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COMPREENDO E ACEITO

 

Na Imaculada Conceição

Abridores de corações

 

 

Neste dia belo de uma das maiores Solenidades de Maria Santíssima, Padroeira de Portugal, associamos júbilo ao júbilo: a celebração da Imaculada Conceição, a Ordenação de Presbítero de um monge beneditino e a Ordenação de Diáconos de seis irmãos nossos. A Virgem Maria escutou Deus que a chamou a uma missão única à face da terra; os ordinandos, nas várias circunstâncias da sua vida, escutaram a mesma voz e também se dispuseram a colaborar, de forma mais íntima, neste projeto de salvação.

De facto, se alguma coisa carateriza a Liturgia da Palavra deste dia são os diálogos de Deus. No primeiro, Deus fala com um homem, Adão; no segundo, por intermédio do Arcanjo Gabriel, fala com Maria. Dois diálogos, mas duas atitudes e duas respostas diferentes. Como um dia disse o Papa Francisco, é o mesmo Deus quem procura a humanidade. Mas, “nos primórdios, há o homem que diz não a Deus, e no Evangelho, há Maria que diz sim a Deus”. No primeiro caso, Deus vai ter com Adão e pergunta-lhe: Onde estás? E o homem responde: ocultei-me. No segundo, Maria de Nazaré apresenta-se livremente e sem medo e responde: “Eis aqui a serva do Senhor”. Ou simplesmente: Eis-me aqui! E conclui o mesmo Papa: “O «eis-me» é o oposto do «ocultei-me». O «eis-me» abre a Deus”, enquanto o «ocultei-me» corta com Ele.

A grande história da humanidade, passa por aqui: um enorme número que teima em ocultar-se de Deus e do seu projeto salvador; e outros que, não obstante a sua pobreza e indigência, insistem em voltar a face para o Senhor e manter aberta a porta do diálogo. Sim, diálogo. Porque, como sabemos, Deus procura o homem antes de o homem procurar a Deus. Procura-o porque o quer inserir no grandioso projeto do seu amor. E comunica-lhe vida e salvação, ao contrário de muitas conversas do mundo que não passam de ruído. Como refere um rabino (o judeu Andrea Neher), Job, na sua insistência em permanecer em diálogo com Deus, não obstante a pseudo sensatez dos seus amigos, no final da sua história poderia ter dito algo como isto: "Senhor, quando os meus amigos falavam, eu compreendia tudo, mas eles nada me diziam. Agora que Tu falas, eu nada compreendo, mas basta-me que Tu me fales". De facto, o relato do Génesis diz-nos que Deus fala ao homem, mas o homem não o ouve, porque tem outra palavra no coração: a da serpente, a de “ser como deuses”. Porém, Maria de Nazaré tem o coração vazio, limpo e acolhedor, porque salvo dessa palavra da serpente. Por isso, deixa-se guiar pela palavra salvadora e acolhe o Verbo divino, a vida do mundo.

Caros ordinandos, daqui a pouco, por intermédio do senhor D. Vitorino, Deus também vos vai perguntar: "Onde estais?" E a vossa resposta vai ser: “Presente”! Como quem diz: “Estou dentro da tua Igreja que procura fixar o teu olhar salvador. E eu quero colaborar muito nesse projeto de olhos nos olhos. Eis-me aqui. Manda e eu farei. Quero fazer do «eis-me aqui» a palavra central da minha vida. Sim, porque esconder-me é ficar em mim, envelhecer centrado na ridicularia das coisas pequenas. Mas disponibilizar-me para ti é quebrar as amarras que me prendem a esta vida insatisfeita, de voos rasteiros, e assumir a ousadia dos altos voos que permitem visões sempre surpreendentes. Digo-te «Eis-me aqui» como profissão de fé: porque acredito que a tua vontade vale bem mais do que o meu ego”.

Amigos, em Igreja, há tantas formas de dizer sim ou «eis-me aqui»! Porém, esta de ministro ordenado possui caraterísticas especiais. Como alguém dizia, a obediência e a colaboração de um discípulo não é mesma de um soldado: o nosso "sim" tem de provir de um coração bem-disposto, alegre na gratuidade, sincero, acolhedor de todos, disponível para elevar os prostrados, apto a dar razões da nossa esperança. A edificação da comunidade não se faz aos berros, nas acusações, na autoridade distante, na cara antipática, no mau-humor. Isso só afasta, só desmotiva, só gera ressentimentos que acabam por contagiar outras pessoas.

Sois ordenados em tempo de Advento e na Solenidade da Imaculada. O Advento abre-nos para a expectativa e para o futuro, para a esperança cristã. Embora na plena fidelidade às raízes cristãs, sede, pois, pessoas de futuro, sonhadores de novidade, construtores de sinodalidade, perscrutadores do sensus fidei e do sensusecclesiae. O Senhor transcende sempre as nossas seguranças humanas e as nossas letargias para nos dizer: “Eis que faço novas todas as coisas. Ainda não o vedes?” (Ap21, 5). Com Maria de Nazaré, aprendereis a nunca vos retratar da vossa fé e do serviço humilde que prestareis. Mesmo aos pés da cruz, o seu «eis-me» foi até ao fim. Na missão de serviço no altar, mas, muito mais, aos frágeis da sociedade, ireis encontrar muitas cruzes e muitos crucificados. Não os eviteis. Permanecei com eles para os aliviar, os consolar e os promover. Diácono que não contacte com a pobreza, verdadeiramente não exerce a sua função ordenada.

No mais, como verdadeiro agente pastoral evangelizador, tentai entrar sempre no coração das pessoas do nosso mundo como abridores de corações, para que a Palavra de Deus aí seja recebida e obtenha de todos o assentimento que enobrece o homem: «eis-me aqui». Como muito bem refere a nossa Caminhada Diocesana do Advento, a atitude dominante deve ser: escutar com humildade, falar com franqueza.

Isto peço para vós e para todos por intermédio da Imaculada Virgem Maria, a primeira a dizer um sim universal a Deus e à sua obra de salvação. 

 

+ Manuel Linda 8 de dezembro de 2025