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COMPREENDO E ACEITO

a Igreja face ao estado de calamidade pública em Ovar


Devido ao coronavírus a população de Ovar está a sofrer muito. Damos a palavra a quem vive no quotidiano estes tempos de crise.

Por padre Victor Pacheco*

Não houve tempo para despedidas junto aos fiéis. Simplesmente, fazendo eco das medidas propostas pela conferência episcopal, colocaram-se cartazes nas portas das igrejas a anunciar a suspensão das missas e de todas as outras atividades pastorais em curso.  Entre a surpresa que a todos apanhou desprevenidos, a novidade da medida e a incerteza quanto ao futuro, os fiéis, através da comunicação social e das redes socias das paróquias, foram percebendo que algo estava a mudar.

Na primeira semana, “choveram” telefonemas a perguntar quando seriam reatadas as eucaristias, ou se “tal…” procissão quaresmal ainda iria realizar-se, ou se a primeira comunhão do filho se manteria na data agendada; pois era necessário tomar medidas em relação à confirmação da reserva do restaurante, já apalavrado para esse efeito. Fomos todos apanhados de surpresa, embora já estivéssemos habituados a ouvir que na longínqua China um vírus devastador ia ceifando vidas aos milhares.

Entretanto começaram a surgir os primeiros casos de “Covid-19”, no município de Ovar. Um primeiro caso detetou-se no centro de saúde de S. Vicente de Pereira e, pouco depois, vários no centro de saúde de S. João de Ovar. Rapidamente, espalhou-se entre a comunidade, particularmente em S. João de Ovar. Hoje já está disseminado por quase todas as freguesias do município.

Como noticiado, foi declarado o estado de calamidade pública pelas entidades municipais, com o consequente “cerco” sanitário que nos impede de sair ou entrar na área do município. Entretanto começaram a aparecer os óbitos, vítimas do “Covid-19”, na sua maioria da freguesia de S. João de Ovar.

infelizmente as circunstâncias atuais não permitem que tudo seja feito com a normalidade habitual. Nos funerais só podem estar presentes, agora, os parentes próximos, também eles infetados ou sujeitos a contrair o vírus, devido à proximidade com o defunto. Respeitamos as normas vigentes, mas devo confessar que são situações muito estranhas e dolorosas.

Quiçá, com a mente afetada pelas imagens dos camiões militares em Itália, carregados de caixões em direção aos crematórios, ou simplesmente porque ainda estou a interiorizar toda esta nova realidade, senti profunda empatia pelos parentes que ali, sozinhos, a um canto, sentindo-se como “leprosos”, choravam a perda dos seus entes queridos. O que fazer ou dizer? É verdade que todos nós já estivemos em funerais com poucas pessoas, mas agora a situação é totalmente diferente.

O momento é por demais desolador, no meio do cemitério. Sem podermos entrar na capela mortuária, não há espaço para gestos de proximidade, como abraços ou apertos de mão. Há a interpor-se entre todos nós, a distância “regulamentada”. Resta-nos exprimir os afetos cristãos do modo possível: – a promessa da nossa oração, unindo-nos, dessa forma, ao sofrimento humano da família enlutada.

Sabemos que “a procissão ainda vai no adro” e que nos esperam tempos ainda mais difíceis e para nós sacerdotes que também somos obrigados a estar confinados, por lei, ao espaço da nossa residência, coloca-se a capacidade de responder aos desafios da missão pastoral para estarmos atentos às necessidades dos fiéis. Vamos assistindo a uma proliferação de iniciativas nas redes socias, que procuram, assim, preencher o vazio provocado pela ausência das eucaristias e diria, mesmo, do contato pessoal, existindo sempre o risco de bombardear as pessoas com todo tipo de reflexões, orações, vídeos, etc.

Creio que este tempo está a ser uma oportunidade para deixarmos o ativismo desenfreado em que vivemos e um convite/desafio ao recolhimento, à oração, à oportunidade de repensarmos o essencial da nossa vocação e missão.

Tantas atividades que programamos para os nossos fiéis e agora surge a pergunta que faço nestes dias e que é esta: – Estando eles agora “sós”, isto é, sem a proximidade física do pastor e das celebrações litúrgicas, crescerão, em família, na fé, através da oração e da leitura da Palavra de Deus? Se sim, ótimo, estão a ser verdadeiras igrejas domésticas. Se não, é sinal de que os nossos projetos pastorais só alimentam uma religiosidade epidérmica.

Sabemos que este tempo trará dificuldades para muitas famílias, ainda por avaliar na íntegra. Nesse sentido, continuaremos, através dos diversos setores sociais das paróquias, a prestar a colaboração que já vínhamos mantendo através das conferências vicentinas e dos centros sociais, em relação aos residentes mais carenciados. Procuraremos, em articulação com as entidades municipais, responder a novas situações que possam surgir, para que as paróquias continuem a ser, de acordo com as palavras do Papa Francisco, “tendas de campanha prontas a acolher os feridos da vida”.

O Senhor Jesus que junto ao Pai intercede por nós, nos dê a sabedoria de viver este tempo de tribulação e de graça, em escuta atenta à voz do Espírito e que Maria, nossa Mãe, a todos proteja e nunca nos deixe perder a esperança.

27 março 2020

(*pároco de S. Vicente de Pereira e de S. João de Ovar)

Foto: Foto: EPA/Estela Silva