Sois a ternura!
Homilia de Natal 2025

Caro Menino Jesus, a partir desta mesma cátedra, habitualmente, falo de Vós à multidão dos cristãos para os animar na fé e os congregar como povo que é vosso. Hoje, porém, com eles e por eles, quero falar-vos a Vós. Olhos nos olhos. Com palavras simples. Mas com o colar de sentimentos com que se fala a um amigo.
Antes de mais, queremos dar-vos os parabéns pelo vosso nascimento. Oh, como nos sentimos felizes! O Evangelho dizia-nos que “o Verbo se fez carne e habitou entre nós”. O Verbo sois vós, a Palavra criadora do Pai, a sua vontade salvífica, a ação que se faz carne da nossa carne. Como é isso possível, Menino Jesus? Como se compreende que seja na pequenez de uma criança que Deus se revela? Como é que Aquele que fez o mundo e é infinitamente maior que ele, afinal, caiba numa pequena manjedoura? Só há uma resposta: escolheste vir ao mundo como criança pequena, frágil, carente, para nos mostrardes que compartilhais connosco a nossa condição humana, que sois mesmo nosso «próximo» e não algo de longínquo, humano como nós porque necessitado de tudo, envolto em panos e recostado numa manjedoura como exemplo de paz e de amor na simplicidade e não um ser que se reclame da sua grandeza e poder, quase sempre estratégias para o conflito e para a desunião.
Mas é precisamente assim, carente e frágil, que nos encantais e nos atraís a Vós. Mostrais-Vos como indefeso porque sois sinal da tal Luz que brilha nas trevas, a alegria que gera a esperança e o ânimo de cada dia, o tal “mensageiro que anuncia a paz, que traz a boa nova, que proclama a salvação”, de que já falava o profeta. Sois, o olhar complacente de Deus, as mãos providentes que nos sustentam, o sorriso amoroso, a ternura com que nos trata. Sim, a ternura. Sois a ternura!
Sabes? Nós precisamos muito de ternura. Somos tão carentes! Andamos sempre agitados, à procura de algo que nem sabemos bem de quê. Mas, lá no fundo dos nossos desassossegos, o que procuramos é ternura. Nós e a sociedade em geral. Carecemos de mãos que afaguem, sorrisos que nunca mais se esqueçam, carícias que nos marquem, palavra doces, beijos de casais, olhos que fixem os olhos dos outros, flores em vez de palavreado, música que empolgue corações, convites para passeios, refeições conjuntas, esquecimento das redes sociais para que os ouvidos possam escutar as vozes das pessoas. Precisamos de menos tempo de ecrã e de mais convívio com os outros e com a natureza. Sim, precisamos desesperadamente disso. Precisamos de ternura.
Essa grande amiga vossa e grande santa da Igreja que até adotou o vosso nome para seu apelido, Teresa de Jesus, gostava de dizer que “a ternura nasce no coração de quem se sente amado”. Mas para isso, é preciso proximidade, pois, à distância, não é possível ouvir e sentir o coração de quem ama. Ah, se nós prestássemos atenção a isto!... Mas não. Muitas vezes, afastamo-nos porque desconfiamos, envolvemo-nos numa qualquer substância refratária para não deixarmos penetrar no nosso coração as ondas de ternura emitidas por aquele coração que nos ama. Outras vezes, quando o outro necessita de carinho e consolação, fugimos, convencidos de que, se mantivermos essas atitudes, perdemos algo de nós próprios. E é precisamente o contrário! Por isso, mantemo-nos frios, isolados e sós. E sentimo-nos mal. Sentimo-nos mal porque não experimentamos a ternura, pois esta, pela sua própria natureza, necessita sempre de dois corações: um que ame e outro que se sinta amado. E o que se sente amado também ama aquele primeiro que o amou, numa troca de ternura contínua e infinita.
Caro Menino Jesus, nós sentimos uma enorme ternura por ti porque te fizeste tão próximo de nós que até nasceste numa casa sem portas, para podermos ver e ouvir o teu ser de amor. Brincaste connosco, riste connosco, choraste connosco, caminhaste connosco, comeste e bebeste connosco, morreste como nós e connosco, ressuscitaste como havemos de ressuscitar e prometeste-nos a vida em plenitude porque queres estar sempre connosco e que nós estejamos contigo. É isto que mais nos cativa em ti. É isto que nos faz aproximar do presépio e ver aí a nossa condição humana e a ternura de quem se sente amado. Gostamos tanto do presépio onde os galos cantam, as lavadeiras lavam, os agricultores labutam, as águas límpidas correm, as azenhas rodam, os fornos de cozer o pão estão acesos, os animais são simpáticos, os pastores e magos sentem-se atraídos por ti, a Virgem Maria e São José vivem um enlevo cativante e Tu possuis um tal sorriso do qual não nos conseguimos afastar. Porque é um sorriso de ternura.
Menino Jesus, no presépio, de algum modo, está representada a vida do mundo. É a este mundo, com as suas alegrias e esperanças, dores e angústias, que nós também queremos levar a ternura em que Tu nos envolves. A começar pela nossa família: relações familiares esfriadas é o mesmo que trocar o melhor da vida pela apatia e sem emoção. Depois, queremos alargar a ternura às relações sociais, ao âmbito do trabalho e da empresa, aos conhecidos e aos migrantes, às crianças e aos sós, aos doentes e seus cuidadores, aos velhinhos e a quantos lhes fazem companhia. Queremos intentar uma verdadeira revolução da ternura que resolva os conflitos pelo diálogo e pela inteligência e nunca mais se pense na guerra e nas armas. Como sabes bem, neste momento da nossa história, precisamos desesperadamente de evitar guerras que se sabe como começam mas nunca como acabam. Se é que elas não acabam… com o mundo.
Mas hoje não queremos pensar nisso. Queremos dizer-Te que este ano Jubilar de 2025, já ele mesmo, em tantos aspetos, nos permitiu saborear a tua ternura. Pensamos, por exemplo, na esperança que inundou o nosso coração e nos abriu ao futuro, na grande peregrinação diocesana a Fátima que congregou a Diocese como uma família viva e unida e no renascimento religioso, particularmente entre os jovens, sinal de um sol primaveril na tua Igreja. Obrigado por tudo. E não te esqueças: concede-nos sempre a tua ternura que nos leve a viver em festa, em boas festas!
+ Manuel Linda
25 de dezembro de 2025