POLITICA DE COOKIES
Utilizamos cookies para assegurar que lhe fornecemos a melhor experiência na nossa página web. Ao continuar a navegar consideramos que aceita o seu uso.
COMPREENDO E ACEITO

 

Homilia na Ceia do Senhor de 2026

Eucaristia e Sinodalidade

 

Sabemo-lo bem, mas importa não deixar que o hábito se sobreponha à excelência única deste sacramento: hoje celebramos o dia em que o Senhor Jesus instituiu a Eucaristia, nos deixou o seu Corpo e o seu Sangue no pão e no vinho consagrados e fez dos Apóstolos sacerdotes ordenados ao dar-lhes a ordem: “Fazei isto em memória de mim”. Por isto, o lugar dos padres e dos bispos, neste dia, seria aqui, nesta catedral e nesta celebração comemorativa da Ceia do Senhor. Porém, já nos reunimos esta manhã, com a mesma intenção e finalidade, para que, nesta tarde, não falte ao povo de Deus o alimento espiritual deste «sacramento dos sacramentos».

A segunda leitura que escutamos, a fonte mais antiga que nos relata a instituição da Eucaristia, fala de corpo dado em alimento e de sangue derramado por todos. Reporta-se ao Calvário, onde o soldado iria abrir o lado de Cristo com a lança e donde “saiu sangue e água” (Jo 19, 34). Aquele “todos” vem no seguimento do que Jesus tanto pregou: “Que todos sejam um, ó Pai, como Tu e eu somos um” (Jo 17, 21). É que ao centro da mensagem de Jesus está a vontade de edificar o Reino de Deus, essa realidade da ordem das atitudes e dos valores, na qual a unidade e a fraternidade ocupam o ponto mais elevado. A dois níveis: da humanidade entre si e de todos com Deus. É por isso que, ao participarmos na única Mesa, celebramos a unidade na forma mais elevada, como refere S. Paulo: "Porque há um só pão, nós, embora muitos,formamos um só corpo, porque todos participamos do mesmo pão" (1 Cor 10,17). E a Igreja do nosso tempo reforçou-o no Concílio Vaticano II, ao escrever: “A Igreja procura que os cristãos, […] por este mistério de fé […], em Cristo mediador, progridam na unidade com Deus e entre si, para que finalmente Deus seja tudo em todos (SC 48).

De facto, quem se alimenta de Cristo, participa da vida d’Aquele que é «o santo dos santos». Não pactua com o pecado que divide, mas com o amor que une. Cristo é o centro, o vínculo fundamental da comunhão entre os cristãos e na humanidade. É Aquele que, a seu exemplo, nos convida a fazer a lavagem dos pés dos outros, como nos referia o Evangelho de hoje e irei fazer ritualmente de seguida, qual expressão do serviço fraterno que cria laços de amor com o outro que é servido e com Deus que está presente em quem necessita desse serviço. Pelo contrário, a divisão e o ódio são obras do diabo que levam à arbitrariedade, à aniquilação do outro, à guerra estudada «cientificamente» para matar e destruir e ao «viver como se Deus não existisse».Sabemos bem quanto o mundo precisa de unidade. Quando os cristãos a edificam e a mostram, transmitem a esse mundo a notícia alegre de que os conflitos, divisões e injustiças não são uma fatalidade, mas é possível uma humanidade-família, uma sociedade edificada à maneira da Igreja, Corpo Místico de Cristo, e uma fraternidade regida pelos vínculos da alegria, da colaboração, da simpatia e da atração pelo bem.

Evidentemente, para isso, temos de começar por purificar relações dentro da própria Igreja, da comunidade dos crentes. Não estamos isentos de pecado. Entre nós, também pode reinar a mentalidade do mundo: divisão, competição, inveja, cálculo, pretensão, intriga e disputa de interesses. Sem nos darmos conta, também nós podemos contribuir para a dilaceração do mundo e para a ruina do povo de Deus.

A Igreja chama a atenção para isso e para as condições de transformação do mundo: "A obra apostólica visa que todos, tendo-se tornado filhos de Deus pela fé e pelo Batismo, se reúnam em assembleia, louvem a Deus na Igreja e participem no Sacrifício e na Ceia do Senhor" (SC 10). Isto é, o dom da comunhão não é apenas um estilo de vida, mas tem de ser gerado e continuamente alimentado na inserção na Igreja, à base da Eucaristia, qual fonte e forma da comunidade cristã. Neste voltar o seu olhar para o seu Senhor e seu modelo e fazer «comunhão» com Ele, a Igreja evita fechar-se em si própria, particularmente neste tempo de «deserto espiritual», e vive, à base do Evangelho e da Tradição, como “luz do mundo e sal da terra”.

Como é fácil de ver, ao referir isto, tenho em mente o Sínodo diocesano que já está em processo. Se a união com Deus e da humanidade entre si é o grande objetivo da nossa fé, a sinodalidade convida-nos a reconhecer a presença do Ressuscitado nas relações fraternas, muitas vezes marcadas pela cruz e pela fragilidade humana. Requer uma conversão contínua, o "esvaziamento" do nosso egoísmo, para dar espaço aos outros e ao Espírito. Sendo nós, hoje, um “pequeno rebanho” (Lc 12, 32), as comunidades cristãs não podem viver de números, mas de adoração e caridade; não dependem da abundância de meios humanos, mas da vida abundante de Jesus. Como escreve Santo Inácio de Antioquia: uni-vos uns aos outros como "cordas de uma lira (...) e assim, no amor da concórdia, através de uma união estável, assumireis o tom de Deus, e todos cantareis a uma só voz (...) os louvores do Pai".

Unamo-nos a Jesus por intermédio deste a que chamamos o Santíssimo Sacramento. E quando, daqui a um mês, celebrarmos o Corpo de Deus, venhamos para a rua dizer a todos que só a comunhão ou comum união no seu Corpo e no seu Sangue pode renovar a Igreja, fazer deste um mundo novo e elevar a nossa materialidade até à glória da pura espiritualidade.

 

+ Manuel Linda 2 de abril de 2026