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Plano Diocesano de Pastoral 2019/2020


Documentos:

Plano Diocesano de Pastoral 2019/20 – 1.ª edição

Recursos Gráficos do Plano Diocesano de Pastoral

Hino para o triénio e aclamação para o ano 2019/2020

Apresentação do PDP 2019/2020 – Casa Diocesana de Vilar – 5 de julho 2019

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Novo Plano para um novo triénio

Numa feliz iniciativa do meu antecessor, de grata memória, o senhor D. António Francisco, que os vários órgãos de participação sufragaram, a nossa Diocese do Porto colocou as suas energias pastorais, ao longo de quatro anos, numa renovada proclamação da “alegria do Evangelho” aos «de fora» e a quantos não têm consciência da sua inserção em Cristo. Tratou-se de um quadriénio verdadeiramente assinalável, não só por aquilo que conseguiu com este vigor missionário, mas especialmente porque gerou, nos agentes pastorais, uma nova atitude mental de “Igreja em saída”, um dinamismo de sinodalidade missionária, de busca e procura e de preocupação pela «ovelha perdida ou ferida» que constituirá a «imagem de marca» da nossa Diocese.

Agora, sem jamais perder de vista essa dinâmica missionária, ao Conselho Pastoral Diocesano e a outros órgãos de corresponsabilidade pareceu conveniente cuidarmos das próprias raízes da fé e da vida cristã dos «de dentro», pois, como refere o Papa Francisco, “o mandamento missionário do Senhor inclui o apelo ao crescimento da fé [e] o primeiro anúncio deve desencadear um caminho de formação e de amadurecimento” (Evangelii Gaudium, 160). O ideal seria mesmo que todos pudessem chegar a dizer e sentir intimamente o conhecido brado de São Paulo: “Já não sou eu que vivo. É Cristo quem vive em mim” (Gl 2,20).

Além disto, a celebração, em 2022, da Jornada Mundial da Juventude aconselha uma particular atenção aos jovens, de modo a promover uma renovada iniciação cristã, unitária, coerente, aprofundada, em íntima ligação com os sacramentos e com o mistério de Deus. Evidentemente, em simultâneo, há que dar corpo a um sério e coeso processo de catequese para adultos, dirigido a todos os cristãos, mas de uma maneira especial a quantos sentem necessidade de dar um fundamento sólido à sua fé e à sua adesão à Igreja.

Por tudo isto, propõe-se, pois, um plano trienal, baseado na iniciação ou reiniciação cristã e nos sacramentos que lhe estão inerentes, sempre ancorados no mistério de Deus e, consequentemente, nas Pessoas do Pai, Filho e Espírito Santo. Proponho como base sólida a conhecida e profunda alegoria da videira e dos ramos, tal como a encontramos no Evangelho de São João (Jo 15,1-11). Dar-nos-á firmes motivos para uma espécie de lectio divina para apreciar, valorizar e agradecer a nossa vocação cristã.

 

O meu Pai é o agricultor

O Antigo Testamento está cheio de alusões ao povo de Israel como “vinha eleita”, “vinha do Senhor”, “vinha destinada a produzir bons frutos”, não obstante as frequentes infidelidades. Jesus, porém, sem desprezar este sentido coletivo, parece insistir mais na dignidade e responsabilidade individuais de estar inserido n’Ele como o ramo na videira: só desta unidade vital pode circular uma seiva nova, cheia de vida e capacidades, aptar a dar “muitos frutos”.

Porém, quem faz o trabalho e toma a iniciativa desta ação é o Pai. É Ele quem, como “agricultor” bom e zeloso, “corta o ramo que não dá fruto”, “limpa o que dá fruto, para que dê mais fruto ainda”, faz depender a sua glorificação da qualidade do fruto e da íntima condição de discípulos dos que estão unidos a Seu Filho, enfim, coloca-Se como protótipo do amor que deve unir todos os que estão inseridos na videira.

O Pai que enviou o Seu Filho à Terra como Salvador e Redentor preocupa-Se com cada um de nós. Não é um Deus abstrato, longínquo, insensível, um «deus dos filósofos» que «nem aquece nem arrefece», como diz o nosso povo. Pelo contrário, é um Deus operante, sensível, fonte de vida e felicidade, misericordioso, preocupado com cada um e com todos. Um Deus tão próximo que nos comunica a Sua vida, tal como a videira transmite aos ramos a qualidade da sua seiva. Por isso, a «condição cristã» não é nada de difícil compreensão: é, ao fim e ao cabo, não colocar barreira para que Deus exerça em nós a Sua obra, é fazer com que as artérias e veias não se tornem esclerosadas e impeçam a passagem dessa seiva que, em linguagem de fé, chamamos graça e filiação divinas.

