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A Luz da Luz - Homilia de Natal - 2018 PDF Versão para impressão Enviar por E-mail
Documentos - Homilias 2018

Estas leituras, agora escutadas, não se compreendiam sem aquele brado que os anjos dirigiram aos pastores de Belém: “Não temais, pois vos anuncio uma grande alegria, que o será para todo o povo: Hoje, na cidade de David, nasceu-vos um Salvador, que é o Messias Senhor” (Lc 2 , 10). Mas porquê a tal “grande alegria”? Que é que esse nascimento trazia de novo à história e à condição de vida daqueles pastores?

 

Lido em chave de fé, o Evangelho encarrega-se de responder: em Jesus e com Jesus, desaparecem o medo e a solidão, pois Deus vem ao encontro das suas criaturas; o nosso mundo torna-se habitável, já que Deus Se faz concidadão do homem; passa a reinar a luz que destrui as trevas da mente e do coração; congrega a diversidade à sua volta, representada pelos quase antípodas dos pobres pastores e dos ricos magos do Oriente, porque o presépio é lugar de encontro para todos. Mas, fundamentalmente, “aos que O acolhem deu-lhes o poder de se tornarem filhos de Deus”, para usar as palavras escutadas. É verdade: tu e eu, caro crente, somos da família de Deus. Não nos esqueçamos desta dignidade.

 

É isto e só isto o que pretende o Verbo nascido Menino: iluminar e fazer família da humanidade com Deus e das pessoas entre si. Melhor: comunicar-lhes a sua vida para que, com Ele e n’Ele nos tornemos filhos de Deus e irmãos uns dos outros.

Precisamente por isto, nota-se uma grande tristeza nas palavras do evangelista quando deplora que o Verbo, o Messias, não tenha sido devidamente acolhido por muitos: “Veio ao que era seu e os seus não o receberam”. Claro que S. João estava a pensar nos judeus, em cujo povo Cristo nasceu. Mas poderíamos referir esta passagem ao mundo em geral. Particularmente ao mundo deste tempo.

De todos os lados, surgem vozes a dizer que o nosso Natal começa a estar sepultado na agitação e na azáfama, no materialismo e no consumismo, numa mentalidade pagã que nem sequer pronuncia o nome de Jesus, o Filho de Deus. Eu não seria tão pessimista. Não obstante, reconheço sinais preocupantes. Particularmente ao nível de uma vivência meramente periférica do Natal, sem lhe atingir o âmago, sem se encantar com a profundidade e ternura do mistério que nos envolve.

É que o Natal é um acontecimento complexo. Nele se conjugam os elementos típicos das três virtudes teologais que fundamentam o cristianismo: fé, esperança e caridade.

Natal é fé porque supõe aquele salto de qualidade que nos transporte da ternura do Menino à visão e aceitação do Filho de Deus, daquele que “por nós, homens, e para nossa salvação, desceu do céu”, como professamos no credo. É a aceitação do cumprimento das Escrituras, de que fala a segunda leitura: “Muitas vezes e de muitos modos, falou Deus aos nossos pais, nos tempos antigos, por meio dos profetas. Mas nestes dias, que são os últimos, Deus falou-nos por meio do Filho […]” (Heb 1, 1-2).

Natal é esperança. Como podemos abandonar-nos à tristeza, à angústia, aos medos, ao desespero, se nos sabemos amados e acompanhados por Deus? Se a salvação está connosco e em nós, como podemos deixar-nos submergir pelas trevas do desânimo, pelo pavor do futuro, pelo cansaço da caminhada? Com Ele e n’Ele, a nossa vida adquire um significado novo: a de saber que a grande meta, é o encontro feliz e venturoso com o Pai.

Natal é, ainda, amor ou caridade. Revela-nos até que ponto chega o amor de Deus: não obstante a contínua soberba de imaginarmos que não precisamos de Deus e até alguma rebelião contra Ele, Ele eleva-nos à categoria de seus filhos no Filho. É Ele que nos comunica a vida divina, sem olhar ao preço desta oferta: é o preço da cruz. Por amor e só por amor.

Porque o nosso mundo tem acentuado deficit de fé, de esperança e de caridade é que o Natal está a tornar-se uma mera festa civil e muitos rejeitam o Menino que está na sua origem: “Veio ao que era seu e os seus não o receberam”. Tal como nos dias de Herodes, está mesmo a tornar-se um mundo perigoso quer para o Menino, quer para quantos colocam n’Ele a sua esperança. Um mundo onde é politicamente incorreto demonstrar fé e, por Anás ou Caifás, alguns cristãos são impedidos de chegar a certas funções; onde as instituições da Igreja, mormente as assistenciais e educativas, são menosprezadas, quando não ostracizadas e «legalmente» perseguidas; onde, a pretexto da laicidade, parece que os crentes perdem a sua condição de cidadãos e os direitos que daí advêm; um mundo de cinismo que rejeita os grandes valores comprovadamente uteis para a sociedade, só porque vinculados pela Igreja, instaurando a aridez familiar e social e fragmentando a existência; um mundo que pretende sepultar a Igreja sob uma laje de silêncio, a não ser que qualquer problema forneça o combustível para a sujeitar a longo martírio de ser queimada em fogueiras acendidas por alguma comunicação social; um mundo de dirigentes mundiais que não perde o sono pelo facto de os cristãos serem dizimados no Próximo Oriente, em África e um pouco por toda a terra; enfim, um mundo que parece estar a estabelecer uma equação tão simplória como ameaçadora em termos de futuro: «não-cristão igual a realidade a proteger; cristão igual a condenação às feras».

Não obstante, esta não é a última palavra. A assinatura final da história exprime-se na certeza proclamada na primeira leitura e no salmo responsorial: “Todos os confins da terra verão a salvação do nosso Deus”. E salvação é a ausência de todo o mal e de todas as negatividades que nos oprimem, mesmo que disso não nos demos conta.

Evidentemente, não haveria Natal sem a Virgem Santa Maria, Aquela que, de acordo com a fé da Igreja -que é também a minha fé!-, é proclamada “virgem antes, durante e depois do parto”, de maneira expressa a partir do Sínodo de Milão (ano 390), ou “Mater intacta”, como dizemos na ladainha. Saudámo-la e agradecemos-lhe profundamente o seu insubstituível contributo para a história da nossa salvação.

Neste Natal, com a Virgem Maria e pelos seus olhos, voltemo-nos para o seu Filho. E encontremos o significado profundo dos conhecidos versos de Pierre Mounier, colocados na boca do Deus-Menino:

"Para Me tocar, ponde de lados os vossos bisturis...

Para Me ver, deixai os vossos sistemas de televisão ...

Para sentir as pulsações do divino no mundo,

Não vos prendais a instrumentos de precisão ...

Para ler as Escrituras, deixai a crítica de lado...

Para Me saboreardes, usai uma outra sensibilidade... "

 

No Menino Jesus, santas festas!

+ Manuel, Bispo do Porto

 
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