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Oliveira de Azeméis. Visita Pastoral: retrato de uma comunidade viva


Durante seis dias, a Paróquia de Oliveira de Azeméis foi palco de uma intensa vivência pastoral, com a presença de D. Manuel Linda, no dia 24 de março, e de D. Roberto Mariz, de 25 a 29 de março. A visita pastoral permitiu um contacto direto e próximo com a realidade local, através de visitas a diversas instituições sociais, empresas, estabelecimentos de ensino, corporações de bombeiros e entidades autárquicas.

 

Autarquia e Igreja lado a lado

 

A visita à Câmara Municipal, onde Rui Luzes Cabral, vice-presidente do executivo, traçou o retrato de um concelho com 67 mil habitantes, 19 freguesias, cerca de 30 IPSS, perto de 150 associações e uma base industrial forte no calçado, nos moldes e na metalomecânica. D. Manuel Linda agradeceu a receção e defendeu que o bem comum, neste momento, passa por construir a paz. Pediu ainda que as críticas nas redes sociais não travem a vontade de fazer bem.

 

Na sua intervenção, D. Manuel Linda sublinhou que a relação entre a Igreja e o poder local deve assentar numa preocupação partilhada com as pessoas e com as suas necessidades concretas. Evocando a máxima da tradição cristã “Sou homem, tudo o que é humano me diz respeito”. O Bispo do Porto destacou que a Igreja não se afasta das realidades social, cultural, educativa ou assistencial, nem da esfera sociopolítica, entendendo que é precisamente nessa ligação que se fortalece a promoção do bem comum.

 

Na Junta de Freguesia, o tom foi semelhante. D. Manuel Linda elogiou uma junta de portas abertas e insistiu que a política local só faz sentido quando chega às pessoas. Fátima Ferreira, presidente da União de Freguesias, mostrou as instalações renovadas, com auditório para 150 pessoas, e explicou que a ação social é feita em articulação com as conferências vicentinas, por entender que não vale a pena criar novos recursos quando já existe gente no terreno com conhecimento direto das famílias.

 

Nos bombeiros, o reconhecimento de quem lida com o pior

 

Nos Bombeiros Voluntários de Oliveira de Azeméis, D. Manuel Linda deixou uma das mensagens mais marcantes da visita. Perante o comando e os operacionais, afirmou que lidam diariamente com “o mal puro”: vítimas encarceradas, suicidas, incêndios, sofrimento extremo. Não se limitou a elogiar a prontidão. Preferiu falar do peso que essa exposição contínua ao trauma que deixa em quem socorre. Evocou os 120 anos da corporação, lembrou a perda de vidas há duas décadas num acidente de viação e um caso recente de queimaduras graves no combate às chamas, e defendeu, implicitamente, que é preciso apoio psicológico para quem está na linha da frente. Alargou o reconhecimento às famílias dos operacionais, que também vivem a angústia quando há acidentes. E contrapôs ao individualismo crescente o exemplo de quem põe o seu tempo e o seu risco ao serviço dos outros.

 

Misericórdia de Oliveira de Azeméis bispo apela a um cuidado mais humano

 

Na visita à Santa Casa da Misericórdia de Oliveira de Azeméis, D. Manuel Linda destacou a importância do cuidado aos idosos, agradecendo o trabalho dos profissionais e sublinhando o papel da instituição no combate ao isolamento.

 

O Bispo do Porto defendeu que o apoio aos mais frágeis deve aliar competência técnica a proximidade humana, sintetizando a mensagem no apelo: “mais coração nessas mãos”. Salientou ainda a dignidade da velhice e a necessidade de valorizar a vida, mesmo em contextos de maior fragilidade.

 

A visita reforçou o papel da Misericórdia como resposta essencial no acompanhamento da população idosa, assente não só em serviços, mas também em atenção, respeito e afeto.

 

Unidade de Geriatria reforça dignidade no envelhecimento em Oliveira de Azeméis

 

Na visita ao Hospital de S. Miguel, D. Manuel Linda destacou a Unidade de Geriatria como resposta clínica e humana para uma população envelhecida, alertando para a realidade de idosos sem retaguarda familiar. Com 39 camas e mais de 1.200 internamentos anuais, a unidade aposta numa abordagem multidisciplinar centrada na autonomia, qualidade de vida e prevenção da institucionalização.

 

Mais do que tratar a doença, a equipa procura preservar capacidades e evitar o agravamento funcional dos doentes. O bispo sublinhou a importância de respeitar a vontade dos idosos, lembrando que, apesar das melhores condições, as instituições “não são o seu meio natural”.

 

A resposta inclui também o envolvimento das famílias e projetos inovadores com lares, procurando reduzir internamentos e garantir acompanhamento mais próximo. O modelo, assente na articulação entre cuidados de saúde e dimensão humana, afirma-se como uma resposta diferenciada num território onde envelhecer com dignidade continua a ser um desafio.

