Homilia no funeral do Padre Fernando Rosas
"O P. Fernando Rosas deixou-nos", podia ser este o resumo das muitas mensagens que recebi na noite da passada quarta-feira, mal se divulgou a notícia da sua morte. Embora este desfecho, infelizmente, fosse pressentido por nós, na síntese de uma frase tão curta, estava presente muito mais do que a constatação de um dado: era todo um mundo de emoções e de sentimento, um forte murro no nosso estômago que, para ser suportado, como que requeria a união de todos os que o tiveram como amigo. Precisávamos de falar. Precisávamos de partilhar a notícia.
De facto, como ele mesmo escreveu na sua tese de doutoramento, em 2020, "a morte de alguém que está próximo de nós é a ameaça mais dura, porque é a mais evidente e, dependendo da proximidade, vai levar-nos para próximo do morto". É prova dura porque não se refere apenas a quem faleceu, mas entra-nos pelos olhos e confirma a nossa finitude. "Vai levar-nos para próximo do morto" porque nos faz ver, com particular claridade que, afinal, é comum a todos a natureza que nos constitui. E, se ela se carateriza por algum dado, é precisamente pela fragilidade e finitude.
Mas esta natureza, na Encarnação, também foi assumida na totalidade pelo Verbo de Deus, o Senhor Jesus Cristo. E Ele que nunca perdeu a sua natureza divina, eleva a fragilidade da natureza humana pela força do Deus Criador e Senhor da glória. Assim, a natureza corporal que, por si só, esbarraria no abismo do nada, encontra redenção e salvação no mistério de um Deus feito carne. Entra no reino do sobrenatural, no qual -e só nele- se verificam as propriedades da vida celestial: imortalidade, eternidade, felicidade e plenitude no Deus que é tudo em todos.
Talvez por isso mesmo, o Padre Fernando Rosas, na referida tese, numa belíssima e densa frase, expressa assim a sua fé na ressurreição: "É a partir desta "carne" [a materialidade] que rezamos e acreditamos que essa Carne viva [a sobrenatural], que é a vida do homem, terá como destino essa plenitude da mesma Vida [o Deus de Jesus Cristo] que a fez nascer, que lhe deu existência". E faz sua uma frase magistral de uma notória teóloga (Gabrielle Dufour-Kowalska): A "Carne", pela qual somos e pela qual nos manifestamos, "é a prova de que toda a finitude é tecida de infinito, inseparável dele, tem dele (do infinito) tudo o que ela é, foi e será".
Somos tecidos de infinito. O nosso destino é o encontro com o Infinito. Esta certeza já estava bem presente_ no Antigo Testamento. A passagem do Livro de Job que escutamos -tantas vezes lida nos funerais- é disso testemunha. "Eu sei que o meu Redentor está vivo[ ... ] na minha carne verei a Deus. Eu próprio O verei, meus olhos O hão de contemplar". "Na minha carne". Não numa vaga recordação, num sonho ou imaginação. Mas numa realidade sensível. Tão sensível e tão bela que se pode comparar a uma "noiva adornada para o seu esposo", como dizia a segunda leitura.
Porque o Infinito de Deus, na beleza do seu amor misericordioso, chamou-nos duplamente à vida: àquela que se vive na história, passageira e rápida; e à outra a quem chamamos eterna, definitiva e gloriosa. Por isso, Ele pode dizer: "Eu sou o Alfa e o Ómega, o Princípio e o Fim". Esta oferta da dupla vida está-nos garantida por Aquele que é fiel e não pode negar-Se. Por isso, garante a Marta: "Todo aquele que vive e acredita em Mim não morrerá para sempre".
O P. Rosas viveu uma fé profunda nestas verdades. Não o digo somente a partir do que deixou escrito na sua tese de doutoramento, mas, por exemplo, na forma como preparou o seu próprio funeral. Foi ele quem escolheu as leituras, os cânticos e as próprias orações. E em tudo isto predomina a noção de vida e de luz, de confiança e de paz, como sintetiza o salmo responsorial: "O Senhor é meu Pastor, nada me falta". E numa doença tão longa e de tantos retrocessos, ele podia deixar-se tocar por alguma sombra de desânimo ou de desconfiança em Deus. Mas não é isso o que aparece, mas sim a confiança filial que lhe brota da fé na Ressurreição.
A Igreja agradece-lhe este testemunho fecundo de fé e confiança. E agradece-lhe muito. Para além deles, também lhe agradece o serviço humilde no ministério sacerdotal: o exercício da paroquialidade, o trabalho com os pobres e os portadores de deficiência e o repto que eu mesmo lhe lancei de edificar a igreja de Pedrouços. Nesta última Paróquia, já não teve tempo de construir a casa de Deus no meio da casa dos seus filhos, mas ainda chegou a atualizar o projeto arquitetónico.
O P. Fernando Silvestre Rosas de Magalhães nasceu em Valbom, no dia 1 de novembro de 1964. Fez a formação sacerdotal nos Seminários diocesanos e foi ordenado Presbítero a 8 de julho de 1990. Trabalhou como formador no Seminário do Bom Pastor e, cinco anos mais tarde, em 1995, foi nomeado Pároco da Senhora da Hora. Aí permaneceu até 2008, ano em que foi nomeado Pároco de São Pedro da Cova. Em 2022, assumiu as novas funções de Pároco de Pedrouços. Para além de Pároco, foi membro dos principais órgãos diocesanos. Ultimamente, também a meu pedido, assumir e cumpriu zelosamente as funções de coordenador e animar do Serviço Diocesano a Pessoas com Deficiência. Faleceu no dia 26 de novembro, na última semana do ano litúrgico, quando a Igreja contempla a meta definitiva de cada um dos crentes e de toda a humanidade.
+ Manuel Linda 28 de novembro de 2025