Em entrevista à Renascença, D. Manuel Linda analisa oito anos de serviço pastoral na diocese do Porto. Aborda temas como a economia da diocese e o Sínodo Diocesano, não deixando de lançar um olhar sobre a atualidade. Uma entrevista conduzida pelo jornalista Henrique Cunha.
Assinala oito anos na Diocese do Porto. Que balanço, ainda que breve, se pode fazer?
Quem pode fazer o balanço são os outros que têm mais isenção para se pronunciarem. De qualquer maneira, há um trabalho aqui de equipa, de grupo. Há um trabalho daqueles que me acompanham nos serviços centrais da Diocese e, particularmente, dos senhores bispos, que já foram sete aqueles que trabalharam ou trabalham comigo. Portanto, não é um trabalho único da minha parte, nem de longe nem de perto, mas é um trabalho de equipa. Pois, não sei, digamos, enumerar tudo. Mas a minha grande preocupação quando cá cheguei, para isso fui mesmo alertado a nível superior, era o problema da consolidação económica. Era o problema, também, da sustentabilidade dos colégios, que estavam mal. Procurámos valorizar o património diocesano. Um património que, muitas vezes, em vez de dar lucro, dava prejuízo. Depois, a nível daquilo que mais nos importa, como Diocese, foi exatamente proceder à união do clero. E, graças a Deus, hoje temos um clero muito unido. Também procurei dedicar maior presença junto ao clero, direta ou indiretamente. E, por exemplo, nunca me ausentei de nenhum dos conselhos diocesanos. Como, por exemplo, o conselho presbiteral, o conselho pastoral, o colégio de consultores. Estive sempre presente em todas as reuniões. Às vezes, com algum sacrifício. Mas, claro, que essa presença junto do clero não é feita exclusivamente por mim, é feita também pelos bispos auxiliares, que são absolutamente impecáveis. Enfim, procurei valorizar o papel do vigário, valorizando as Vigararias como unidade pastoral de referência. Apostámos fortemente na formação contínua. E essa formação contínua, quer aquela que não dá títulos, quer aquela que dá títulos. Desde que eu cheguei ao Porto, portanto, ou mandei estudar, ou concordei com mais de 25 sacerdotes que prosseguiram estudos superiores, quase todos de doutoramento. Procurei valorizar os órgãos de participação, de aconselhamento, dar relevo efetivo ao conselho presbiteral, pastoral, enfim, a todos os outros. À reunião do grupo dos vigários e vigários adjuntos. Por outro lado, levei muito a sério, estou a levar, o contacto com a sociedade civil. Com frequência convido para a Casa Episcopal pessoas dos mais diversos quadrantes: culturais, artistas… Artistas, bastantes. Pessoas simples e pessoas que marcam a sociedade. É uma forma também de a gente ter uma espécie de feedback sobre o que é a sociedade hoje. E as pessoas, com muito zelo, pois, nos dizem a sua perspetiva sobre a sociedade. E com os poderes autárquicos, desde há vários anos, que fazemos, por exemplo, um encontro com os presidentes das Câmaras, por altura de janeiro, a seguir, digamos, ao Natal.
E como é que encontra a sociedade no mundo atual, no tempo atual, depois desses encontros que tem mantido com a sociedade civil?
Confirma aquilo que nós vamos sabendo, mas é bom tomarmos uma consciência profunda e julgarmos a partir daí. Aquilo que sabíamos é que é uma sociedade plural, muito pluralista, depois que passa para a dimensão individual aquilo que antigamente era, digamos, apanágio da coletividade. E hoje, portanto, mesmo a nível ético ou moral, as pessoas tendem a fazer a sua moralidade, a sua eticidade. Tudo isto, pois, nos leva a estar com muita atenção quando anunciamos uma verdade fundamental sobre Jesus Cristo, sobre a Igreja, sobre a doutrina que a Igreja prega. Pois porque as pessoas, quase sempre, depois reagem sob o seu estado emocional e não tanto sob o estado de reflexão interior, sobre, digamos, com a sua inteligência.
Parecendo um bocadinho redutor, é uma sociedade menos solidária e mais individualista?
É mais individualista, mas não deixa de ser solidária, particularmente quando a emotividade lhe toca o coração. Vendo uma imagem, por exemplo, de alguém a passar fome, de alguém abandonado ou que se encontra, digamos, numa situação de fragilidade, a sociedade reage. Reage na mesma como reagia a sociedade de anteriormente. Agora, reage mais a partir do dado da afetividade, da emoção, do que propriamente da racionalidade, do pensar.
Mais impulsiva?
Mais impulsiva, talvez um bocado.
Há pouco falou da questão económica. Essa é uma tarefa realizada com sucesso, a questão económica da Diocese?
