diretor do Secretariado da Pastoral Familiar na Diocese do Porto e colabora também com a Pastoral das Vocações. Em entrevista à VP revela que gostou da proposta interpeladora do Encontro Nacional de Leigos, sublinha a qualidade das comunicações e assinala que este grande evento laical permitiu motivar os participantes para novas maneiras de viver o cristianismo

“Temos de trabalhar, cada vez mais, para assumir este papel que é o nosso e onde somos insubstituíveis” – é desta forma que Ângelo Soares (AS) define, na sua opinião, a missão dos leigos na Igreja e na sociedade. Segundo afirma nesta entrevista à VP este “é o tempo de passar à prática, muito mais do que até agora, assumindo plenamente o que é a especificidade da nossa missão de leigos: fazer Deus e a Sua Igreja presentes nas realidades da vida do mundo”. Ângelo Soares é um cristão muito ativo que falou à Voz Portucalense na primeira pessoa:

VP: Qual a primeira impressão que teve sobre este evento logo no início da sua participação no 4º Encontro Nacional de Leigos?

AS: “Começou por me surpreender a amplitude de temas propostos e a diversidade e qualidade dos intervenientes. Confesso, no entanto, que me desgostou a divulgação tardia e o facto de haver outros eventos coincidentes no tempo, ou em fins-de-semana contíguos, dirigidos a pessoas que poderiam ou mesmo deveriam estar presentes. Este é um desafio para futuro: coordenar melhor os diversos eventos, eventualmente conjugando-os num mesmo fim-de-semana, para que mais gente possa aproveitar.

Impressionou-me ainda, logo à chegada, um bom acolhimento e a variedade de pessoas: proveniências diversas, vários movimentos e outras estruturas pastorais, leque de idades muito amplo. A presença de perto de uma dezena dos nossos bispos reforçou em mim a importância deste encontro e a confiança que depositam num laicado consciente e bem formado.

Finalmente, não posso deixar de referir a escolha feliz do tema do evento. “Este é o tempo”. É de facto uma proposta interpeladora, que nos desafia a ser leigos cristãos aqui e agora, nas circunstâncias concretas em que cada um vive, sem adiar, sem saudades do passado que não volta nem espera passiva dum futuro eventualmente melhor ou mais favorável.”

VP: Das comunicações da manhã quais as que o tocaram particularmente?

AS: “Penso que todas as comunicações foram interessantes, pelos temas abordados, pela complementaridade e pela capacidade dos comunicadores. Deixem-me chamar-lhes assim porque foram de facto muito mais do que oradores, foram transmissores de mensagens de conteúdo muito rico.

Houve, no entanto, 3 comunicações que me tocaram particularmente, por razões diversas. Começo pela última, talvez a mais simples, do Paulo Lema. Foi para mim surpreendente como uma ação pequenina e localizada apenas numa turma duma escola – a criação do cubo ou dado da paz – pôde transformar-se numa rede que já chegou a 113 países e mais de 200 mil pessoas que desenvolveram uma nova consciência do seu papel de fazedores da paz e testemunham em cada dia que a paz é possível.

O testemunho da Frankie Gikandi tocou-me dum modo especial, talvez porque fiz recentemente uma experiência de voluntariado em Moçambique que me marcou e me despertou um novo olhar para as realidades africanas, em especial o problema da capacitação. A Frankie apresentou duma forma muito simples mas muito convicta a capacidade transformadora das comunidades, resultante sobretudo da força de vontade e capacidade empreendedora das mulheres. Mostrou como do pouco se pode fazer muito e como são bem empregues e bem aproveitados os recursos que lhes confiamos, não só os materiais mas sobretudo aqueles que conduzem à capacitação e criação ou reforço de competências.

Finalmente, a comunicação inicial da Marisa March tocou-me pela força das convicções, pela humildade duma cientista que quase se “anula” ao contemplar as maravilhas da Criação, em especial na sua área de estudo de estrelas e galáxias longínquas no espaço-tempo, e que através dessa meditação redescobre Deus em cada dia.”