Convido, por conseguinte, os agentes pastorais a terem como referência, neste ano pastoral de 2019/2020, a Pessoa divina do Pai e a ajudar a todos a redescobrirem este Deus, fonte de beleza e de vida, Criador, origem e fim do Universo e instaurador de um específico «plano», isto é, uma moral, um comportamento. Para isso, podem ser úteis as parábolas do amigo impertinente (Lc 11,5-8), do bom servidor (Lc 17,7-10), dos dez talentos (Mt 25,14-30) dos dois devedores (Lc 7,41-42), do filho pródigo (Lc 15,11-32), da dracma perdida (Lc 15,8-10), do fermento (Mt 13,32 ss), da figueira estéril (Mc 11,12-26), do filho obediente (Mt 21,28-32), do grão que germina (Mc 4,26-29), do pai de família (Mt 13,51 ss), do rico e de Lázaro (Lc 16,19-31), do semeador (Mc 4,3-9), etc.

 

Batizados porque amados por Deus

Se a iniciativa é divina, o Batismo não é um «direito» nem uma conquista nossa: é o produto da ação do Pai que nos introduz na sua vida, na sua família, na sua graça vivificante. Da nossa parte, compete-nos «abrir as portas» a este Deus que chega, mas respeita a nossa liberdade. Por isso, a vocação cristã consiste em aceitar a proposta da filiação divina e da inserção na Igreja, adquiridas pelo Sacramento do Batismo e, depois, deixarmos que Deus aperfeiçoe essa nova condição cortando os ramos velhos e tratando os que dão fruto.

Importa, pois, insistir na verdade de que ninguém se torna cristão por iniciativa própria. Tornar-se efetivamente cristão é dom do Alto, é graça recebida para ser correspondida. Por isso, a condição cristã gera-se no Batismo, é verdade, mas não se pode confinar a esse momento: é tarefa em aberto que supõe tomada de consciência, formação contínua, receção dos outros sacramentos com ele interligados, estilo de vida que corresponda ao tal plano de Deus para a humanidade e para o mundo, discernimento vocacional para descobrir qual o «contributo» que Deus lhe pede para o bem da comunidade de todos os batizados, dinamismo missionário para que a fortaleza da seiva e a beleza da clorofila cheguem a todos os outros ramos.

Ao longo deste ano pastoral, devemos, portanto, insistir no duplo efeito do Batismo, aprendido na catequese, mas de forma mais teórica que implicativa: filiação divina e inserção na Igreja.

No primeiro âmbito, é preciso que todos descubram que, com este sacramento, abrimos a porta para que Deus venha habitar em nós e nos assuma na sua família: somos, efetivamente, a família de Deus, com toda a dignidade e responsabilidade que isso implica. Daqui decorre o desafio de darmos uma dimensão familiar a toda a ação pastoral, de modo que todos se sintam na Igreja como em casa própria e a Paróquia se torne verdadeiramente “a própria Igreja que vive no meio das casas dos seus filhos e filhas” (Christifideles laici, 26).

Quanto ao segundo aspeto, há que ter em conta que a Igreja não é um optativo para o batizado, mas a consequência lógica da nova vida adquirida e, como tal, o «lugar» da vivência do sacerdócio profético e real de Jesus Cristo, ou sacerdócio comum dos fiéis, e da consagração para o desempenho de uma missão no mundo.

Para esta catequese, podem ser úteis as referências bíblicas. Desde logo, a passagem mais importante é a investidura messiânica de Jesus Cristo, no seu «Batismo» (Mc 1,9-11), gesto que não é o nosso sacramento, mas que possui alguns traços e semelhanças que muito devemos considerar. Depois, importa acentuar o tripé «pregação, fé e Batismo» (Heb 6,1-2), Batismo e incorporação à Igreja (1 Cor 10,1-2 e 12,12-13), consequência cristológica (Gl 3,27) e Batismo e mistério pascal (Rm 6,1-11).

 

Habitantes que ajudam a habitar

Na alegoria da videira e dos ramos, chama-nos a atenção a insistência no “permanecei em Mim e Eu permanecerei em vós”. Dizem os especialistas que, no original, se usa um verbo que tanto pode significar «habitar» como «permanecer». Por isso, seria lógico também traduzir por: “Habitai em Mim e Eu habitarei em vós”.

Quando se fala em habitação, muitas ideias vêm à nossa mente. Duas, porém, parecem sobrepor-se às outras: em linha de princípio, a habitação é para a família e somente por motivos excecionais e transitórios é que nela deveria viver uma pessoa isolada; construir e manter a habitação é tarefa custosa, difícil e contínua, da tal forma que nem todos a conseguem. Assim acontece com os cristãos: ser habitação de Deus é também responsabilizar-se por todos os que habitam a mesma casa coletiva, a Igreja; habitar em Deus ou deixar que o Pai habite em nós é empreendimento sempre a reequacionar, aperfeiçoar, embelezar, alargar, a ponto de gastar o melhor das nossas possibilidades e energias.

Convido, pois, os cristãos da nossa Diocese a saírem mais de si mesmos, para o encontro com o outro, fazendo da procura do bem do próximo o seu próprio caminho de salvação. Hoje – e sempre! – ser cristão é não só abrir-se aos outros, em Igreja, mas empenhar-se na «sorte» de todos. Por algum motivo, imediatamente antes da bênção final, o sacramento do Batismo termina com a recitação do Pai-Nosso, profissão de fé implícita na pertença coletiva e na responsabilidade para com os irmãos.