 

Assembleia paroquial revela realidade e desafios da paróquia

 

Depois da celebração da Eucarístia na igreja matriz, seguiu-se assembleia paroquial no salão paroquial. A paróquia de São Miguel tem cerca de 12 mil habitantes, 430 crianças na catequese do 1.º ao 6.º ano e 140 do 7.º ao 11.º. O setor litúrgico mobiliza mais de 200 leigos em sete grupos. O Centro Social Paroquial, fundado como IPSS em 1985, assegura ERPI com 40 idosos e creche com 32 crianças, além de apoio alimentar: só em 2025, forneceu 1.460 refeições. Uma parceria com o “Lidl”, no programa “Zero Desperdício”, representou donativos avaliados em quase 21 mil euros. Mas os sinais de desgaste estão lá: faltam catequistas, o pós-crisma perde gente, os alunos da escola de música diminuíram, a confraria tem dificuldade em recrutar novos confrades. D. Manuel Linda, na resposta final da assembleia, falou numa paróquia viva e sublinhou que não é de pé para a mão que se constrói uma realidade assim.

 

De Vilar a La Salette: entre a capela e o santuário

 

O segundo dia da visita arrancou na Capela de São Lourenço, no lugar de Vilar. D. Roberto Mariz transformou a receção numa breve catequese sobre o santo padroeiro, evocando a tradição segundo a qual o diácono romano, perseguido por causa da fé, apresentou os pobres como verdadeiro património da Igreja. A riqueza da Igreja não está nas pedras nem no ouro, mas nas pessoas mais frágeis, disse o bispo auxiliar, num tom que cruzou devoção e responsabilidade social.

 

Instituições sociais: muito trabalho, poucos meios

 

As instituições sociais foram uma das linhas mais fortes da visita. Na CERCIAZ, o bispo auxiliar encontrou uma casa pressionada pela falta de financiamento. Um projeto residencial aprovado pela Segurança Social acabou por cair porque a subida dos custos tornou a obra incomportável. A instituição tem neste momento uma sala pronta para abrir na área do ensino especial, com cinco alunos encaminhados e auxiliar, mas sem professora disponível. Mesmo assim, continua a funcionar: nas salas, jovens com necessidades complexas montam molas, embalam materiais e fazem tarefas adaptadas em parceria com fábricas da região. Uma responsável contou a D. Roberto Mariz que, perante episódios de agressividade, responde com contenção e palavras de afeto. Eles querem é trabalhar, resumiu.

 

No Centro de Apoio Familiar Pinto de Carvalho, a realidade era igualmente densa. Todas as 30 vagas de acolhimento residencial estão ocupadas. A casa emprega cerca de 80 trabalhadores e assegura creche, pré-escolar, ATL, apartamento de autonomização e CAFAP, num universo de duas centenas de crianças. D. Roberto Mariz elogiou a forma como a instituição se adaptou ao novo paradigma do acolhimento, sem ficar apenas na crítica ou na resistência à mudança. Reconheceu também as dificuldades: o licenciamento do apartamento de autonomização arrasta-se há sete anos.

 

Centro Social e Paroquial S. Miguel

 

No Centro Social e Paroquial S. Miguel nas duas respostas sociais Lar e Creche, a visita foi mais serena. D. Roberto Mariz começou por celebrar a Eucaristia para os utentes e percorreu depois os vários espaços, dos quartos dos idosos às salas da creche. Falou com utentes e trabalhadoras, interessou-se pelo estado de saúde de residentes e deixou palavras simples de reconhecimento. A passagem pela creche serviu para sublinhar a responsabilidade de quem recebe crianças logo depois dos quatro meses de vida e para ligar a primeira infância e a velhice numa mesma cultura de cuidado.

 

Nas escolas, aviso contra o bullying e a “bulimia digital”

 

D. Roberto Mariz dedicou um dia inteiro ao meio escolar, assumindo aulas de Educação Moral e Religiosa Católica no Agrupamento de Escola Secundária Soares Basto, de manhã, e na Escola Secundária Ferreira de Castro, à tarde. As mensagens foram diretas. A escola não pode ser um lugar atravessado pela violência ou pela exclusão. Quem tem mais dificuldades não deve ser espezinhado, mas antes acompanhado. Sobre o digital, recuperou a expressão usada pelo Papa Francisco no Jubileu da Juventude “bulimia digital” para descrever o risco de uma utilização doentia da tecnologia, capaz de cortar relações presenciais, empobrecer a convivência e servir para difamar. A tecnologia, disse, é uma ferramenta importante, mas não pode substituir a relação humana.

 

Saúde, indústria e desporto: três rostos de Oliveira de Azeméis

 

Na Escola Superior de Saúde Norte da Cruz Vermelha Portuguesa, D. Roberto Mariz ficou impressionado com as salas de simulação clínica, equipadas com manequins e sensores de topo mundial. A mensagem que deixou condensou-se numa fórmula: cuidar sempre, curar sempre que possível. Valorizou a presença de ensino superior no concelho como fator de fixação de competência e de desenvolvimento local.