VP: Os ateliers da tarde foram momentos de aprofundamento das temáticas propostas. Como acha que decorreram e que contributos permitiram?

AS: “Começo por dizer que, mais do que ateliers, foram painéis que apresentaram diferentes testemunhos e conteúdos. Atendendo a que nos propunham seis pares de ateliers, em locais diferentes, e como ainda não sei fazer como Santo António e multiplicar a minha presença, só posso falar do único atelier em que participei, porque tive de regressar antes do final do encontro devido a outros compromissos.

O atelier sobre “Pensar o valor e a missão do trabalho” apresentou três perspetivas que se complementaram. Primeiro um economista transmitiu alguns indicadores sobre o impacto decrescente dos salários no PIB, o aumento do número de trabalhadores qualificados acompanhado da redução do número global de trabalhadores, a evolução dos números de idosos e sós e do desemprego real. Chamou a atenção para as diferenças quase obscenas entre os salários mais baixos e os de alguns gestores e para a crescente desigualdade que vamos observando na sociedade, para concluir sobre a necessidade duma mudança de paradigma, em que se reduz o tempo de trabalho semanal mas se dedicam mais horas a serviços à comunidade.

Ouvimos depois uma jornalista e mãe de família, que abordou vários aspetos do pensamento do papa Francisco sobre o tema, chamando a atenção para três aspetos: a dignidade do trabalho, a cultura do descanso e lazer e a atenção às periferias. Apelou ainda à consideração dos trabalhos tradicionalmente não considerados como tal: o trabalho doméstico, o voluntariado, o cuidado dos sós e idosos. Finalmente, deixou uma interpelação para um aspeto que tem andado um tanto esquecido: até nós, católicos, não respeitamos o descanso dominical!

Por fim, recebemos o testemunho dum gestor acerca dos esforços e opções que tem de fazer para harmonizar a sua vida laboral e familiar e manter um equilíbrio saudável entre a realização como pai, como marido, como família alargada, como amigo dos seus amigos e como profissional. Foi patente a necessidade duma grande atenção para que os desafios da vida moderna não destruam este equilíbrio. Referiu ainda como seria importante e desejável que, nos recrutamentos, nos apresentemos como pessoas na sua totalidade e não apenas como profissionais, e como há ainda muito caminho a fazer para que as empresas se coloquem nesta perspetiva.

Teria sido interessante ouvirmos ainda alguém do mundo laboral mais “de quem mete as mãos na massa”, daqueles que se confrontam diariamente com a escassez de recursos, a precariedade dos vínculos, as obrigações laborais para lá do razoável, as pressões sobre a maternidade, etc., aspetos que foram, no entanto, abordados no tempo de diálogo pela interpelação e testemunho dum membro do MTC/LOC.”

VP: Como sentiu o clima entre os participantes deste 4º Encontro Nacional?

AS: “Do que fui observando, pareceu-me haver um grau de satisfação razoável. Senti, porém, que, para algumas pessoas, os conteúdos foram demasiado densos e pouco compreensíveis, o que aliás me foi também transmitido por amigos que lá encontrei e que são responsáveis por grupos laicais nas terras onde vivem e com quem foram a Viseu.

Confesso que receei que a diversidade de propostas para a tarde deixasse alguns espaços desertos ou quase, mas das conversas que tive até ao almoço fiquei com a ideia de que haveria interessados para todos, o que confirma a boa escolha que a organização fez.

Acredito ainda que as pessoas presentes perceberam ou avivaram a sua perceção de que podemos e devemos ser cristãos de muitas formas e em todos os tempos e lugares e por isso mesmo se foram sentindo motivadas a novas maneiras de viver o seu cristianismo. Pouco ou nada se falou de ser cristãos dentro das paredes das igrejas; muito pelo contrário. E creio que essa mensagem, explícita ou implícita, “passou” e foi acolhida pelos participantes.”

