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A arte na liturgia deve ser convidativa, não invasiva e humilde PDF Versão para impressão Enviar por E-mail
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Quem o afirma é o padre e artista Marko Rupnick, que esteve no Porto no âmbito de uma colaboração com o projeto da nova Igreja de Canidelo, em Vila Nova de Gaia. O sacerdote jesuíta, famoso pelas suas obras em mosaico ao serviço da liturgia, visitou os terrenos da futura obra, teve reuniões de trabalho e proferiu uma conferência na Biblioteca do Seminário Maior do Porto sobre arte e liturgia. Teve tempo ainda para um curto encontro com os jornalistas. A VP fez reportagem e publica aqui uma entrevista ao padre Rupnick

 

 

“Cidade de Deus e dos homens” é o nome do Centro Paroquial de Canidelo inaugurado no dia 28 de maio de 2017 na presença de D. António Francisco dos Santos, saudoso bispo do Porto, e do presidente da Câmara Municipal de Vila Nova de Gaia, Eduardo Vítor Rodrigues. Esta estrutura foi construída no local da antiga Seca do Bacalhau e é aí que nascerá em breve a nova igreja paroquial.

Fruto do labor e da iniciativa do padre Almiro Mendes, pároco de Canidelo, a nova igreja ganhará forma nos traços dos arquitetos Valentim Miranda e Miguel Miranda e da colaboração artística do padre Marko Rupnick.

O sacerdote jesuíta, famoso pelas suas obras em mosaico ao serviço da liturgia, esteve no Porto no passado dia 4 de janeiro. Na agenda uma visita aos terrenos da futura obra, reuniões de trabalho e uma conferência na Biblioteca do Seminário Maior do Porto sobre arte e liturgia. Arranjou tempo ainda para um curto encontro com os jornalistas.

O padre Marko Rupnick afirmou nesse encontro com os media sentir um bom ambiente de trabalho com os arquitetos responsáveis pelo projeto da nova igreja. Um ambiente vivido em diálogo e disponibilidade para a colaboração. Mais uma razão que se vem somar a outras, dos tempos em que trabalhou em Fátima na Basílica da Santíssima Trindade e que fazem sentir o padre Rupnick como um “parente” dos portugueses. “Sinto-me muito familiar com os portugueses” – disse o sacerdote.

Publicamos aqui na íntegra a entrevista ao padre Marko Rupnick:

VP: Como é que acolheu este pedido de colaboração com a paróquia de Canidelo aqui na Diocese do Porto?

MR: Desde que fui chamado a trabalhar em Fátima, pode parecer estranho, mas sinto-me muito familiar com os portugueses. Como se fôssemos parentes e digo-o seriamente. Sinto que há um bom entendimento. Eu sinto-me assim. Portanto, acolhi com muita alegria esta colaboração.

VP: Onde vai buscar inspiração para o trabalho que aqui vai desenvolver?

MR: Não sei… (sorriso). É por isso que vim cá… Mas gostaria de dizer uma coisa: o modo como se está a fazer o projeto da Igreja no meu parecer é já algo de importante e belo. Hoje estamos ainda numa cultura do triunfo do indivíduo. Ao invés, encontrei aqui os arquitetos Miranda que têm disponibilidade para o diálogo e de procurar trabalhar em conjunto. E isto é algo que promete. Pois não há uma emergência do indivíduo mas uma convergência. E isto é algo muito belo. Perguntou-me onde irei buscar inspiração para este projeto. Bem, até hoje todas as inspirações vieram-me dos encontros com as pessoas. E por isso quando me chamam eu venho. Nunca vou sozinho, não me proponho eu, mas respondo a um chamamento. E se há um chamamento haverá também uma inspiração.

VP: Qual a importância da relação entre a arte e a liturgia?

MR: Digamos que o divórcio entre a arte e a Igreja é muito doloroso. Paulo VI fez na Capela Sistina há tantas décadas atrás um discurso muito sofrido sobre este divórcio entre a arte e a Igreja. Um divórcio que fez danos a ambas. À arte, a Igreja ofereceu sempre a vida. Porque a Igreja oferecia aos artistas uma vida no Espírito, uma vida que permanece. E a arte e o artista oferece à Igreja uma expressão desta vida como beleza. Como qualquer coisa que é apelativa e que fascina. Que pertence só a este mundo. E este divórcio é muito doloroso porque hoje a arte arrisca-se a ser só uma questão de forma e de expressão. Mas a questão é: qual a vida que se comunica. E a Igreja tornou-se numa organização de projetos, de abstrações racionalistas, de moralismos. Tornamo-nos bons mas não somos belos. O mundo pode até aplaudir-nos, a nós católicos, dizendo que somos bons mas não nos segue. Porque não somos fascinantes. A arte está sempre ligada à vida: à vida biológica, à vida psíquica e intelectual e à vida segundo Deus. E esta última integra as outras duas. Faz ver o homem na sua imagem definitiva, naquela que permanece. A arte só biológica, a vida só biológica não exprime todo o homem. Aquilo que permanece é o homem de Cristo.

VP: E a arte no espaço litúrgico pode levar mais facilmente o homem a Deus?

MR: A arte na liturgia é como a liturgia, nunca está completa. Porque da parte do homem nós apresentamos a oferta. Mas não está completa a oferta, tem que vir o Espírito Santo. E isto é muito belo, pois o homem não pode fazer de si mesmo uma obra completa, uma perfeição. É Deus quem aperfeiçoa, é Deus quem cumpre em nós aquilo que fica depois da morte. Não deve ser uma arte completa, porque pode fascinar mas aborrece. Tem que ser uma arte que convida, que nos faça curiosos, que não seja invasiva mas humilde.

