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Homilia na Solenidade de Cristo Rei e Senhor do Universo

A Urgência do novo céu e da nova terra

 

Neste último Domingo do ano litúrgico, depois de um itinerário que percorreu os principais mistérios da vida de Jesus, em ordem à plena adesão a Ele e aos seus valores, a Igreja celebra uma solenidade com uma fortíssima dimensão social. Poder-se-ia designar como uma celebração eminentemente política. Não no sentido partidário, obviamente. Mas como expressão da mundividência que o cristianismo tem sobre o mundo e sobre a sociedade. Como forma de dizermos o que não queremos e o que nos propomos construir.

Esta comemoração é relativamente nova no calendário litúrgico. Foi instituída apenas em 1925. Comemoramos pois, o centenário. O Papa da altura, Pio XI, sabiamente, deu-se conta da nova cultura totalitária que grassava pela Europa e pelo mundo. A Leste, o marxismo materialista, tornado sistema político, numa loucura coletiva sem par na história, arvorava-se em dono da vida humana, na pretensão de criar um «homem novo» e «amanhãs que cantam”. E sacrificou dezenas ou centenas de milhões de pessoas, numa das mais terríveis ditaduras da história da humanidade. No Ocidente, começaram a surgir reações a essas tiranias, mas que tudo indicava iriam cair no extremismo contrário. Pense-se no fascismo, no nazismo, nas ideologias da segurança nacional, etc. Na fidelidade à pessoa humana, que não existe como tal sem consciência e liberdade, Pio XI, numa única semana, com três encíclicas distintas, condenou outras tantas visões redutoras da vida humana em sociedade. E instituiu a Solenidade de Cristo Rei para afirmar ao mundo que o único Senhor que não espezinha, mas promove a dignidade humana, é Cristo. Como tal, propõe o regresso a Cristo, a instauração de tudo em Cristo, o reconhecimento do seu senhorio sobre a história e sobre a sociedade. Precisamente o contrário das ditaduras de todas- perseguidoras da fé cristã. É que onde houver fé, há defesa da dignidade. A fé não suporta ditaduras. Por isso, o grito “Viva Cristo Rei!”, para muitos milhares de mártires mexicanos e espanhóis, constituíram os últimos sons antes do disparar das armas de fuzilamento.

Hoje, as condições políticas são muito diferentes. Graças a Deus. Não obstante, também não se está a edificar –pelo menos com a intensidade desejável- a sociedade humanista e livre. Perante este mundo cultural alienado e alienante do indiferentismo, individualismo, materialismo e consumismo, que deixa novas vítimas no caminhar histórico da humanidade, os cristãos são chamados a novas ousadias, superiores propostas, fermentação de novos valores. Como reza o Prefácio desta Missa, é nossoobjetivo “um reino eterno e universal: reino de verdade e de vida, reino de santidade e de graça, reino de justiça, de amor e de paz. Somos chamados à tarefa bela de recolher os fragmentos, solidifica-los e dar uma unidade e uma beleza digna da pessoa a este mundo que continua muito dividido, muito fraturado, como o mostram as guerras atuais, a corrida aos armamentos e os ritmos contraditórios do desenvolvimento.

Não entremos em pessimismos nem se pense que esta fuga ao reinado de Cristo é exclusiva dos nossos dias. A cena da cruz que, hoje, a liturgia nos apresenta no Evangelho, mostra-nos que o desprezo pelos últimos, pelos sofredores, pelos privados da vida ou do direito e da própria dignidade, já estava presente na mentalidade que viunascer a nova cultura e civilização assente no Crucificado. E mostra-nos ainda que alguns, tal como o condenado que ficaria para sempre conhecido como «o bom ladrão», passaram a descobrir que o mal só se vence com o bem, os insultos com o silêncio, o ódio com o amor, enfim, o anti-humano com a proclamação do valor infinito da pessoa criada à “imagem e semelhança de Deus”.

Por outro lado, na primeira leitura, ao apresentar-se a figura de David, o primeiro rei de Israel a ser aceite por todas as tribos, como verdadeiro fundador de uma nova realidade social, não só se antecipa o que iria acontecer com Jesus, da descendência de David, mas também demonstra que as divisões podem ceder lugar à unidade e o povo pode tecer a sua vida em clima de profunda religiosidade, sob a comum paternidade divina. E pode ainda constituir como que o botão de rosa de onde aparecerá a beleza da salvação universal, em Jesus Cristo.

Irmãs e irmãos, hoje, o mundo, sofre um acentuado défice de presença da fé nas suas pessoas e estruturas. Levemos-lha, porque não há outro nome que nos possa salvar que não seja o do Senhor Jesus Cristo. E onde Ele reina, o mundo desenvolve-se à base da verdade e da vida, da santidade e da graça, da justiça, do amor e da paz.

Que Maria Santíssima, que tanto contribuiu para a instauração desse reino ou mundo novo, nos torne mais audazes e pessoas abertas ao futuro de Deus que nos promete “um novo céu e uma nova terra”.

 

+ Manuel Linda 23 de novembro de 2025