Conto quando deixar o serviço pastoral da Diocese, deixá-la também com sustentabilidade futura. De facto, um conjunto de circunstâncias, que se deve a um trabalho muito afincado das estruturas centrais da Diocese, mas também se deve um bocadinho ao momento económico que nos é dado de viver, concretamente ao turismo e tudo isso, e que nos permite, de facto, ter lançado as bases para uma sustentabilidade futura. Porque não tenhamos ilusão. Hoje ainda há muitos cristãos que participam e sabem que um dos mandamentos da Igreja é exatamente contribuir para as despesas do culto. E quando se diz isto, imaginamos, por exemplo, a conservação das nossas igrejas, às vezes em lugares relativamente desertificados. Hoje ainda vamos tendo essa colaboração. Num futuro próximo, não sei. E, portanto, não sei se num futuro próximo, terá de ser o contrário daquilo que acontecia até este momento. Neste momento, a Diocese era sustentada pelos organismos menores, pelas paróquias. E qualquer dia, porventura, terão de ser as paróquias e os párocos a serem sustentados pela Diocese.
Neste ano assumiu como grande desafio a realização do Sínodo Diocesano, e revelador da importância que dá a esta iniciativa é certamente o convite que formulou ao cardeal Grech para vir à Diocese.
Evidente. Nós, todos os anos, temos tido uma ação de formação, mais ou menos por esta altura, para o clero e para os leigos também, e para os diáconos. Claro que, normalmente, é sobre uma determinada temática que, naquele contexto, e particularmente no nosso plano pastoral, esteja mais urgente. De qualquer maneira, este ano, como estamos a realizar o Sínodo, obviamente, a temática não podia ser outra que não fosse exatamente esta. Ora, como ele foi escolhido pelo Papa Francisco para presidir ao Secretariado do Sínodo dos Bispos, que tem muita experiência já neste campo, era a pessoa indicada e, portanto, ele aceitou com muita amabilidade e cá o recebemos, ou esperamos por ele, ansiosamente.
E é uma mais-valia, digamos assim, para esta formação que se quer na condução destes trabalhos sinodais que vão arrancar no dia de Pentecostes, não é?
Evidentemente. A ação de formação não se limita apenas às conferências e ao diálogo com o cardeal Grech. De qualquer maneira, nós diríamos numa linguagem muito humana, é cabeça de cartaz. E, portanto, a parte de leão, a parte mais importante, está-lhe confiada. Embora não exclusiva, porque depois continua a ação de formação no dia seguinte e por aí para a frente.
De alguma forma inspirou-se no Papa Francisco para avançar com a realização do Sínodo, ele que foi um grande defensor da sinodalidade e que nos deixou, precisamente, há um ano?
Foi, foi fundamentalmente o Papa Francisco. E foi também um acontecimento que para a diocese do Porto diz muito. Nós realizámos a nossa peregrinação diocesana a Fátima. Não se tinha realizado desde quando o meu antecessor faleceu, o senhor D. António Francisco, de santa memória. E, já agora, convinha compreender aquele contexto. Naquela altura impressionou o grande número de fiéis que foram a Fátima. E os meus colaboradores diziam-me… E os sacerdotes e outros leigos, diziam-me: “Bom, aquele grande número deveu-se a uma espécie de ir agradecer a Fátima o êxito da visita da imagem peregrina de Nossa Senhora. Agora, rigorosamente, não temos, assim, um assunto muito específico, não vamos conseguir muita gente e tudo isso”. Ora, como saberá, não só duplicou, mas porventura triplicou o número, digamos assim, das pessoas que participaram. E depois pôs-se esta questão. Como capitalizar, entre aspas, este capital espiritual. Atenção, não estou a falar em capital monetário. Como aproveitar esta mobilização de uma diocese que, de facto, foi exemplaríssima na sua participação. E então foram surgindo várias ideias e uma delas foi exatamente esta, da convocação de um Sínodo, que me levou exatamente a fazê-lo nesse mesmo dia, perante aquela enorme multidão que compunha muito bem grande parte do espaço de Fátima. Grande parte, digamos assim, daquilo que era visível a partir do altar das celebrações.
E isso inspirou-o para a concretização do Sínodo Diocesano?
