Dignos filhos da “aurora do tempo novo”
Homilia na festa da Senhora do Castelinho
Muitos de nós, concentrámo-nos na igreja paroquial, casa comum de todos os gerados para a vida nova da fé pelo santo Batismo, e daí iniciamos uma peregrinação até este Santuário do Castelinho, dedicado à Natividade de Nossa Senhora. Pelo caminho, cantamos os louvores da Virgem, rezamos-lhe a oração de que ela mais gosta, meditamos no seu exemplo para a nossa vida e até contemplamos esta natureza belíssima que Deus criou e nos deu para dela arrancarmos sustento e desenvolvimento. Aqui, neste recinto, encontramo-nos com muitos outros crentes, irmanados no mesmo amor e devoção a Maria. E tudo isto é uma bela forma de mostrarmos o nosso amor e a nossa confiança nela, neste dia dos seus anos.
Não ficamos sentados à beira do caminho ou no cadeirão de casa, mas movemo-nos arrastados pela fé, caminhamos com os irmãos, dirigimo-nos a uma mesma meta, qual seja a celebração da Eucaristia que nós sabemos constituir o coração da festa religiosa, a expressão sublime das verdades em que acreditamos. Peregrinamos. E peregrinamos com esperança e em esperança, como nos lembra o tema do jubileu que estamos a viver. Porque esta é quem alimenta a nossa vida. Por isso, precisamos de a ativar continuamente. De a manter e desenvolver. Como dizia o poeta francês Charles Péguy, “esperar é a coisa mais difícil. A coisa mais fácil é desesperar. E é essa a grande tentação”. Esperamos para não desesperar. É que nós não somos nem queremos ser uns desesperados. Por isso, agarramo-nos a Nossa Senhora. Ela é a nossa esperança!
De facto, a Sagrada Escritura descreve-a como “aurora do tempo novo”. Há dois mil anos, predominava a escuridão e a noite da humanidade: as guerras, as faltas de respeito, os roubos e assassínios, as doenças e a fome, enfim, o mal puro e a falta de qualquer raio de luz. Mas, como dizia a oração inicial desta Missa, com «a Virgem santa Maria, cuja maternidade divina foi o princípio da nossa salvação, chegou até nós a aurora da novidade e a paz». Porque –refere o Evangelho-, ela trouxe-nos o Salvador, o Deus-connosco, «O que salva o povo dos seus pecados». E o pecado é tudo o que é mal físico ou moral, o que não nos traz felicidade mas desgraça, o que nos repugna, mesmo que não tenhamos sempre a força de o evitar. Como “aurora do tempo novo”, a Senhora traz-nos luz, felicidade, alegria de viver, conforto, esperança. Traz-nos o seu Filho que é o único Salvador, hoje e sempre!
Dedicamos, pois, este dia à contemplação deste dom, desta obra-prima de Deus. Recordamos, admiramos, exultamos porque Maria nasceu. Maria é nossa, Maria encarna a figura da humanidade perfeita, Maria é a imagem e o modelo da Igreja. Maria é vizinha, está próxima de nós, intercede por nós. Ao longo da sua vida, nunca pediu nada a Deus ou ao seu Filho para si mesma. Mas pediu-Lhe para nós. Pensemos no caso exemplar das bodas matrimoniais de Caná: quando deu conta de que algo faltava, dirige-se a Jesus e intercede por aqueles noivos para que não passem vergonha. E Jesus atende-a, como sempre. Por isso, a Igreja canta: “O teu nascimento, Virgem Mãe de Deus, anunciou a alegria ao mundo inteiro". Porquê? Porque "de ti nasceu o sol da justiça, Cristo, nosso Senhor". É que na festa do nascimento de Maria, a Igreja vê a tal aurora que precede a luz que é Jesus, a nossa salvação.
Ela é Mãe de todos, dos bons e dos menos bons. Foi o título que Jesus lhe deu, no Calvário, quando se dirigiu ao discípulo João, representante de todos nós, e lhe disse: “Eis a tua Mãe”. E a ela: “Eis o teu Filho”. Ora, uma Mãe o que mais aprecia é a companhia e o amor dos filhos. No campo da fé, passa, principalmente, por dois meios que muito vos peço, caros peregrinos: oração e afeto. Quanto à oração, rezemos-lhe com frequência. Se possível, o terço e o terço em família. Se isso não for possível, ensinem os vossos filhos a nunca se deitarem sem rezarem, ao menos, um Pai-nosso a Jesus e uma Avé-Maria a Nossa Senhora. Rezemos-lhe. Rezemos-lhe sempre. Por nós, pelos nossos, pela Igreja, mas também pelos que mais precisam e pelos que andam mais afastados de Deus. Rezemos-lhe pela paz e pela harmonia entre as nações.
Quanto ao afeto, é belo o gosto de a contemplar nas suas imagens e de compreender a razão das diversas invocações que lhe tributamos: Senhora do Rosário, das Graças, do Carmo, das Dores, da Misericórdia, da Boa Hora, do Bom Despacho, etc. Será uma bela forma de a conhecermos melhor. E tenhamo-la sempre no pensamento e no coração. Interroguemo-nos que é que ela faria se estivesse no nosso lugar. Cultivemos as virtudes das quais ela é exemplo sublime. Sim, desejemos e esforcemo-nos por ser virtuosos. O poeta que citei, Charles Pèguy, dizia: “Há algo pior que ter uma alma malvada: é ter uma alma viciada”. Os vícios maus não são dignos dos cristãos.
Confiemos na sua intercessão poderosa. Aceitemos a sua mão para caminharmos na vida rumo à grande meta, com felicidade e esperança. Por isso, rezo-lhe em nome de todos a oração que a Igreja, há muitos séculos, gosta de lhe dirigir no final de cada dia, precisamente antes de iniciar o descanso: “À vossa proteção nos acolhemos, Santa Mãe de Deus. Não desprezeis as nossas súplicas em nossas necessidades, mas livrai-nos de todos os perigos, ó Virgem gloriosa e bendita”.
+ Manuel Linda 8 de setembro de 2025