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Sínodo. Cónego Joaquim Santos: relatório diocesano deu “voz às pessoas” e “criou uma expectativa”


A consulta diocesana para o Sínodo iniciado pelo Papa Francisco foi “gerando dinâmicas sinodais nas comunidades”, refere o coordenador desse trabalho. E faz um apelo: “Voltem, por favor, à Assembleia Pré-sinodal” de maio de 2022. Fazer memória é um primeiro exercício para o Sínodo Diocesano do Porto.

 

 

As mais recentes indicações apresentadas pelo Vaticano, através da Secretaria Geral do Sínodo, para a fase de implementação sinodal que está a decorrer em todo o mundo, sublinham quatro dimensões: fazer memória, interpretar, orientar e celebrar.

 

Tomando como prioridade a necessidade de iniciar o caminho sinodal na diocese do Porto a partir das experiências já percorridas, a entrevista que aqui apresentamos tem esse objetivo: escutar o trabalho desenvolvido pela Comissão Sinodal do Porto entre 2021 e 2025 no âmbito do Sínodo sobre a sinodalidade, através do testemunho do seu coordenador.

 

O cónego Joaquim Santos liderou a equipa que apresentou o relatório sinodal diocesano de junho de 2022 e responde às questões de Voz Portucalense.

 

P: Como foi dinamizar a consulta diocesana para o Sínodo iniciado pelo Papa Francisco em outubro de 2021?

 

R: Primeiro que tudo foi um desafio. E um desafio que foi crescendo, porque entre o convite para dinamizar a consulta para o Sínodo que aconteceu antes do verão de 2021, e depois o início da consulta propriamente dita, fomos percebendo que não se tratava apenas de fazer uma consulta como outras, mas de gerar dinâmicas, fazer a consulta gerando dinâmicas sinodais nas comunidades. E isso é toda uma outra coisa que não conhecíamos, que não sabíamos, e que foi desafiante.

 

E também foi muito compensador depois ver como isso em muitas comunidades gerou de facto encontro, diálogo, oração, participação, e noutras não. E mesmo até em algumas em que não aconteceu, mas que tentaram e que não conseguiram, também aconteceu isso. Também isso acabou por ser positivo, porque serviu de diagnóstico a uma dificuldade, a esta dificuldade de nos sentarmos e juntos pensarmos sobre um tema, sobre a Igreja, sobre a vida da Igreja, partilharmos, rezarmos juntos o tema. Portanto, essa dificuldade é real.

 

P: Nesse trabalho de dinamização que tipo de atitudes encontraram nas comunidades e paróquias e na equipa que liderou?

 

R: Na receção da proposta do Sínodo encontramos assim duas atitudes fortes. Uma, um desejo grande de participar e uma gratidão depois muito grande por ter acontecido. Mais tarde fomos colher também essa gratidão por ter acontecido. Como nota muito positiva de todo o processo sinodal, ficou essa possibilidade de participar, de ser ouvido, de sentir que temos aqui um canal que leva a nossa voz, a nossa palavra por aí fora, até ao Papa. Quer dizer, vai por aí fora.

 

Encontramos também algumas pessoas que ficaram um bocado, um tanto, perplexas com isso. “A Igreja diz, nós vivemos, não temos que… Porque é que havemos de fazer um problema, porque é que havemos agora de pôr coisas em questão? Portanto, não precisamos disso. Quer dizer, não faz grande falta. Estamos a trabalhar, está a funcionar.” São pessoas até muito ligadas à vida eclesial. E se calhar algumas paróquias, por exemplo, podem não ter arrancado, e muitas paróquias não arrancaram. Aqui na diocese do Porto conseguimos recolher respostas de 190 e qualquer coisa paróquias. E se calhar muitas das paróquias não arrancaram exactamente por isso. Porque não perceberam imediatamente o valor desta oportunidade. Talvez seja esse o nó do problema. De algum modo, o lugar fundamental de um sínodo seja perceber o valor da participação, o valor de sermos ouvidos, de podermos falar, de pensarmos juntos, de ouvirmos os outros, com muita liberdade, de ouvirmos aqueles que pensam diferente, que é uma coisa que nos custa, não é? Toda a gente gosta de discutir estes temas, mas depois ouvir argumentos em contrário às vezes custa um bocadinho. Essa humildade.

