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Homilia no Domingo de Ramos

Paixão e sinodalidade

 

Começamos esta Eucaristia com uma procissão que nos lembra a caminhada de Jesus desde o “outro lado do Jordão” até à sua entrada triunfal em Jerusalém, tal como descrita por S. Mateus no trecho do Evangelho que escutamos aquando da bênção dos ramos. Não nos é difícil imaginar como aquele grupo que seguia com Jesus, a princípio muito pequeno, começou a engrossar, a tornar-se multidão. O entusiasmo era tão grande que fizeram o que se faz a um rei: um tapete de verduras e colocar as capas no chão para que Jesus passasse em cima delas. Neste clima de euforia, as pessoas deram-se conta de que faltava uma coisa ao Messias: um cavalo para sobressair de entre as muitas pessoas que o acompanhavam triunfalmente. E assim aconteceu: em Betfagé, o proprietário de um jumento emprestou o animal para o serviço de Jesus. Certamente, o próprio dono também se inseriu neste cortejo.

Por aqueles dias, celebrava-se a Páscoa judaica. Milhares e milhares de judeus piedosos, residentes fora da Palestina, acamparam nos arredores da cidade para participarem nas cerimónias do templo de Jerusalém. E ao ver aquela manifestação popular que acompanhava o Profeta da Galileia, diz o Evangelho, “saíram ao seu encontro” (Jo 12, 12). Antes porém, puseram-se a pergunta: "Quem é este?" (Mt 21:10). Certamente a pergunta mais formulada nestes dois mil anos e que ainda hoje inquieta tantos milhões de pessoas. É que, como um dia afirmou S. Paulo VI, “o «mistério de Jesus» perturbou e continua a perturbar os homens, que reagiram e reagem ora com uma recusa preconcebida, ora com uma indiferença apática, ora com a ardente adesão da fé, que envolve e transforma a pessoa por completo”. Por isso, é provável que nem todos tenham ido ao encontro de Jesus. Particularmente, os habitantes de Jerusalém, esses que, como diz o povo, «tinham o rei na barriga», pois eram eles quem formava a cidade santa, os que não precisavam de mais nada.

É aí que as águas se começam a separar. O povo simples, reconhece em Jesus o Enviado de Deus, o único Salvador do mundo. Porém, os líderes desse povo esforçam-se por passar a imagem de um charlatão, um falso profeta e uma ameaça à tradição do poder dos grandes e da obediência dos pobres. Os acompanhantes de Jesus insistem na sua entrada triunfal em Jerusalém, como verdadeiro Messias e Rei; os opositores teimam em fazer esquecer tudo, começam a pensar na sua morte e, porventura, na morte daqueles que proclamavam: “Hossana ao Filho de David! Bendito o que vem em nome do Senhor! Hossana nas alturas!” (Mt 21, 9). Cumprem-se, assim, as palavras do velho Simeão, proferidas precisamente naquele lugar, quando Jesus foi apresentado no templo, logo após o seu nascimento: “Este menino vai ser motivo de queda e ressurgimento de muitos em Israel e sinal de contradição” (Lc 2, 34).

Sinal de contradição”. Infelizmente, a relação com Cristo divide. No passado e no presente. A humanidade continua dividida entre os opositores declarados a Jesus, os muitos indiferentes e os que aderimos à sua Pessoa e mensagem. O que demonstra que a união de todos à volta de Cristo, fazer d’Ele o centro da humanidade, o polo aglutinador, ainda está muito longe. O que não é de admirar, pois a fé é sempre um ato voluntário de assentimento, de confiança, de amor. Porém, o mais espantoso é que, mesmo entre os que invocamos o seu Nome e gostaríamos que todos O conhecessem e O amassem, parece reinar mais o individualismo e o isolamento do que o gosto de nos juntarmos aos irmãos e com eles celebrar a festa da união em Cristo, a alegria da cooperação, a vivência da fraternidade eclesial e o serviço da caridade na Igreja.

A nossa Diocese do Porto entrou em Sínodo. No dia de Pentecostes faremos a sua abertura oficial e anunciar-se-á o calendário. Mas este dia de Ramos e da Paixão já nos encaminha para o Sínodo. Como sabemos, Sínodo quer dizer «caminhada em conjunto». A entrada triunfal de Jesus em Jerusalém, por natureza, já é uma caminhada sinodal porque não se trata de um mero passeio, mas da expressão de profundas raízes de fé e espiritualidade, uma antevisão do que é ser Igreja na identificação com Cristo Salvador. É esta tomada de consciência e suas implicações práticas que procuraremos atingir com o Sínodo. Conto com a cooperação de todos. Sublinho a participação dos jovens, sempre tão entusiasmados com as grandes causas do Evangelho e da fraternidade: precisamos muito de vós. Não negueis esta colaboração à Igreja diocesana, vossa e nossa mãe.

Que esta celebração da Paixão nos conduza a uma sempre maior união com o Senhor e nos abra o coração ao mistério central da nossa fé: os aleluias da Ressurreição.

 

 

+ Manuel Linda 29 de março de 2026