No final da procissão do Corpo de Deus - 2026
O coração vivo da “civilização de amor”
1. A procissão do Corpo de Deus é sinal de uma Igreja que se alimenta da Eucaristia e leva muito a sério as consequências da frase de Jesus, hoje escutada no Evangelho: “Aquele que Me comunga viverá por Mim”. Viver por Jesus é fazer os gestos que Ele fez, ter as atitudes que Ele teve, viver os valores que Ele viveu. É ser, hoje, Salvador do mundo. Levar a Eucaristia pelas ruas da nossa cidade do Porto, não é, portanto, um rito folclórico, mas um anúncio público de que Deus caminha ao lado das pessoas, nas suas alegrias e lutas da vida diária. Fazemos a procissão como serviço de caridade social: somos impelidos a tornarmo-nos "próximos" de todos, especialmente dos que sofrem, dos velhinhos desamparados, dos não produtivos desprezados, dos frágeis desprotegidos, dos jovens abandonados à sua sorte, de tanta gente explorada e espezinhada. E impede-nos de nos alimentarmos de individualismos e indiferenças, de ódios e divisões, de vinganças e maledicências, de materialismos e ganâncias.
2. A Eucaristia é o pão dos peregrinos, porque não nos afasta do mundo, mas a ele nos envia como operadores, para o transformar. É expressão da sinodalidade, tema muito atual para nós, pois nos encontramos em pleno Sínodo Diocesano. Ora, asinodalidade concretiza-se quando a comunidade sai dos muros da Igreja para ir ao encontro das necessidades dos mais vulneráveis. A Igreja não é uma fortaleza estática, mas um povo em peregrinação. Um povo que não deixa ninguém para trás: tal como na procissão, o nosso objetivo é caminharmos ao mesmo ritmo, numa escuta mútua e especial atenção aos mais humildes e frágeis. Desta forma, o Mistério que adoramos é a nossa bússola. Levar este Pão Vivo em procissão é assumir o compromisso de sermos canais do Seu amor, da Sua paz e da Sua caridade.
3. Este Pão do Céu que alimenta a vida humana onde se enraíza a divina, recorda-noso forte apelo que o Papa Leão XIV nos dirigiu na sua recente encíclica, convidando a “Magnífica humanidade” a defender a beleza e a sacralidade da nossa espécie, promovendo a verdade, a dignidade do trabalho, a justiça social e a paz. Na era digital, é preciso desarmar a IA e superar a teoria da “guerra justa”, relançando o diálogo e o multilateralismo. Diante da vertigem de uma sociedade cada vez mais virtual, o Santo Padre exorta-nos a não edificar uma “nova torre de Babel” tecnológica, muito menos, de lhe confiar o discernimento ético, mas a preservar o primado da pessoa num mundo hiperconectado que tende a desencarnar as relações. Na era do digital, do metaverso e dos ecrãs, corremos o risco de reduzir o ser humano a um espirito desencarnado ou a um fluxo de dados e algoritmos.
4. O Corpo de Cristo que adoramos é o coração vivo da “civilização de amor” que somos chamados a construir. Diante do Senhor presente na hóstia consagrada, contemplamos a dignidade absoluta de cada ser humano que temos o dever deproteger. Fazemo-lo com a lucidez crítica de quem reconhece os grandes desafios atuais - a injustiça, a guerra, a solidão, as desigualdades, a urgência da verdade, a premência da ética e do acolhimento digno -, mas também com a esperança ativa de quem se sabe sustentado pela Graça de Deus e fortalecido pela imensidão daquelesque promovem o bem. E são muitos!
5. Agradecimento.
6. Caras amigas e caros amigos, caminhemos nas sendas do mundo, alimentados por este pão que dá a vida e vida de qualidade. Caminhemos sinodalmente, isto é, lado a lado com os irmãos, escutando-nos uns aos outros, discernindo o que nos convém ou não, na direção de metas verdadeiramente humanas. Ele está connosco e garante-nos a alegria de uma bela peregrinação existencial. Que Ele a todos abençoe.
+ Manuel Linda 4 de junho de 2026