 

Na AZEMAD, o bispo contactou com uma empresa que nasceu há 60 anos como “Arte em Madeira”, enveredou pelo hóquei em patins a partir de 2005 e está agora a apostar em economia circular. A cadeira “ASTA”, desenhada pela arquiteta Ana Isabel Costa e Silva a partir de sticks partidos, foi o símbolo mais visível dessa transição: transformar desperdício em matéria útil, cruzando indústria, design e sustentabilidade.

 

Na União Desportiva Oliveirense, a visita coincidiu com os 40 anos do Pavilhão Dr. Salvador Machado. D. Roberto Mariz organizou a sua mensagem em três ideias: união, esforço e relação com a derrota. Ninguém nasce campeão, disse. Perder faz parte, cair também, mas o que conta é levantar-se e continuar.

 

Na rádio, memória de Manuel Paiva e defesa da fé sem proselitismo

 

A passagem pelos estúdios do grupo Correio de Azeméis transformou-se numa homenagem a Manuel Paiva, fundador do programa “Nova Dimensão” há quatro décadas. Eduardo Costa, diretor do grupo, recordou-o como homem de fé que percorria paróquias com técnicos e equipamentos pesados para transmitir a Eucaristia dominical. D. Roberto Mariz associou-se à homenagem e enquadrou o fundador como alguém marcado pela paixão por Cristo e pelo impulso do Concílio Vaticano II.

 

Na entrevista à Azeméis TV, para o mesmo programa, o bispo auxiliar foi mais longe. Defendeu que a rádio não foi ultrapassada pelo digital, criticou a ditadura dos números na vida eclesial, pediu uma Igreja mais aberta e acolhedora, e insistiu que comunicar a fé não exige proselitismo, mas sim paixão, atração e verdade. Sobre a pandemia, reconheceu efeitos brutais na vida das comunidades, mas recusou leituras simplistas: houve de tudo, disse, entre quem retomou a prática com entusiasmo e quem ainda não regressou.

 

Via Sacra e Eucaristia no Parque de La Salette

 

No Parque de La Salette, a Via Sacra terminou com a celebração da Eucaristia no santuário. D. Roberto Mariz ligou o percurso de oração ao sacramento, dizendo que a segunda parte da Via Sacra era a própria Eucaristia. No final, a mensagem foi simples: a fé não se vive sozinho e a cruz só faz sentido quando é carregada em comunhão com os outros.

 

Bênção de casais

 

No sábado, a Igreja Matriz acolheu a bênção de casais. Numa igreja repleta, estiveram presentes casais com percursos entre os 5 e os 61 anos de vida em comum, com uma média de 37 anos de casamento. Dois testemunhos marcaram a manhã: um casal com cinquenta anos de matrimónio falou de crises no matrimónio, afastamento da Igreja e reencontro com a fé, resumindo tudo numa frase: o amor exige perdão. Um casal mais jovem falou da dificuldade de conciliar trabalho, filhos e vida cristã, assumindo uma fase de maior distância em relação à Igreja. D. Roberto Mariz acolheu essa exposição e a bênção surgiu menos como gesto formal e mais como sinal de acompanhamento.

 

Recriação da entrada triunfal de Jesus em Jerusalém e celebração do Crisma

 

O domingo, ponto alto da visita pastoral, coroou uma comunidade viva e vivificante. A recriação lúdica da entrada triunfal de Jesus em Jerusalém mobilizou várias centenas de pessoas, figurantes, crianças, escolas de dança e de teatro, jovens e adultos e transformou a igreja, já monumental, num espaço ainda mais acolhedor e humano. Neste cenário de festa e devoção, celebrou-se a eucaristia com o Crisma de 23 jovens da catequese e 9 adultos da catequese de adultos, num momento de fé que uniu gerações e expressou, de forma intensa e colorida, a vitalidade e o compromisso de toda a paróquia.

 

Palavra do pároco

 

Padre José Manuel da Costa Lima, pároco de Oliveira de Azeméis, em jeito de agradecimento e avaliação, referiu que, ao longo de dias intensos, a visita pastoral percorreu cada recanto de Oliveira de Azeméis, das instituições à casa dos doentes, das celebrações da fé aos convívios à mesa, das. O que ficou foi o retrato de uma comunidade que se mostra inteira: com força e fragilidade, com presença e ausência, com obras concluídas e sonhos por concretizar, com fé vivida e dúvidas assumidas. A paróquia de Oliveira de Azeméis não se vestiu de idealizações; revelou-se na sua autenticidade. E é justamente essa coragem de se mostrar como é que fez desta visita pastoral um encontro memorável, onde a vida, com todas as suas cores e contrastes, se fez sentir plenamente.