 

Mas é verdade que muitas pessoas ficaram muito gratas por essa oportunidade, por este exercício. Foi todo um trabalho de equipa, desde o início. Desde perceber como íamos fazer a consulta, que ferramentas íamos usar. Porque fizemos a consulta através das paróquias, mas também abrimos a escuta às pessoas individuais que quisessem participar anonimamente numa plataforma digital.

 

E, portanto, todo esse processo foi um trabalho de equipa. Como foi depois a leitura das respostas, foi também um trabalho de equipa. E partilhado. Também a redação foi partilhada, ainda que depois fosse preciso unificá-la, como é normal, para termos um texto coeso. Mas tudo isso foi um trabalho de equipa, e é inestimável o trabalho que a equipa realizou.

 

P: O trabalho de participação na consulta diocesana animou comunidades e movimentos. Acha que ficou uma semente de participação sinodal que pode ajudar agora ao Sínodo Diocesano?

 

R: O facto de termos tido a coragem de publicar um relatório diocesano e de dar voz às pessoas, para aqueles que participaram criou uma expectativa. Ela está lá. Ela ainda não morreu, apesar de tudo. Apesar dos anos que passaram, tudo isso, essa expectativa ainda não morreu. Há uma ou outra comunidade que continuaram a manter o seu trabalho das Comissões Sinodais Paroquiais. São muito pouquinhas, que eu saiba. Mas mesmo assim ainda existe. E ao mesmo tempo ficou a memória grata desta oportunidade.

 

E um momento importante para percebermos isso é precisamente a Assembleia Pré-sinodal, anterior à elaboração e publicação do relatório diocesano. Foi uma Assembleia muito participada em número e em vontade de falar. Tanto que, infelizmente, não conseguimos dar voz a todas as pessoas que queriam falar. Foi das coisas mais desconsoladoras, dizer: “Estamos aqui, não temos já tempo para que toda a gente que quer falar possa falar.” Mas a verdade é que criou-se um ambiente muito bom. E viu-se por essa Assembleia Pré-sinodal o bom ambiente que havia nas comunidades que se envolveram, e que se pode alargar a todas as outras. E eu espero que sim. Espero que essas comunidades voltem aí. Que não esqueçam isso. Que não se sintam dececionadas por estes anos que mediaram até este novo processo, mas que voltem aí. Voltem, por favor, à Assembleia Pré-sinodal.

 

A Assembleia Pré-sinodal a que se refere o cónego Joaquim Santos teve lugar na Casa Diocesana de Vilar no dia 14 de maio de 2022 e envolveu centenas de participantes das várias zonas pastorais da diocese do Porto. Foi um importante espaço de reflexão que deixou sementes sinodais para o futuro e antecedeu a síntese sinodal publicada em junho de 2022.

 

O documento da Comissão Sinodal Diocesana do Porto de junho de 2022 deu expressão às respostas de 194 paróquias, das 477 da diocese. Incluiu também na sua redação 30 contributos de comunidades de vida consagrada, de movimentos e outros grupos.

 

Dos aspetos negativos assinalados pelos diocesanos na síntese de 2022 destaque para a imagem de uma Igreja que se “apresenta como um corpo fechado sobre si mesmo, mais reativo do que proactivo, muito tradicional”.

 

Alerta para o facto da Igreja na diocese do Porto continuar “a ter uma atitude demasiado hierárquica, clerical, corporativa, pouco transparente e resistente à mudança”.

 

Entretanto, são muito significativos os aspetos positivos assinalados na síntese, apresentando a Igreja como “um espaço de encontro, de experiência pessoal, onde se sonha e partilha e se organiza a vida da comunidade”

 

No documento “é reconhecida a ação social desenvolvida por diferentes estruturas da Igreja, louvado o trabalho que a Igreja realiza em favor dos irmãos mais desfavorecidos e excluídos”, revelando “um papel fundamental na transmissão de um conjunto de valores humanos que são essenciais à vida em comunidade”.

 

O Sínodo Diocesano do Porto teve início oficial na Solenidade de Pentecostes no passado domingo 24 de maio e os seus órgãos foram nomeados no mês de junho. “Ser Porto: formar, reformar, transformar” é o tema do Sínodo.