Sexta-feira santa
A passagem da humilhação à glória
Estas leituras despertam-me para uma dupla realidade: sociológica e espiritual.
Depois da noite passada aos encontrões e sob o nervosismo da farsa do julgamento de Anás e Caifás, bem dentro da fúria da populaça, depois da violência dos soldados, da flagelação, da coroação de espinhos, da redução áquilo que o nosso povo chama um “farrapo humano”, Pilatos apresenta Jesus à multidão com as palavras de todos conhecidas: “Ecce homo”, “Eis o Homem”. Sim, na Pessoa de Jesus, no “homem das dores”, no sofredor, estava presente a parte maior da humanidade: o «homem comum», que passa dificuldades de todo o género, é desprezado nos seus direitos, gozado, objeto de exploração, reduzido ao nada. É o homem-coisa, como tantas vezes vemos nos migrantes e refugiados, nos sem-papéis e escravizados.
Por isso, como diz o Papa, “na cruz, Jesus de Nazaré tornou-se o emblema de toda a humanidade humilhada e ofendida”. Dessa ao lado de quem Deus está, pois o supremo Justo não pactua com a injustiça. Ao lado ou escondido no ser dessas pessoas, já que o mesmo Jesus, no discurso do juízo final, garantiu essa identidade: “Quando te vimos com fome e te demos de comer, com sede e te demos de beber, nu e te vestimos […]? Sempre que o fizestes a um dos mais pequeninos, foi a mim que o fizestes” (Mt 25, 37-40). Desprezar a dignidade humana, ofender os débeis, abusar seja de quem for, é acrescentar dor à dor de Jesus, é voltar ao Pretório para Lhe impor novos sofrimentos.
Mas há também uma outra dimensão, porventura a determinante: a espiritual. A história de Jesus não se confina ao tempo que vai do seu nascimento à deposição no sepulcro. A primeira leitura aludia a um misterioso “homem do sofrimento”. Pelo contexto, parece referir-se a uma importe figura que, como era habitual nesse tempo, juntava em si as funções de rei e de profeta. Mas Isaías acrescenta-lhe outra: a de sacerdote, pois reconcilia o homem com Deus, como refere a segunda leitura.
Sim, o sacerdote é o tal pontífice que estabelece a ligação entre o povo e Deus, numa proximidade indestrutível, de tal forma que a sorte de um passa a ser a sorte do outro. Por isso, o profeta escreve: “O justo, meu servo, justificará a multidão e tomará sobre si as suas iniquidades. Eu lhe darei as multidões como prémio; porque entregou a sua vida à morte e foi contado entre os malfeitores, tomou sobre si as culpas das multidões e intercedeu pelos pecadores”. E nisso se verifica o cumprimento da sua missão, o tal “prémio”. O vencido tornou-se vencedor; o desprezado, “pedra angular”; o servo, Senhor; o morto, o Ressuscitado; o verdadeiro Homem triunfa como verda-deiro Deus. Juntar a nossa vida à sua é participar desta glória. É sairmos vencedores.
Irmãs e irmãos, o sentimento dominante deste dia é a dor. Mas este é um dia de passagem. O definitivo chama-se triunfo, Páscoa gloriosa, ressurreição e vida.
Manuel Linda, Bispo do Porto 7 de abril de 2023