VP: Este Encontro foi um momento de afirmação do laicado português. Como vê o papel dos leigos na Igreja e na sociedade e, já agora, como é que é possível levar para as nossas dioceses a esperança, a justiça, a paz e o amor de que nos falou este Encontro Nacional?

AS: “Como diz o tema do Encontro, “Este é o tempo”. É o tempo para o laicado revisitar o que sobre ele se diz nos documentos do Vaticano II, que embora já tenham 50 anos se mantêm tremendamente atuais.

Isto começa por uma exigência de formação que nós leigos não temos tido para connosco mesmos. Como tive oportunidade de dizer há dias noutro contexto, não podemos ficar por uma 4ª classe mal tirada no que se refere às questões da fé e da vida cristã. Daí que muito me alegre a adesão que este Encontro teve! São oportunidades que temos obrigação de aproveitar, esta e muitas outras que vão aparecendo nas nossas dioceses, oferecidas quer pelos movimentos apostólicos quer pelas estruturas pastorais nos mais diversos âmbitos. E nestas formações temos de incluir o aprofundamento dos assuntos que interessam a toda a humanidade, lendo-os à luz de Deus, como aqui aconteceu e muito bem.

É o tempo de passar à prática, muito mais do que até agora, assumindo plenamente o que é a especificidade da nossa missão de leigos: fazer Deus e a Sua Igreja presentes nas realidades da vida do mundo e dos homens que o habitam, de todos os homens. Temos de trabalhar, cada vez mais, para assumir este papel que é o nosso e onde somos insubstituíveis. Não podemos mais subalternizar-nos, pensar que somos leigos porque não damos para mais. Temos de sair daquela postura de que até “ajudamos o senhor padre”. Não o ajudamos: fazemos o nosso papel e ele faz o dele.

Penso que precisamos muito de mudar o foco da nossa ação pastoral. Ainda vivemos muito para os “da casa”, os que andam pelas igrejas, os que vão à missa e às devoções. Sendo importante que façamos comunidade uns com os outros e nos entreajudemos a manter-nos perseverantes, não é menos importante que saiamos ao encontro dos que não vemos por lá. É verdade que muitas comunidades já têm um papel muito ativo no serviço aos irmãos, sobretudo no âmbito da ação sociocaritativa, mas é possível e necessário que sejamos mais presentes na cultura, na política, nas empresas, nas escolas.

A voz da Igreja tem de chegar a todos, sem medos, quer pelas vias institucionais quer pela força dos nossos testemunhos no quotidiano. É nas 24 horas de cada dia que temos de nos afirmar cristãos. Não é de modo nenhum aceitável o que alguém relatou em Viseu acerca dum empresário dito católico que afirmava em relação às queixas dos seus trabalhadores “Eu não tenho problemas porque deixo o coração lá fora quando entro na empresa”.

Não estou aqui a advogar o proselitismo, só estou a dizer que sejamos coerentes, que atuemos de acordo com as nossas convicções e que façamos a diferença pela qualidade da nossa cidadania. Isso também é cuidar da casa comum, como nos pede o Papa.”

 


Perfil

 

Ângelo Soares tem 63 anos é casado, pai de 3 filhos e avô de 1 neto. É Engenheiro Eletrotécnico aposentado da Efacec, tendo sido assistente na Faculdade de Engenharia no início da sua vida profissional. É natural do Porto mas vive na Maia. Viveu intensamente a sua vida cristã na Paróquia do Carvalhido no Porto onde foi catequista durante 37 anos. Participou nos Convívios Fraternos e é Ministro Extraordinário da Comunhão desde 1974. Faz parte do Secretariado Diocesano da Pastoral das Vocações e é o Diretor do Secretariado Diocesano da Pastoral Familiar. Fez parte do Serviço Nacional das Vocações nos 2 mandatos presididos por D. António Francisco dos Santos. Atualmente é também voluntário na Re-food, na Obra do Frei Gil e na Ser Mais Valia.

 
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