POLITICA DE COOKIES
Utilizamos cookies para assegurar que lhe fornecemos a melhor experiência na nossa página web. Ao continuar a navegar consideramos que aceita o seu uso.
COMPREENDO E ACEITO

 

Um Escutismo que sabe jogar na “equipa de Deus”

No centenário do CNE na Região do Porto

 

Juntamo-nos todos e em tão grande número, para celebrar, em alegria e júbilo, cem anos de Escutismo Católico nesta Região do Porto. Para celebrar! Ora, a palavra “celebrar” remete-nos para qualquer coisa de marcante, para algo de tão importante que não pode passar despercebido, que exige extroversão, festa. Celebramos porque algo é «célebre», fora do comum, e queremos que ainda se torne mais célebre, mais marcante. Por isso, só celebramos pessoas e acontecimentos significativos. De preferência, alguém ou algo que mudou a vida da sociedade para melhor. E celebramos na alegria incontida que nos leva a fazer gestos e atos que, habitualmente, não fazemos. Porque o que celebramos tem muito valor. Porque sem isso a qualidade de vida, nossa e do mundo, não seriam aquilo que são.

Ora, se cabem neste sentido de celebração muitos e belos acontecimentos, o Escutismo entra aqui como em casa própria. Desde aquele ano de 1925 em que se constituiu o Agrupamento da Paróquia do Bonfim, nesta cidade, até hoje, a graça de Deus passou fortemente por aqui. Não deixa de ser curioso que, entre nós, o Escutismo tenha nascido em Ano Santo, tal como este em que celebramos o seu centenário. E Ano Santo é tempo de Graça. Tempo em que Deus faz frutificar e torna mais intenso o bem e a beleza. Graça que animou e inspirou Baden Powell para fundar o escutismo e o Pe. Jack Sevin para o reler numa ótica católica. Graça que animou e alimentou milhares de dirigentes, assistentes, caminheiros, pioneiros, exploradores, lobitos e famílias que se "deram sem procurar qualquer recompensa". Graça que foi recebida por centenas de milhares de crianças, adolescentes e jovens de todas as idades e que foram, no seu tempo e lugar, fortes agentes de mudança e construção de um mundo melhor, "procurando sempre deixar o mundo um pouco melhor do que o encontraram".

Esta graça radica fortemente num casamento feliz, inseparável e muito fecundo entre o Escutismo e a Igreja. De facto, nem a Igreja atual seria a mesma sem o Escutismo, nem este sem aquela. Baden Powell dizia que a religião “é o fator fundamental que perpassa o Escutismo e a sua Orientação”. E em 1926, num discurso na Conferência dos Comissários e Guias Escuteiros, especificou o seu pensamento: “A religião não precisa de “entrar” [dentro do Escutismo], porque já está dentro. A religião é o fator fundamental." Em 1920, já se tinha pronunciado: “Não há lado religioso no Movimento [porque ele já está integrado por natureza]. Tudo isto se baseia na religião, isto é, na consciência de Deus e do seu serviço”. E refere mesmo que o seu projeto passa por "colocar as crianças em contacto estreito com o seu objetivo final, que neste caso é fazer o seu dever para com Deus, através do cumprimento dos seus deveres para com os outros”.

Esta afirmação da inerência do dado religioso ao método de BP faz-nos tirar duas conclusões: que sem a religião pode haver um simpático contacto com o grupo e com a natureza, mas não escutismo propriamente dito; e que este não consiste em atividades técnicas, percursos, marchas, acampamentos, etc. e, de vez enquanto, umas tintas de religiosidade, como participação nas procissões, uma Missa no campo, etc. Não! Ser escuteiro é realizar todas essas atividades com Deus na mente e alma, dando tempo à religião. Ainda segundo BP, os dirigentes não podem deixar de conduzir a alma jovem a um contacto espiritual mais íntimo com Deus”. O que quer dizer que este elemento tão importante não deve ser afastado da vida nem deixado apenas àresponsabilidade do Assistente. Não! Tem de penetrar tudo, até fazer da vida uma união com Deus. Até fazer com que Deus ocupe o primeiro lugar na nossa existência.

Extraordinária esta visão de BP. Ainda hoje não sabemos dizer melhor. Apenas sabemos insistir neste âmbito. Tanto mais que o tema deste Ano Jubilar é, como sabeis, “Peregrinos da Esperança”. E ser escuteiro é viver permanentemente nesta atitude de peregrino. As noites passadas em campo, as viagens exteriores e interiores, as dores do caminho, as conversas tidas, as lágrimas choradas, as músicas cantadas, ossorrisos partilhados são exemplo disso mesmo. O sorrir cansado, gasto, mas feliz, de um escuteiro ao regressar a casa, depois de um acampamento, é o rosto visível do sucesso do escutismo. Somos peregrinos sempre com esperança. Seguindo a Lei e a Promessa a que somos fiéis, não nos resignamos aos escolhos da vida. Animamos e damos o nosso contributo para a construção do amanhã.

É de esperança que nos falam as leituras bíblicas desta Missa. Na primeira, aparecia esta frase que não admite dúvida: “Nem o que planta nem o que rega são coisa alguma; só Deus é que conta, pois é Ele que faz crescer”. Se as coisas dependessem de nós, teríamos fortes razões para duvidar que chegassem ao seu cumprimento. Mas como é Ele quem faz crescer, então sim, um futuro bom está garantido. Um futuro em que a boa semente se multiplicará para alimentar as nossas fomes de verdade, de caráter, de alegria, de fraternidade e colaboração. Que sãotambém, ao fim e ao cabo, as fomes do nosso mundo. Uma semente que rende trinta, sessenta ou até cem vezes mais. Uma semente de êxito!

Caros Dirigentes, Assistentes, Escuteiros e famílias, parabéns! Que a semente do bem que nos chegou pelo Escutismo Católico nestes cem anos, se multiplique vezessem conta. Para que muito, cada vez mais, se possível todos, passem a jogar nesta “equipa de Deus”, como um dia disse BP.

 

+ Manuel Linda 5 de fevereiro de 2025