Quando olhamos à nossa volta, vemos claramente a necessidade de um empenho geral dos cristãos mais conscientes nas tarefas da iniciação cristã. Há quem diga que, em certas zonas, quase metade das crianças que chegam à catequese ainda não são batizadas. E as que nunca a frequentarão? E as crianças, adolescentes, jovens e adultos que foram batizados, mas em que quase tudo se confinou ao sacramento? De resto, sabemos bem que “muitos batizados vivem como se Cristo não existisse: repetem-se gestos e sinais de fé, sobretudo por ocasião das práticas de culto, mas sem a correlativa e efetiva aceitação do conteúdo da fé e adesão à pessoa de Jesus” (Ecclesia in Europa, 46).

Por este motivo, insistamos no acolhimento simpático de quem nos bate à porta, num estilo amável, afável e acolhedor – as pessoas melindram-se com pouco! –, apostemos em equipas laicais que realizem um primeiro contacto com os mais «afastados» e até se responsabilizem pela sua iniciação cristã, valorizemos os movimentos de espiritualidade, crie-se em todas as Paróquias uma equipa da Pastoral do Batismo, veja-se como preencher esse «espaço em branco» ou tempo vazio que decorre entre o Batismo e o início da catequese, insira-se nas nossas estruturas sociais – Centros Sociais Paroquiais, Colégios, Misericórdias, Ordens Terceiras, etc. – uma séria preocupação pela identidade cristã, formem-se agentes pastorais, erija-se em todas as Paróquias o Conselho Pastoral e estruture-se um Centro Catecumenal em todas as vigararias.

Um Batismo de regeneração

Na Igreja antiga, acentuava-se muito a ideia de regeneração ou de renascimento inerente ao Batismo e ao mundo da fé que com ele se interliga. De facto, Jesus garantia a Nicodemos que “quem não nascer da água e do Espírito não pode entrar no Reino de Deus. O que nasce da carne é carne e o que nasce do Espírito é espírito”. E Nicodemos, admirado, perguntou: “Como pode um homem nascer, sendo velho? Porventura poderá entrar no ventre de sua mãe outra vez, e nascer?” (Jo 3,5-6).

Este novo nascimento opera-se no Batismo, mesmo que disso o fiel se não dê conta. Não obstante, neste prefixo «re» de regeneração ou renascimento está implícita a ideia de uma certa continuidade. Quer dizer que a iniciação cristã, preparada pelo catecumenato ou pela antecedente fé dos pais e padrinhos que conduzem ao Batismo, nunca é um processo acabado: supõe não só uma perene tomada de consciência como também uma inserção mais plena na família dos filhos de Deus, até aos sacramentos da maturidade cristã, expressão de um discernimento vocacional que conduziu a um específico serviço à comunidade crente.

E nisto, cada um é responsável. Na Igreja não há anonimato nem diluição. Curiosamente, o Batismo começa pela afirmação da identidade da pessoa: “Que nome dais ao vosso filho?” ou, no caso de um adulto: “Como te chamas?”. E essa identidade tem direitos e deveres. É que, como afirmou o Papa Francisco numa das suas catequeses semanais (18/04/2018), “o Batismo ilumina a vocação pessoal a viver como cristão que se desenvolverá durante a vida inteira. E comporta uma resposta pessoal, não emprestada, com um «copia e cola»”.

 

A jeito de apelo

Caros diocesanos, num ano em que cuidamos da raiz batismal da nossa condição cristã e eclesial, não podemos ignorar que daí mesmo brotam, inseparavelmente, a vocação universal à santidade e vocação universal à missão, pelo que, nas palavras do Papa Francisco, não se pode imaginar a própria missão na Terra “sem a conceber como um caminho de santidade” (Gaudete et exsultate, 19). Por isso, não deixemos de valorizar, de modo transversal a toda a pastoral, a vocação à santidade. Esta é o nosso específico. Esta é a razão pela qual fomos batizados e somos cristãos: como filhos de Deus, ingressar na “comunidade dos santos” para sermos “santos como o Pai do Céu é Santo” (Mt 5, 38).

Tomemos consciência desta vocação pessoal e ajudemos os outros a fazerem-no, já que todo o discípulo evangelizado se torna, necessariamente, um evangelizador. Procuremos que a catequese, a liturgia e a caridade promovam a abertura à fé e a resposta pessoal numa mais sólida adesão à Pessoa de Jesus Cristo.

É para isso que pretende apontar este plano pastoral: fazer a transição com o anterior, continuando nós como Igreja em saída, missionária, mas insistindo, agora, na formação de todos os que já são membros, para sermos, efetivamente, Igreja. Isto é, não um simples grupo de «aderentes», mas verdadeiros discípulos do Senhor.

Porto, 31 de maio de 2019, Festa da Visitação da Virgem Santa Maria

O vosso bispo e irmão,

+ Manuel Linda