A Imaculada, ícone de uma Igreja voltada de face para Deus
Homilia na Missa da Imaculada e ordenações de Diáconos - 2023
Nas leituras desta Solenidade, chama-me a atenção a forma como se dá o encontro ou desencontro de Deus com a humanidade. No livro do Génesis, a pergunta central é feita a Adão: “Onde estás?”. O casal humano não se encontra nem se deixa encontrar: estava escondido. No Evangelho, o mensageiro divino chega com toda a naturalidade, sem ser preciso perguntar aos vizinhos onde se encontrava a jovem Maria porque Esta não se esconde de Deus: vive próxima e de frente para Ele. Por isso, pode ir logo ao núcleo central do assunto que o levava à casa de Nazaré: “Tendo entrado onde ela estava, disse o Anjo: «Ave, cheia de graça, o Senhor está contigo»”.
Por outro lado, na queda dos nossos primeiros pais, entra um agente inspirador: a serpente que garante às pessoas serem como Deus se fugirem d’Ele. Na Anunciação, é o Espírito Santo que se coloca na origem da grande transformação histórica, porque a Virgem vive enamorada de Deus: “O Espírito Santo virá sobre ti. Por isso o Santo que vai nascer será chamado Filho de Deus”. E como, pelo mal da serpente só pode vir outro mal ainda maior (o trabalho, o sofrimento, a morte…), pelo Bem virá toda a salvação: a ternura da vida nascente, mesmo nos casos julgados impossíveis (Isabel), uma boa notícia, um novo Reino de valores que não terá fim, o convívio de Deus com os homens.
Eis, pois, a diferença entre o estar do lado de Deus ou contra Deus. E eis Maria de Nazaré como o dado visível daquilo que não se pode misturar, tal como a água e o azeite: ou graça ou pecado. Por isso a chamamos Imaculada, isto é, aquela que é «santa e irrepreensível», no dizer da segunda leitura. A tal “inimizade” entre a serpente e a Mulher, de que falava o Génesis, e o “cheia de graça” do Evangelho querem dizer que Ela é modelo de uma Igreja que pode ser transbordante de bem e de beleza se se coloca decididamente do lado de Deus para o serviço dos irmãos.
Caros fiéis, vós os que vos alegrais com esta verdade da fé e, agora, de uma forma especial, vós os que ides ser ordenados Diáconos para a missão da Igreja: em concreto, que é que isto diz às nossas vidas e traz de particular ao vosso ministério?
Em primeiro lugar, uma interpelação. Nas bem-aventuranças, «magna carta do Reino», Jesus refere que só “os limpos de coração verão a Deus”. Maria é a Mulher do coração limpo, sem refolhos, transparente, fresco, autêntico. Daqui a interpelação: serei digno da maternidade desta Mãe e de exercer um ministério confiado pelo seu Filho se o meu coração se afastar deliberadamente deste modelo? O Papa Francisco, faz disto uma preocupação contínua. E alerta-nos para o que ele chama carreirismo, critérios mundanos, autoritarismo, etc.
Depois, um exemplo bem atual. Os Evangelhos referem-nos que, nos momentos-chave da vida de Maria, ela experimentou turbamento, admiração, incerteza, falta de compreensão imediata, perplexidade e dor. Mas saiu sempre vitoriosa pela força da graça e pela confiança em Deus e no seu Plano. Um ministro ordenado também se confrontará sempre com problemas, maledicência, críticas e afrontas. Mas que lhe venha sempre ao pensamento as palavras de Jesus: “Tende coragem. Eu venci o mundo” (Jo 16, 33), isto é, o espírito de injúria e de intolerância daqueles que não nos deixam ser crentes e diferentes. Que nunca desista; que nunca lhe falte o ânimo e a coragem.
Finalmente, um motivo de alegria e festa. Desde o Génesis, perpassa pela história da salvação uma alegre notícia: o mal não terá a última palavra da história. Na saudação do Anjo, a primeira palavra que se pronuncia é “Alegra-te” – kaire- que nós traduzimos por “ave”. O mensageiro não inculca severidade, não manda colocar-se de joelhos, não acena com medo ou terror. Pelo contrário, manda abrir as portadas da sua alma ao sol da alegria, saborear o êxtase de dois namorados, fazer festa de núpcias. Como refere o nosso Plano Diocesano, que anda à volta deste tema: “Vamos com alegria”.
Irmãs e irmãos, caros próximos Diáconos, a Imaculada é ícone da vida crente. Por isso, o Concílio chama-lhe “modelo da Igreja”. Modelo na limpidez do coração, típica dos amigos de Deus; modelo na capacidade de se confrontar com as incompreensões da vida e de as superar no ânimo e na esperança; enfim, modelo de alegria e de júbilo de quem vive seduzido pelo Amor maior. Ela nos dê força para a imitarmos.
Manuel Linda, Bispo do Porto 08 de dezembro de 2023