São José, paradigma da Igreja
(No encerramento do Ano de S. José – 2021)
Com esta solene concelebração na única igreja do Porto e uma das poucas da Diocese que lhe é dedicada, encerramos, «oficialmente» este ano de São José, em boa hora declarado pelo Papa Francisco. Pomos fim a um tempo marcado pelo calendário, como é típico da nossa natureza. Porém, este ano conduziu a uma tal tomada de consciência sobre o lugar deste Patriarca na história da salvação que, com justiça, podemos falar do início de um processo de revalorização da piedade popular e da afirmação de um autêntico paradigma para a comunidade crente que muito ajudará a Igreja a discernir a vontade de Deus para este nosso tempo.
Aliás, foi precisamente esta a razão que presidiu à declaração do “Ano de S. José”. O Santo Padre entendeu oportuno apresentar um modelo para a Igreja no mundo atual e indica as razões. Em primeiro lugar, porque S. José se nos apresenta como um “pai na sombra”, isto é, como aquele que exerce vigilância, mas de forma discreta. Não intervém autoritariamente, mas sempre e só com amabilidade e sentido de ajuda. Não afasta, não descrimina, não marginaliza. Acredita na pessoa, em todas as pessoas, de algum modo representadas pela Pessoa de Jesus. Por isso, vela, protege, aproxima. Como a nossa Igreja tem de fazer cada vez mais.
Depois, vive uma espiritualidade de abertura ao divino mediante as tarefas do quotidiano. A sua ascética e mística não se confinam a momentos de oração ou a mortificações penitenciais, mas fazem do cumprimento das obrigações diárias, no amor e pelo amor ao Filho de Deus, uma projeção do trabalho e dos deveres familiares na transcendência divina. Nesta perspetiva, em S. José não há dualismos ou separação entre as coisas comezinhas da vida e a inserção no mistério de Deus. Também para nós, Igreja, não pode haver rutura: a pastoral, a liturgia, a caridade e a administração são todas vertentes da mesma relação pessoal com Deus. Como o são as tarefas da vida diária e a missão do fiel leigo no mundo: elas constituem, efetivamente, as bases sólidas da santidade e da santificação.
Para além de muitas outras dimensões que creditam S. José como modelo para a Igreja atual, ainda seria de referir a sua solicitude para com todas as necessidades. O Evangelho é omisso ao descrever a vida deste Patriarca. Mas não será difícil imaginá-lo cuidadoso com os aflitos e desanimados, solicito com as pobrezas, agradável no relacionalmente com os vizinhos, simpático com todos. Sabendo nós quanto nos molda a maneira de ser dos nossos pais, enquanto verdadeiro homem, Jesus não terá participado da «personalidade» deste chefe da sua família? Certamente. O que constitui, para nós, um repto, pois, como afirmou S. Tomás de Aquino, “já que a perfeição e a dignidade de uma criatura se valorizam em relação a Deus, quanto mais uma pessoa está intimamente unida a Deus, fonte de toda a perfeição, tanto mais será a sua dignidade e excelência”. E a Igreja não possui existência por si própria, mas somente enquanto unida a Cristo, como sua esposa ou seu corpo.
Para além destas vias nas quais deve circular a Igreja do terceiro milénio, ao longo deste ano, o Reitor e a Irmandade deste templo de S. José das Taipas deram corpo a duas excelentes iniciativas que eu gostaria muito se repetissem ou até se tornassem habituais. Uma consistiu nas catequeses que promoveu, precisamente na época mais dura da pandemia. Interessaram aos muitos seguidores e obrigaram os comunicadores a investigar e pensar sobre S. José. Foi belo. Bom seria que se continuassem, desenvolvendo novos temas quais, por exemplo, o serviço por amor, a dimensão social do trabalho, a santificação pelo trabalho diário, o amor/caridade e a figura do pai, a família e o plano divino para o mundo, a paternidade e a maternidade responsáveis, o trabalho e a contemplação, etc.
O outro grande acontecimento foi a celebração com as organizações do mundo do trabalho e representantes da sociedade civil, no Dia Mundial do Trabalhador. Não é todos os dias que representantes das duas centrais sindicais se juntam e rezam lado a lado com dirigentes das associações patronais. Muito gostaria que, no primeiro de maio de cada ano, este gesto de aproximação e diálogo se repetisse nesta igreja. De facto, sem desconhecer os legítimos interesses divergentes de trabalhadores e patrões, a doutrina social da Igreja valoriza a concertação em detrimento das posições extremadas, o diálogo em vez do conflito, o acordo em vez de um qualquer género de violência. E acreditamos que, civilizadamente, para seu próprio bem, as partes desejam o entendimento mútuo. E, ao atuar ao nível da consciência, a Igreja pode dar um forte impulso para isso.
Como chamam a atenção os Papas da modernidade, S. José é o exemplo da comunhão de vida amorosa com o mistério de Deus, alí presente em Jesus Cristo, a quem pôde chamar filho, e com a Virgem Santa Maria, imagem da Igreja, sua verdadeira esposa. Que ele nos ajude a viver esta profunda dimensão constitutiva da nossa fé com docilidade, prontidão e obediência. E que a nossa Igreja goze sempre da sua intercessão.
Manuel Linda, Bispo do Porto