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SDL - Ideias para celebrar a Páscoa na Igreja Doméstica


Por Secretariado Diocesano da Liturgia

«Para que Páscoa nos estamos a preparar?» – Sergio Massironi faz essa pergunta em «L’Osservatorio Romano» quotidiano de 29 de março, p.p. Certo é que as dramáticas circunstâncias que estamos a viver são uma provação mas, ao mesmo tempo, uma oportunidade desafiante. A grande maioria dos fiéis ainda não assimilou a importância determinante das celebrações do Tríduo Pascal, coração do ano litúrgico. E se, agora, algo de novo começasse a acontecer?

Para que tal hipótese se possa concretizar, o autor olha para a tradição pascal judaica, eminentemente familiar, em que ressoa sempre a pergunta do filho mais novo: o que é esta noite tem de diferente de todas as outras noites?

Há já algumas semanas que os meios de comunicação social novos e tradicionais têm alimentado a oração e a relação entre os irmãos e a Palavra. E agora apresenta-se-nos e até se nos recomenda uma possibilidade dantes impensável: uma semana santa em que cada pessoa, cada família se conecta às celebrações da sua paróquia ou com o seu bispo. As comunidades reencontram-se mediante esses meios e faz-se a experiência consoladora de uma comunhão real, não apenas virtual. Por sua parte, os pastores da igreja «sentem», graças a esses instrumentos dantes inimagináveis, que não celebram os divinos mistérios «à porta fechada».

Mas queremos mais! E o mais que queremos é a redescoberta dos laços familiares na vivência do mistério pascal. A proposta é redescobrir um verdadeiro «memorial» doméstico, em linguagem e gestos tão antigos e tão inéditos que esta Páscoa fique verdadeiramente na memória de todos como diferente de todas as outras. É o desafio para redescoberta a Liturgia da Igreja doméstica.

Como escreve o nosso autor, «o “memorial” doméstico tem uma sua estranha laicidade: não cheira a sacristia, toca os fundamentos da humanidade comum. Inclui e não exclui, ativando em todos um imaginário sepultado que tem a energia da infância, o sabor dos alimentos básicos, o apelo das gerações passadas». Esta via do celebrar em casa, que o povo de Israel soube conservar ao longo dos séculos, torna todos os membros da família realmente contemporâneos dos mistérios salvíficos. Belo seria que a Páscoa de 2020 ficasse gravada na memória das nossas crianças não porque viram o seu bispo ou o seu pároco na TV ou num tablet mas sim porque realizaram com os seus pais gestos novos e eloquentes.

E o autor esboça um possível cenário deste catolicismo doméstico.

Quinta-Feira Santa:

Os sinais fortes da vida de Cristo poderiam desenvolver-se em redor da mesa, na hora da ceia, com toda a família reunida. Entretanto, mesmo quem vive só deverá pôr a mesa como para uma festa. Após uma breve introdução, a oração iniciaria com a leitura de Jo 13 seguida, se as circunstâncias o permitirem, do lava-pés recíproco dos esposos e, a seguir, dos filhos. Seria um gesto extremo, a propor e não a impor. Nem todas as famílias estarão predispostas para um gesto tão «radical»? Mantendo o sinal do jarro e da bacia faça-se, ao menos, um recíproco lava-mãos… A ceia, propriamente dita, poderia prosseguir – mesmo para as pessoas que vivem sós – com uma oração de bênção da mesa – «Bendito sejais, Senhor…» – que inclua alguma palavra memorial da última Ceia – «Nesta noite em que…». No centro da mesa deveria estar um único pão, grande, comprado ou feito em casa durante o dia, a partir e repartir pelos comensais, em vez dos habituais pãezinhos. A ceia prosseguiria na forma convivial do costume, porventura mais animada.

Sexta-feira santa:

É feriado nacional, mas muitos preferem folgar na Segunda-Feira de Páscoa, acabando, assim, por ser um dia como os outros. Neste ano, porém, estaremos (quase) todos em casa a ruminar notícias dolorosas e de luto. Vale a pena criar um momento de especial recolhimento, em cada família, porventura na hora em que «as trevas cobriram toda a terra». Assim, ao princípio dessa tarde, poderiam baixar-se as persianas, apagar-se as luzes, desligar todos os aparelhos e dispositivos tecnológicos e viver um grande silêncio de uma boa meia hora. Às quinze horas, a família reunir-se-ia junto de um crucifixo, no lugar da casa onde ele costuma estar pendurado, ou então apoiado na mesa da sala de estar ou de jantar. Ler-se-ia a 12ª estação da Via Sacra, ou um Salmo – «Meu Deus, meu Deus, porque me abandonaste?» – ou até o relato evangélico da Paixão. Em seguida, cada membro da família seria convidado a beijar o crucifixo, com delicadeza e intensidade. Por fim, rezar-se-ia a grande oração universal prevista na Liturgia da Paixão ou uma sua adaptação que permita sentir o mundo presente, recordar os que sofrem, encomendar os defuntos.

Noite de Sábado Santo:

Não é possível reproduzir a Vigília pascal com toda a sua força. Mas é de desejar que a treva tão profunda que rodeia a vida coletiva seja atravessada por sinais que interrompam a noite. Seria belo que, no meio da escuridão e do silêncio, todos os sinos da diocese tocassem festivamente à mesma hora, durante alguns minutos, a anunciar a ressurreição. Nesse momento, todos poderiam acender ao menos uma luz e colocá-la no parapeito das janelas. O Papa Francisco recordava numa catequese um gesto popular significativo e muito adequado a uma oração familiar: «Em muitos países – aqui na Itália e também na minha pátria – há o costume de, quando no dia de Páscoa se ouvem os sinos, as mães, as avós levarem as crianças a lavar os olhos com água, a água da vida, como sinal para poder ver as coisas de Jesus, as coisas novas».

Depois, na manhã de Páscoa, as mães e as filhas poderiam tornar-se as mulheres da ressurreição, ornamentando a casa com flores, onde seja possível colhê-las, e trazendo para a mesa – porventura com uma torta – o leite e mel que, segundo a Tradição Apostólica, se ofereciam na noite de Páscoa aos neo-batizados para que saboreassem a doçura da vida nova. No dia de Páscoa ou na oitava, poderia até imaginar-se um «compasso» sem entrar nas casas, com padres e diáconos, paramentados festivamente, a percorrer as ruas principais da paróquia, aspergindo o exterior das casas com a água da noite santa, em sinal de bênção.

Não podemos «convenire in unum» – reunirmo-nos na grande assembleia – para celebrar a Páscoa? Valorizemos então as muitas reuniões de «dois ou três» em nome de Jesus de forma a tornar credível o nosso «ressuscitar com Ele». Como os cristãos do Oriente, talvez um dia nos cheguemos também a saudar na Páscoa com o anúncio: «Cristo ressuscitou! – Ressuscitou verdadeiramente!»

 

foto: freepik.com