A ideia foi sendo lançada, era um grupinho muito pequenino, aqueles que tínhamos falado sobre isso, foi alargando, as pessoas começaram a ficar entusiasmadas, de tal maneira que recebi muitas comunicações, não só no diálogo pessoal, digamos, quando encontrava algum leigo mais comprometido na Igreja, ou outras pessoas, e os sacerdotes e diáconos. Mas inclusivamente em todos os organismos de participação onde eu levei este tema, desde o Conselho Episcopal, até ao Colégio de Consultores, os vigários, até ao Conselho Presbiteral, ao Pastoral. Enfim, todos a 100%, gostava de sublinhar este dado, a 100%: ”Vamos lá, vamos a ele”. E pronto, aqui estamos para o fazer. Não é para sair um conjunto de resoluções que se implementem logo no dia seguinte, isso seria impossível e isso seria qualquer coisa que não daria absolutamente nada. Mas como um trabalho de empenho, o sabermos viver e conviver nesta Igreja que pede a nossa responsabilidade coletiva, pelo seu presente e pelo seu futuro, obviamente. E depois, muitas ideias sairão, que as comissões, a Comissão Central e outras comissões ad hoc, saberão sintetizar e que depois ficará como projeto futuro, num futuro próximo para esta diocese do Porto.
E para se aplicarem?
Para se aplicarem, exatamente a partir do dia em que o Sínodo termine. Agora, não é aquela aplicação tão automática como pegar num interruptor de eletricidade e acender logo a lâmpada. Não. As coisas demoram o seu tempo. Claro, e com o tempo e com a prioridade a aquelas que nos pareçam mais viáveis na primeira fase.
Eu vou agradecer-lhe muito esta disponibilidade, mas nós falamos no dia em que o Papa Leão termina a sua viagem apostólica a África, uma viagem salpicada também pela polémica com as críticas de Donald Trump a Leão XIV. A resposta dada pelo Papa, não se colocando, vou dizer, a um nível político, ajudará a terminar com a polémica, ou da parte da administração norte-americana podem surgir novas polémicas?
Isso é com ele, com o Sr. Trump, não nos interessa. O que está em causa, quer para o Papa, quer para um bispo, é o anúncio do Evangelho e a fidelidade ao Evangelho. Que o Sr. Trump ou outro qualquer concordem ou não concordem, isso é um problema deles. A nossa fidelidade não é a Trump, a nossa fidelidade é ao Evangelho. E, portanto, o Papa saiu-se muito bem, muito bem mesmo. Como, aliás, a gente já o supunha. Dizendo: “Olhe, curiosamente, os discursos já foram escritos muito tempo antes de serem pronunciados. Portanto, não tem a ver com a polémica levantada pela administração americana.”
Que não foi só ele, também outros colaboradores dele.
Sim, até o vice-presidente, não é? Claro, claro. Pois, não admira. O vice-presidente a mandar o Papa Leão XIV, ter mais cuidado a pronunciar-se em teologia! Em teologia, quer dizer, quando esta é a especialidade de um homem doutorado, doutorado nessa área, o Papa Leão XIV! Como é que alguém que está a fazer uma aproximação à Igreja, que a conhece muito pouco, pode ter a ousadia de fazer isso? Portanto, a mim não me preocupam essas polémicas da parte do Sr. Trump. Preocupar-me-ia era se o Papa não anunciasse o Evangelho na sua fidelidade. E o Papa situa-se muito bem nesta linha de continuidade que vem de Pedro e de Paulo, que vem de São Pedro. Mas, pronto, para aqueles que nós conhecemos, o Papa São João Paulo II, o Papa Bento XVI também, obviamente, o Papa Francisco e agora ele. Tudo numa linha de continuidade que me chama muito à atenção e que não pode ser outra, que é a linha da Igreja.
E na linha de continuidade, é de esperar que Trump não fique por aqui?
Ah, sim, sim. Conhecendo as ideias (ou a falta delas, não sei), pois é muito provável que não fique por aí, mas é o que eu digo, é um problema dele.
A defesa da paz é património inalienável da Igreja, não é?
A defesa da paz está ao centro do Evangelho. Nós estamos num tempo pascal, todas as aparições do Ressuscitado começavam sempre: “A paz esteja convosco”. E nós, na liturgia da Igreja, referimos isto quando, na altura do abraço da paz, antes da comunhão, dizemos: “Deixo-vos a paz, dou-vos a minha paz”. Quer dizer, a paz é referência absoluta, é oração para a Igreja e, portanto, não a pregar seria infidelidade à doutrina. Ao centro, não é um bocadinho da periferia da doutrina da Igreja. É o centro da doutrina do Evangelho.
E é importante, então, dizer aos poderosos deste mundo que é preciso paz.
Pois sim, sempre foi, mas agora de uma forma especial. Claro que eles jogam com outros conceitos. Agora foi muito referido, ainda bem que foi, porque muita gente até, porventura, não conheceria esse episódio do ditador Estaline, que dizia: “Quantas divisões tem o Papa?” Quer dizer, só concebem isso… O “poder”, entre aspas, que eles concebem como poder militar. O número de bombas, o número de ogivas nucleares porventura, o número de aviões, de barcos e disto e daquilo. Não, não, não, não. O nosso poder chama-se fidelidade à doutrina.