VP: Acabou de publicar um livro com o título “Segundo o Espírito”. De que é que nos fala este livro?

MR: Este livro faz parte de um bloco de 11 teólogos, de todo o mundo, que foram escolhidos para mostrar como pensa a teologia neste magistério do Papa Francisco. E a mim pediram-me a teologia espiritual. E eu nesse livro procuro mostrar como deveria pensar a teologia espiritual se segue a Igreja de Francisco, ou seja, a Igreja em saída, a Igreja que sai de si mesma, a Igreja relacional, a Igreja onde na relação o outro torna-se o epicentro e não eu. Tomo como figura-chave Abraão que sai de casa, deixa o pai, deixa a pátria. Esta existência segundo a natureza das coisas. A família tem-na qualquer criatura viva, mesmo os animais. Mas o homem não vive segundo a própria natureza, mas segundo um modo de viver que recebe de Deus, que é relacional, é de amor e de livre relação. Todas as outras criaturas têm relações segundo a lei da sua natureza, o homem tem relações livres. E isto recebe de Deus. A vida espiritual começa quando eu descubro que a minha existência é relacional.

VP: Estamos quase a chegar a 5 anos do pontificado do Papa Francisco. Peço-lhe uma pequena reflexão sobre a ação do Santo Padre…

MR: Eu penso que é um Papa que se esperava há tanto tempo, sobretudo, nestas décadas após o Concílio Vaticano II. Agora com Francisco passa-se decisivamente para a segunda fase de compreensão do Vaticano II. Será uma fase muito mais realista e profunda mas também muito mais operativa. Para o Papa Francisco é claríssimo que o módulo de uma Igreja de Constantino-Teodósio já não existe. O Vaticano II encerrou-o: onde ser português significava ser católico; unir etnia e religião. Não existe. Uma estrutura meia estatal ou meia imperial. Não existe. Começa uma grande era cristã nova mas já não no módulo que conhecemos nos últimos séculos.


 

Perfil

Esloveno, de 63 anos, o padre Rupnick formou-se em Belas Artes, em Roma, assim como em Teologia, doutorando-se na Universidade Gregoriana, com especialização em Missiologia. Em 1991 assumiu a responsabilidade do Centro Alleti, para a promoção da arte sacra, congregando artistas tanto de tradição ortodoxa como de tradição católica de rito latino. Dedicando-se por inteiro, a partir de 1996, à atividade artística litúrgica, concluiu em 1999 a decoração da Capela “Redemptoris Mater”, no Vaticano, desejada por João Paulo II, inspirada na tradição iconográfica oriental.

O maior conjunto dos seus mosaicos encontra-se na nova Basílica de Santo Padre Pio, em San Giovanni Rotondo, no sul da Itália (2009). Bem conhecida também a decoração da fachada da antiga Basílica do Rosário, em Lourdes, assim como os mosaicos da Catedral da Almudena em Madrid e os santuários de João Paulo II, em Cracóvia e em Washington.

Em Portugal, a obra mais conhecida é o extenso painel, em mosaico, da Basílica da Santíssima Trindade, embora existam algumas outras intervenções suas em capelas de algumas casas religiosas.


 

Ousamos sonhar

A entrevista que o padre Rupnick concedeu à VP foi à margem da reunião de trabalho que teve em Vila Nova de Gaia no âmbito da construção da nova igreja de Canidelo. Nessa reunião estiveram presentes o senhor D. Pio Alves, bispo-auxiliar do Porto, o pároco, padre Almiro Mendes o padre José Maria Pacheco Gonçalves, colaborador na paróquia, os arquitetos Valentim Miranda e Miguel Miranda e ainda o padre Marco Cunha que acompanhou o padre Rupnick nas sua estada em Portugal.

Em declarações à VP o pároco de Canidelo, padre Almiro Mendes, teve oportunidade de assinalar a sua intenção e da paróquia de pensar bem a concretização da nova igreja. No entanto, seguindo a máxima de que “nós só erramos na vida em dois momentos: quando pensamos muito e não fazemos nada e quando fazemos muito pensando muito pouco”, o padre Almiro lançou uma expressão essencial em todo o processo da nova igreja: “ousamos sonhar”.

O pároco de Canidelo afirmou: “nós temos que pensar bem esta nova igreja. Não nos quisemos precipitar, ousamos sonhar e daí que tenhamos acreditado que era possível que o padre Marko Rupnick viesse construir o interior da igreja porque pensamos que não se pode falhar na construção de uma igreja. E julgamos que estamos acertados neste projeto que é absolutamente admirável e que vai mudar o rosto desta paróquia”.

Por sua vez D. Pio Alves, bispo-auxiliar do Porto, salientou em declarações à VP que esta obra na paróquia de Canidelo em Vila Nova de Gaia “trata-se da reconversão de uma estrutura que, anteriormente, serviu outras finalidades”. D. Pio Alves assinalou a importância desta nova igreja dizendo: “neste momento com a intervenção dos artistas e o génio do padre Almiro, de certeza que vamos conseguir aqui um espaço para acolhimento a esta paróquia que é uma das maiores paróquias da diocese”.

Entretanto, os arquitetos Valentim Miranda e Miguel Miranda, naturais de Canidelo disseram à VP estarem “muito felizes por terem sido escolhidos para desenvolverem um projeto que terá lugar numa nova centralidade de Vila Nova de Gaia bem junto ao mar”. Os arquitetos assinalaram a memória e a história do espaço da antiga Seca do Bacalhau onde será erigida a nova igreja “com a ajuda do padre Rupnick” – como quiseram sublinhar os arquitetos.


Por Rui Saraiva

 
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