Na intervenção que efetuou no encontro com os sacerdotes e diáconos na Casa de Vilar, em 28 de abril de 2026, o Cardeal Mário Grech, secretário geral do Sínodo dos Bispos propôs caminhos de renovamento pastoral das igrejas locais na esteira do Sínodo (de 2021-2014).
Em primeiro lugar acentuou que devem ser as igrejas locais as protagonistas da fase de atualização das propostas do Sínodo, lembrando que devem tornar-se espaços de aplicação das propostas sinodais, como primeiro e fundamental nível para o exercício da sinodalidade, salientando que o próprio Papa Francisco fez notar que o Sínodo não foi celebrado apenas em Roma, mas se expressou também e todas as dioceses do mundo, embora com intensidades diversas, apelando ao acolhimento pelas igrejas locais de todo o espírito sinodal, salientado o facto de o papa Francisco não lançou nenhum documento próprio, considerando que o Documento Final deve tornar-se ponto de desenvolvimento da missão eclesial da evangelização, afirmando que cada Igreja local deve agora interrogar-se sobre os caminhos do renovamento pastoral que o Sínodo a impulsiona a pôr em prática.
Defendeu a realização progressiva de uma passagem da centralidade da estrutura a uma centralidade da relação, o que exige uma transformação e aperfeiçoamento do estilo, passando de uma pastoral da organização para uma pastoral do acolhimento, citando o Papa Francisco ao afirmar que “uma Igreja sinodal é uma Igreja da escuta”, na procura de ler sempre o que o Espírito Santo diz à Igreja. O Sínodo exorta não apenas a valorizar os ministérios já existentes, mas a procurar que outros ministérios possam ser introduzidos para responder às exigências de cada Igreja local. Apela também à revitalização dos organismos diocesanos de participação, citando o n.º 103 do Documento final: “A participação dos Batizados nos processos de decisão, bem como as práticas de prestação de contas e avaliação, realizam-se através de mediações institucionais, antes de mais os organismos de participação que, a nível da Igreja local, o direito canónico já prevê”, lembrando o Sínodo diocesano, os conselhos presbiteral e pastoral, e os conselhos paroquiais.
Sinodalidade e missão
Apela ainda a modelos de liderança capazes de promover a cooperação entre todos, por uma colaboração articulada entre eles, desenvolvendo a transparência, a responsabilidade e a prestação de contas, isto é a sinodalidade.
Propõe depois a recuperação do modelo de “uma Igreja em saída”, para ir ao encontro do mundo e da sociedade, promovendo formas de “caminhar em conjunto”, lembrando que a sinodalidade se orienta para a missão, tarefa constante da Igreja, lembrando que as estruturas da Igreja devem valorizar uma “pastoral do ambiente”, valorizando os locais de trabalho, a atenção ao mundo digital, ao mundo das associações de empenho social, a colaboração com outras comunidades cristãs, o bem comum, a justiça social, a integração étnica, o respeito pela diversidade e pela ecologia integral.
Finalmente, referia duas dimensões como “instrumentos para o futuro”: a formação e o discernimento, nas palavras do Documento final (n. 143): que a formação seja integral, contínua e partilhada. A finalidade não deve se a aquisição de competências teóricas, mas a criação da capacidade de abertura e encontro, de partilha e colaboração, de reflexão e discernimento comum e de leitura teológica das experiências concretas.
Numa segunda intervenção, o Cardeal falava das dificuldades e oportunidades da realização concreta do caminho sinodal, distinguindo as dificuldades dos sacerdotes na adaptação às novas exigências. Analisou uma primeira dificuldade de ordem prática, a adaptação às novas situações da vida laboral e social, a promoção e valorização de novas iniciativas que vão de encontro às necessidades do povo de Deus.
Uma segunda dificuldade relaciona-se com as escolhas pastorais de alguns bispos para desenvolver o caminho sinodal na própria diocese. Referiu que muitos bispos se tornaram promotores entusiastas das propostas do caminho sinodal, mas a realização concreta desse espírito encontrou muitas dificuldades, lembrando que a aplicação das propostas implica o protagonismo de cada um na sua realização.
Refere a ideia do papa Francisco de que um obstáculo à missão é o clericalismo, que se encontra também nos leigos.
Cultura da sinodalidade
A sua proposta final acentuava a necessidade de uma cultura da sinodalidade, recorrendo de novo ao Documento final, em que se afirma: “A experiência do Sínodo pode ajudar Bispos, Presbíteros e Diáconos a redescobrir a corresponsabilidade no exercício do ministério, que exige também a colaboração com os outros membros do Povo de Deus. Uma distribuição mais articulada das tarefas e das responsabilidades, um discernimento mais corajoso daquilo que pertence propriamente ao ministério ordenado e daquilo que pode e deve ser delegado a outros, favorecerá o seu exercício de modo espiritualmente mais sadio e pastoralmente mais dinâmico em cada uma das suas ordens”, ajudando também “a superar o clericalismo, entendido como uso do poder em benefício próprio e distorção da autoridade da Igreja que está ao serviço do Povo de Deus”, lembrando que “O clericalismo, fomentado tanto pelos próprios Sacerdotes como pelos Leigos, gera uma cisão no Corpo eclesial que fomenta e ajuda a perpetuar muitos dos males que hoje” (n. 74).
Uma recomendação final acentuava a proposta de “uma Igreja em saída” ao encontro da sociedade, na edificação do bem comum, e sugerindo a formação e o discernimento como instrumentos para o futuro.
Propostas de sinodalidade
Na sequência desta conferência, João Paiva, Professor da Faculdade de Ciências da Universidade do Porto, refletia também sobre o sentido da sinodalidade, propondo a passagem da dimensão institucional ao desenvolvimento de uma capacidade de escutar , propondo reflexões sobre dados concretos, como uma mística do silêncio e da oração, uma busca do equilíbrio corporal, a criação de relações saudáveis na conflitualidade (que considerou poder tornar-se fonte de ovas energias), a possibilidade de uma intervenção política superadora do populismo, acentuando também o tratamento equilibrado do tema da sexualidade. Salientou igualmente o papel da mulher na Igreja, apelando à capacidade de uma liderança feminina valorizadora da ação pastoral. Lançou uma proposta global: burilar o dizer, o fazer, o ser.