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COMPREENDO E ACEITO

 

Solenidade de Cristo Rei – 2022

“Salva-te a ti mesmo”

 

Atingimos a plenitude do ano litúrgico e professamos convictamente que somente Jesus Cristo é verdadeiro Rei do universo. Para o celebrar, curiosamente, a liturgia não se socorre de um qualquer texto evangélico empolgante ou de relatos de aclamações e hossanas, mas usa a conhecida discrição da cena do Calvário e da contraditória reação dos presentes perante o que estava a acontecer.

Junto à cruz desenrola-se o que se viria a tornar como que a grande metáfora do mundo perante o Crucificado. O grupo mais ruidoso é constituído pelos chefes do povo que pediram e obtiveram a sua condenação, pelos soldados romanos e pelo ladrão que entra no mesmo coro. Todos se escudam por detrás do cinismo para lançar provocações. Como não suportam o Salvador, também não querem a salvação que Ele dá. Por isso, não imploram por si e suas necessidades, mas apenas insultam: “Salva-te a ti mesmo!”.

Na atitude contrária, encontramos o pequeno grupo dos fiéis e o dito bom ladrão: a Mãe de Jesus, São João e algumas mulheres que O tinham acompanhado e servido desde o início do anúncio do Reino. Nestas pessoas, há silêncio contemplativo e proximidade afetiva. E pedidos de salvação, como tão bem exprime aquele que tinha sido crucificado com Jesus: “Lembra-te de mim quando entrares no teu Reino”. E são estes que se tornam a nova família de Jesus, pois Maria foi dada como mãe da humanidade e João encarregado de A tratar como se cuida de uma mãe. E obtêm a certeza de que o Reino é para aqueles que confiam em Jesus: “Hoje mesmo estarás comigo no Paraíso”.

Mas há um terceiro e mais numeroso grupo: o povo. Dele não se diz mais nada senão que “observava de longe”. O que é muito típico dele: antes de tomar posição, gosta de ver as razões, julga-las e decidir-se ou não por elas. É verdade que, ao longo da vida pública de Jesus, esse povo já tinha presenciado momentos empolgantes e factos de espantar. E já O tinha aclamado na entrada triunfal em Jerusalém. Mas no Calvário, os acontecimentos são de outra ordem. Por isso, mantém-se à distância e observa.

Claro que não vou perguntar em qual grupo nos situamos nós. É suposto que nos queiramos no dos amigos de Jesus, tornado coeso à volta da Sua Mãe. Mas isto não basta: é preciso que a multidão que observa de longe possa fazer uma opção. Ora, como Cristo se encontra imobilizado e despojado de tudo, até da sua dignidade humana, a mediação entre Ele e o povo exige esses intermediários que evangelizam pela forma como se aproximam e não O abandonam. São eles, verdadeira imagem da Igreja, quem faz a ponte entre o Salvador e o carente da salvação, já que compartilham a mesma natureza humana do povo, compreendem as suas interrogações e dificuldades de entendimento e aspiram à união com o divino. São eles quem usa a chave da cruz para abrir as portas do Reino.

É isto que vos peço, caros jovens. Hoje, tal como ao longo de toda a história, muitos não procuram a salvação que liberta, mas pensam construi-la pelas suas próprias mãos. Por isso, tal como o grupo de provocadores que estava no Calvário, perante o Salvador, desdenham sarcasticamente: “Salva-te a ti mesmo!”. Entretanto, quando se dão conta de que, objetivamente, não nos podemos salvar porque nem sequer temos poder sobre a própria vida, aí as coisas mudam de figura e é frequente abrirem-se os olhos para a radicalidade da existência e procurar no Mistério do Amor Transcendente a salvação reclamada pela própria condição humana.

O mesmo se diga a respeito daqueles que observam de longe. Se fixam a sua atenção em algo que contemplam, é sinal de que isso os inquieta, questiona, angustia. É sinal de que sentem um vazio ou aridez que precisa de ser preenchido com ternura, sentido, segurança, plenitude. Não procuram ideias, demonstrações, raciocínios irrefutáveis. Procuram uma Pessoa que nunca os abandone, que saiba perdoar quando isso é preciso e gerar alegria quando as atitudes são dignas de parabéns. Enfim, alguém que transcenda os nossos humores de ânimo e desânimo, de sonho e desalento. E essa Pessoa só pode ser o Senhor Jesus Cristo, verdadeiro Deus da plenitude da graça e verdadeiro homem que conhece a nossa natureza até ao fundo.

Jovens, a vós se deve o histórico êxito da forma como, no passado mês de outubro, a nossa Diocese acolheu os símbolos da Jornada Mundial da Juventude. Pois bem: é necessário que agora partam ao encontro dos vossos colegas e de todos os homens e mulheres que vivem na área desta nossa Diocese do Porto para os incentivardes à inscrição, os motivardes para os dias da Diocese, fomentardes o acolhimento de outros jovens estrangeiros, cultivardes o voluntariado e até, porventura, partilhardes com os mais pobre e de longe alguns dos vossos poucos recursos económicos.

Na mensagem que nos dirigiu para este Dia da Juventude, o Papa Francisco usou uma bela imagem, como é típico dele: a casa e o sol. Diz ele que, para sentir todo o poder do sol, deixar-se acariciar por ele, beneficiar do seu influxo benéfico, é preciso sair de casa para o exterior. É preciso que a pessoa se mova do espaço fechado para o grande mundo. E que é que vos move? O mundo tem muito a agradecer-vos, pois quase sempre estais na linha da frente das grandes movimentações históricas: a salvaguarda do criado ou preocupação ecológica, a paz, a cooperação, o desenvolvimento integral, etc. Mas não esqueçais: o motor que impulsiona é mais determinante do que aos âmbitos aos quais se procura acudir. E o motor chama-se Jesus Cristo. É Ele o sol que obriga a reequacionar a pergunta: movem-me causas materiais ou movem-me pessoas? A resposta não tarda: move-me a Pessoa amorosa do Pai do Céu e as pessoas dos irmãos cá da terra.

Foi o que fez Maria, a quem vos confio: o Jesus que começou a viver no seu seio é que fez com que se levantasse “apressadamente” e partisse para as montanhas da Judeia para que se cumprisse a vontade de Deus revelada pelos Profetas e para ir ao encontro dos irmãos, ali representados em Isabel, Zacarias, João Batista e outros. Que esta partida da jovem Senhora gere em nós a vontade de assim procedermos, condição para um novo começo ou nova etapa da Igreja: a de fazer dela, de todos nós que a constituímos, cristãos convictos e dinâmicos, evangelizadores destemidos, irmãos que, sinodalmente, vivem a dinâmica do compromisso, pois sabem que o que é de todos diz respeito a todos.

 

 

 

Manuel Linda, Bispo do Porto 20 de novembro de 2022