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Sínodo: “Igreja que se coloca à escuta para melhor responder”

Decorre no Vaticano a Assembleia Sinodal para a região pan-amazónica. O único representante português no Sínodo dos bispos é da diocese do Porto. O padre Sérgio Leal participa como assistente da Secretaria Geral e, em entrevista, revela as suas expectativas sobre o Sínodo

De 6 a 27 de outubro decorre no Vaticano uma Assembleia Especial do Sínodo dos Bispos para a Região Pan-Amazónica. “Amazónia: novos caminhos para a Igreja e para uma ecologia integral” é o tema que será objeto de reflexão e que tem vindo a ser preparado localmente nos últimos anos.

Na inauguração do Sínodo dos bispos numa Missa na Basílica de S. Pedro o Papa Francisco pediu que evitem “colonialismos” do passado. Sublinhou que os povos da Amazónia carregam “cruzes pesadas” e afirmou que a Igreja deve levar-lhes “a consolação libertadores do Evangelho”.

O padre Sérgio Leal, da diocese do Porto, é o único representante português no Sínodo onde colabora como assistente da Secretaria Geral. Estuda em Roma Teologia Pastoral na Universidade Lateranense e em entrevista revela as suas expectativas em relação a esta Assembleia Sinodal.

P: No seu entender e nesta proximidade que vai ter com os bispos e com o trabalho que vai ser desenvolvido, que caminho é que foi feito até agora para o início dos trabalhos?

R: Uma coisa muito importante no evento sinodal é que o Sínodo foi convocado a 15 de outubro de 2017 e não vai começar, objetivamente agora. Ou seja, o evento sinodal acontece agora, mas um Sínodo, como está muito claro no documento do Papa Francisco “Episcopalis Communio”, começa com todo o percurso de preparação que é de escuta, de escuta das realidades próximas. Portanto, o que tem acontecido até agora é que há um dinamismo de escuta não apenas dos bispos, mas, sobretudo, de que os bispos de que nela tomam parte e de toda a estrutura do Sínodo procure escutar a realidade concreta. Estamos a falar de uma região muito vasta como a amazónica. Mais de 7 milhões e meio de quilómetros quadrados, mais de 3 milhões de indígenas, 390 povos e nacionalidades que têm de ser escutadas. E o Instrumentum Laboris começa por dizer que é um Sínodo não apenas para a Amazónia, mas com a Amazónia. E o dinamismo sinodal que ser isto: uma Igreja que se coloca à escuta para melhor responder a estes caminhos de evangelização.

P: E esse período de escuta, na sua opinião, foi cumprido?

R: Ele está a ser cumprido. Evidentemente, que não há escutas perfeitas, mas há um dinamismo e há um esforço. O Papa quando fala do Sínodo e do dinamismo sinodal diz que a sinodalidade é um caminho muito belo e o caminho da Igreja para o terceiro milénio, uma palavra fácil de dizer, mas difícil de concretizar. Até porque a escuta pressupõe que se fale com liberdade. Achei muito curioso que, a propósito do Sínodo da Família, tenham dito ao Papa que havia bispos e cardeais que não diziam algumas coisas com medo daquilo que poderiam dizer, e o Papa disse que o caminho sinodal só será possível quando falarmos com liberdade, com parresia, e quando escutamos com humildade. Porque é fácil que eu da Europa emita uma opinião sobre a Amazónia, mas será sempre uma opinião à distância. E é importante escutar quem diretamente trabalha com aquela realidade.

P: Esse escutar da realidade concreta vai trazer decisões novas?

R: Trará, necessariamente, decisões novas, porque o Sínodo visa responder a uma pergunta que é o que o Espírito Santo pede à Igreja neste lugar concreto que é a Amazónia e neste tempo concreto que é o tempo em que vivemos. E isto obriga a um esforço de repensar como fazer habitar o Evangelho naquela região concreta.

P: Queria ir precisamente aí: dá-se esta coincidência de existir uma atenção muito grande com a Amazónia, devido aos incêndios deste Verão e, sobretudo, devido às alterações climáticas que estamos a ver todos os dias, e acontece um Sínodo sobre a Amazónia. Isso terá algum significado de afirmação ainda maior do Papa como figura internacional de relevo?

R: Sim, este contexto das alterações climáticas e das preocupações ecológicas está muito presente no Instrumentum Laboris e no próprio título do Sínodo: “Novos Caminhos para a Igreja e para uma ecologia integral”. O Papa Francisco afirmou que este Sínodo está intimamente ligado à Encíclica “Laudato Si” e com esta preocupação ecológica. E creio que aqui o Papa tem um grande contributo a dar que, porventura, nós enquanto Igreja não fomos ainda capazes de acompanhar. Porque a “Laudato Sí” trouxe consigo uma perspetiva ecológica que hoje é muito importante para a vida da Igreja. A perspetiva de uma ecologia integral.

P: Fica, contudo, em aberto a possibilidade da ordenação de homens casados se for essa uma das necessidades que a região amazónica possa ter. Isso será uma vantagem, será algo que trará riqueza à Igreja, ou será um problema?

R: Em primeiro lugar, o documento preparatório afirma a necessidade de pensar como oferecer com maior frequência a Eucaristia. A Eucaristia edifica a Igreja e a Igreja edifica-se a partir deste encontro comunitário que é a presença real do Senhor no meio de nós. E neste sentido o documento preparatório lança uma pergunta. E o Instrumentum Laboris vai mais longe e diz, acerca de novos ministérios para as reais necessidades da Igreja na Amazónia, pergunta se a ordenação dos homens poderá ser a resposta para esta real necessidade. Portanto, no meu entender a grande pergunta poderá ser esta: o que é mais importante para nós, o celibato sacerdotal, que é uma disciplina eclesiástica, ou é a oferta da Eucaristia enquanto sacramento da comunhão e da unidade da Igreja?

Está também no Instrumentum Laboris a valorização do papel da mulher e novos ministérios para a Amazónia. Há também uma expressão que me marcou no Instrumentum Laboris que é: a passagem de uma pastoral da visita a uma pastoral da presença. Porque muitas vezes em territórios de missão o ministro ordenado ou as estruturas de evangelização são de visita e de passagem e depois falta o acompanhamento e a presença no meio do povo e no meio da comunidade.

(RS)