
Influencers do amor de Deus
Homilia do encerramento dos dias da Diocese (29/07)
Já ouviram falar de Maria Anna Johanna Franziska Theresia Antonia Huberta Droste zu Vischering? Poucos, porventura. Mas se disser Irmã Maria do Divino Coração, a gente do Porto já a reconhece. Até porque foi a ela que mais de 10.000 jovem escolheram para ser a Patrona da Diocese do Porto na JMJ. E valeu a pena!
Nasceu a 8 de setembro –o dia da natividade da Mãe de Jesus- de 1863 no que se pode dizer, com propriedade, em berço dourado. Filha de um Conde e de uma Condessa –e dos mais nobres da Alemanha-, trocou a riqueza do palácio pela austeridade da vida religiosa na Congregação das Irmãs da Caridade e do Bom Pastor. Para grande felicidade nossa, foi enviada para o Porto, para o convento que tinham em Paranhos, onde foi Superiora durante muitos anos. Com ela vinha uma preocupação: que todos se dessem conta do amor de Deus, simbolizado no Coração de Jesus aberto pela lança para que nele todos tenhamos cabimento, nele todos possamos entrar. Isto leva-me a apresentar-vos alguns pequenos tópicos que deixo à vossa consideração.
1. Esta senhora poder-se-ia ter afogado no materialismo. Tinha muito para disfrutar. Não obstante, desde bem novinha, nunca a matéria ofuscou a ânsia do espiritual. Para usar a expressão do Papa, não confundiu ânsias humanas com o relax de um sofá para apenas navegar na internet. Conciliar presença no mundo e abertura ao Transcendente é a grande «sabedoria» do tempo que passa.
2. Ligou-se a uma família religiosa cuja atividade mais marcante era a reintegração na sociedade das mulheres e crianças vítimas de maus tratos, violência e pobreza. Não se limitou, portanto, a criticar o mundo: empenhou-se nele! Como diria o Papa Francisco, não ficou na janela a ver passar o cortejo da miséria social, mas desceu à rua para se inserir nele e dar a mão a muitos.
3. Nunca se contentou com uma paz podre, fruto do «não te rales» ou «deixa andar». Como Superiora da sua Comunidade, contestou hábitos instalados, pediu mais, deu o exemplo, pôs metas elevadas. Fez o que o Papa pede aos jovens: “Fazei barulho”. Não o barulho da civilização tecnológica, mas o que ele mesmo concretiza: “Quero que vos façais ouvir nas dioceses, quero que a Igreja vá para a rua, quero que nos defendamos de tudo o que é mundanidade, imobilismo, conforto, do que é clericalismo, de tudo o que nos fecha em nós próprios”.
4. Acarinhava muito as religiosas velhinhas. Estas eram uma espécie de transmissão viva do espírito da fundadora. O Papa também diz muitas vezes: “A aliança entre as gerações […] é o nosso dom perdido que temos de retomar”. Sim, jovens: ligai-vos aos vossos avós e anciãos, verdadeiros poços de sabedoria. Num tempo em que, por causa da produtividade, predomina a cultura da rejeição, tende a certeza de que o mundo não se sustenta sem raízes.
5. Maria Droste influenciou o Papa Leão XIII para que consagrasse o mundo ao Sagrado Coração de Jesus, o que veio a acontecer a 11 de junho de 1899 e que ele mesmo diria ter sido o gesto mais significativo do seu pontificado. Sim, a Igreja é a grande notícia do amor de Deus e esse amor concretiza-se em gestos de serviço evangelizador, litúrgico, de caridade e organização. O Coração de Jesus sintetiza tudo isso: um Deus que se comove com as nossas dores, se move ao nosso encontro e cura os corações dilacerados e partidos. E recria-os pelo amor. Fora d’Ele, é o reino do ódio, da carência, dos naufrágios sociais, do egoísmo, da xenofobia e do racismo, da guerra e do medo. Francisco diz: “Vivemos momentos terrivelmente difíceis. A humanidade está em grande perigo. Sede embaixadores da paz para que o mundo redescubra a beleza do amor, do viver juntos, da fraternidade, da solidariedade”.

Amigos, chegamos aqui de diferentes nações, culturas, geografias e condições, para cumprirmos a profecia de Isaías de que falava a primeira leitura e juntos sonharmos o sonho de Deus, a construção de um mundo novo. Vamos a isso? Não fomos nós que escolhemos a fé. Foi Deus que nos escolheu a nós. E isso é desafiante!
Viemos aqui para, simultaneamente, fazermos juntos a experiência das diferenças e da unidade. Que beleza, se as soubermos usar e partilhar para nos aproximarmos uns dos outros e sentirmos que em Jesus somos um só, porque temos connosco o mesmo Senhor e Pastor, como nos dizia a segunda leitura!
Partiremos daqui com a missão de irmos ao encontro de todos, como nos dizia o Evangelho. Não só de alguns, mas de todos! Foi assim que Jesus no-lo disse no-lo ensinou. Não com leis e preceitos. Mas com o exemplo de um coração acolhedor, amigo, misericordioso, abraçador da totalidade da vida e da história.
Amigos, muito gostaria que todos e cada um de vós, a partir destas JMJ, passásseis a ser influencers de Jesus Cristo. Como? Quando regressardes às vossas terras e pátrias, dizei que lá, na cabeça da Europa, existe um país simpático e acolhedor, de nome Portugal. Os que são portugueses, estão dispensados disto. E contai a todos o que aqui aconteceu, como Jesus o fez. Sede contadores da história destas Jornadas. E de parábolas para o tempo de hoje. Tal como as de Jesus.
Como o Papa, peço-te: “Jovem, levanta-te. Sonha e arrisca”. Jesus conta contigo! Como contou com a Beata Maria do Divino Coração.
+ Manuel Linda

