POLITICA DE COOKIES
Utilizamos cookies para assegurar que lhe fornecemos a melhor experiência na nossa página web. Ao continuar a navegar consideramos que aceita o seu uso.
COMPREENDO E ACEITO

 

 

Homilia na Missa das Cinzas - 2026

Em ordem a uma conversão multifacetada

 

O Senhor, nosso Deus, clemente e compassivo, paciente e misericordioso”, como garantia o profeta Joel, concede-nos, mais uma vez, este tempo de conversão e de regresso ao seu amor. Para isto, somos chamados a usar os meios que a nossa Mãe, a Igreja, sempre recomendou: a leitura orante da Palavra de Deus; o recurso ao Sacramento da Penitência/Confissão; a abstinência e o jejum; a solidariedade para com os irmãos, expressa na renúncia quaresmal e no contributo penitencial; algum compromisso em ordem ao silêncio interior, como, por exemplo, o uso regrado das redes sociais e da internet em geral; a instauração de novas relações pacíficas e pacificadoras, mormente a nível da família; e até a valorização de atos da piedade popular, tais como a Via-sacra e a meditação da Paixão do Senhor, etc.

O objetivo é sempre o reencontro com Deus. Ele procura-nos no lugar onde gosta de estar a sós connosco: no nosso íntimo. Mas nós fugimos-Lhe, preocupados, como estamos, com tantas coisas da vida, desde a família ao trabalho, da economia à saúde, do ter ao poder, da diversão com os amigos às férias que se querem gozar, etc. E tudo isso é bom, mas tudo isso pode constituir pretexto para sairmos do centro de nós próprios e nos afastarmos da meta definitiva. Parafraseando as palavras desse grande Santo Agostinho que transcrevi na mensagem quaresmal deste ano, o Senhor está no nosso interior, mas, quais sem-abrigo de nós próprios, como o estamos lá, acabamos por não O encontrar. Daqui a quaresma como regresso a nós mesmos para, no sacrário da consciência, nos depararmos e convivermos com esse Deus que nos espera e só quer o nosso amor, a nossa alegria e a nossa felicidade.

Isto acontece no íntimo de cada um de nós. A conversão é uma atitude pessoal na qual uns não podem substituir os outros. O Senhor Jesus acentua esta dimensão no Evangelho: “Quando jejuares… quando deres esmola, quando rezares, entra no teu quarto, fecha a porta…”. Mas nós somos seres sociais e, ao nível da fé e sua vivência, estamos constituídos em Igreja, em comunidade salvífica, num corpo que tem muitos membros, mas do qual cada um de nós faz parte integrante. O profeta Joel tem isto presente quando prega: “Tocai a trombeta em Sião, ordenai um jejum, proclamai uma reunião sagrada. Reuni o povo, convocai a assembleia, congregai os anciãos, reuni os jovens e as crianças. Por isto, se a conversão diz respeito a cada um de nós, não deixa de possuir implicações sociais e eclesiais. Socialmente, somos chamados a humanizar uma sociedade que corre riscos de frieza de relações e de desconhecer aqueles grandes valores que sempre deram sentido à existência coletiva. Somos chamados a fermentar a realidade e a sermos “sal da terra e luz do mundo”, como o Senhor nos mandou. A nível da Igreja que todos constituímos, também a palavra de ordem é renovação, fidelidade ao Evangelho, correspondência ao que o Senhor Jesus sonhou para ela.

Nesta linha, está em marcha o nosso Sínodo Diocesano. Embora, ainda, na fase preparatória, muitos passos já foram dados e já possuímos uma ideia clara do que se pretende. É nesta linha que, agora, apelo a todos que façamos um duplo processo de conversão: na nossa individualidade, uma forte convivialidade com o nosso Deus; como Igreja, a tarefa de deixarmos hábitos, estruturas e aspirações que já não se enquadram nas expectativas deste tempo, e sejamos doceis à voz do Espírito que nos interpela ao discernimento e à inauguração de novas formas de participação e de ministerialidade. Somos chamados a novas relações no interior da Igreja e a um novo ardor na missão de a todos aproximarmos de Cristo. Uma Igreja não clerical, mas na qual todo o santo povo de Deus assuma a responsabilidade inerente ao seu Batismo e Confirmação. Clero e leigos são chamados a um trabalho conjunto, sinodal, num caminho irreversível de escuta, diálogo e acolhimento, em ordem a uma Igreja mais aberta e participativa. O clero tem de ser menos clerical e os leigos mais eclesiais. Temos de descobrir novas linguagens e ministérios e centrarmos a vivência religiosa numa espiritualidade mais forte e comprometedora. Por tudo isto, o nosso Sínodo constituirá também a face eclesial da conversão de cada um de nós. Ambas urgentes; ambas fundamentais.

Esta quaresma coincidirá, também, com a fase de arranque efetivo das obras de renovação do nosso Seminário de Nossa Senhora da Conceição. Também se trata de uma «conversão»: mais funcionalidade e mais condições para os alunos que o vão habitar, para que também eles sejam formados em novas relações valorizadoras do laicado, dos seus carismas e da sua ministerialidade. Conto com a ajuda efetiva de toda a Diocese, para este empreendimento que é caríssimo, atendendo ao local onde o Seminário está implantado e às consequentes condições técnicas difíceis.

Viveremos esta quaresma, pois, como uma conversão multifacetada. As cinzas que vamos impor nas nossas cabeças são sinais disso mesmo. Como refere a oração de bênção das cinzas, que vou fazer imediatamente, que todos nós, «fiéis à observância quaresmal, mereçamos chegar, de coração purificado, à celebração do mistério pascalde nosso Senhor Jesus Cristo que vive e reina pelos séculos dos séculos».

 

 

+ Manuel Linda 18 de fevereiro de 2026