O bispo do Porto e seus bispos auxiliares apresentam documento sobre o Sínodo Diocesano subordinado ao tema “Ser Porto: formar, reformar, transformar”. VP publica na íntegra.
Através de uma Carta Pastoral, o bispo do Porto, D. Manuel Linda e seus bispos auxiliares, D. Vitorino Soares, D. Joaquim Dionísio e D. Roberto Mariz, apresentam uma mensagem sobre o Sínodo Diocesano que já está a decorrer entre 2026 e 2028. O início oficial foi no passado dia 24 de maio na Solenidade de Pentecostes. Voz Portucalense publica na íntegra.
CARTA PASTORAL PARA O SÍNODO DIOCESANO 2026 – 2028
SER PORTO
FORMAR – REFORMAR – TRANSFORMAR
Aos irmãos e irmãs, presbíteros, diáconos, consagrados
e fiéis leigos da nossa querida diocese do Porto:
graça, paz e bem da parte de Deus nosso Pai!
É a missão que nos move
- Com alegria e esperança iniciamos este caminho sinodal, acolhendo-o como um evento de graça e um “tempo favorável” (2Cor 6, 2) concedido por Deus à nossa Igreja diocesana. Queremos vivê-lo como oportunidade para consolidarmos a nossa identidade e pertença cristãs e como ocasião para, juntos, discernirmos caminhos que favoreçam a conversão e dinamizem a missão. Movidos pelo desejo de colaborar com Deus, abrimo-nos à novidade do Espírito e, com o coração ardente (Lc 24, 32), renovamos o compromisso de servir e de anunciar a todos o Evangelho (Mt 28, 19). Acompanha-nos a gratidão ao Senhor da Messe que nos convoca e envia, bem como a quantos nos precederam nesta caminhada de fé e contribuíram para a Igreja que somos.
- Mais do que um olhar para dentro, cuja preocupação seria organizar estruturas ou decidir sobre algumas regras, o sínodo é uma oportunidade para acolhermos a graça inspiradora de Deus e mergulharmos na própria natureza da Igreja, entendida como um organismo vivo que caminha e se transforma. Desta forma, o sínodo contribuirá “para configurar a fisionomia pastoral da Igreja particular” (Congregação para os Bispos, Instrução sobre os sínodos diocesanos. Introdução, n.º3), tornando-a mais participativa e missionária, isto é, “mais capaz de caminhar com cada homem e mulher irradiando a luz de Cristo” (XVI Assembleia Geral Ordinária do Sínodo dos Bispos, Documento Final, n.º 28).
- Nesta caminhada, somos impulsionados pelo desejo de fidelidade ao Senhor que nos envia aos irmãos para lhes anunciar o Evangelho. Aspiramos à consolidação de uma Igreja missionária, viva e atenta às realidades que a formam, presente nos diferentes meios e solícita para servir. O processo sinodal será a expressão visível desta comunhão e participação, contribuindo para concretizar uma missão que se reinventa neste tempo exigente e neste chão que nos define: a nossa diocese do Porto. É a missão que nos move.
Somos um Povo a caminho
- Convocada pelo Senhor, a Igreja caminha na história como Povo de Deus, enviada como fermento para a edificação do Reino (LG 9). É um corpo vivo, enriquecido pela diversidade dos membros e pela comunhão de dons que o Espírito Santo em todos infunde. Cada discípulo, habitado e movido pelo Espírito, é chamado a ler os sinais dos tempos (Mt 16, 3) e a abraçar a missão de testemunhar Jesus Cristo com coragem e discernimento. Nesse sentido, o sínodo pretende, precisamente, realçar esta escuta ativa do Espírito que habita em cada batizado, colhendo dela a luz necessária para o discernimento e o caminhar da nossa Igreja diocesana. E nesta caminhada, nunca estamos sós: o amor de Deus é a nossa luz e conforto.
- Caminhamos como peregrinos da eternidade, enviados a manifestar no tempo presente o amor de Deus que salva. E embora o Evangelho permaneça o mesmo, a missão pede-nos criatividade pastoral, novas formas de presença e um renovado ardor perante os desafios de hoje (EG 33). Por isso, tal como em Jerusalém (At 15), a Igreja reúne-se para melhor se inspirar e projetar o seu anúncio, movida pelo impulso missionário e pela vontade de chegar a cada pessoa com a mensagem de libertação que recebeu do Senhor.
Convidados a testemunhar num mundo em mudança
- Atenta às exigentes circunstâncias e ao apelo por um novo vigor evangelizador, a nossa diocese assume o desafio de responder aos sinais dos tempos sem demora (GS 4). Se outrora a fé cristã moldava largamente os seus residentes, hoje reconhecemos a sua fragilidade: a indiferença cresce, a pertença e a prática desvanecem e o nosso testemunho nem sempre é coerente. A rápida urbanização distanciou-nos da civilização paroquial, onde acreditar e pertencer caminhavam de mãos dadas e em que a fé herdada era assumida, praticada e transmitida. Numa cultura fragmentada e polarizada, onde a imagem da instituição eclesial surge por vezes ferida, a tradição cristã perde força e muitos dos nossos contemporâneos deixam de sentir a Igreja como a sua casa espiritual.
- A par da diminuição da prática religiosa, vislumbramos uma profunda fome de Deus e de sentido. A alergia à instituição eclesial não apaga a busca pelo sagrado, que continua vibrante, mesmo quando o diálogo é interrompido ou é difícil acreditar nas respostas. Neste contexto, a Igreja oferece à humanidade um horizonte de liberdade: resgata-nos da escravidão de sermos meros filhos do nosso tempo, devolvendo-nos raízes e a certeza de que a fé não é uma caminhada solitária. Se as gerações passadas foram fermento, cabe-nos agora não ocultar a luz de Cristo, para que sejamos uma comunidade diocesana que verdadeiramente ilumina e inspira (Mt 5, 14-16).
- Envolvidos pelo amor salvífico de Deus, assumimos o mandato de “fazer discípulos” (Mt 28, 19), testemunhando a beleza e o sentido da fé em cada circunstância. O nosso discurso, nem sempre compreendido, precisa explorar novos meios para mostrar Jesus Cristo, falando ao coração do homem contemporâneo. Juntos precisamos olhar e propor caminhos que encurtem distâncias e permitam alcançar todos, incluindo os que já não nos pedem nada. Diante da indiferença, queremos propor a beleza da fé e ser uma Igreja que convida e acolhe, propõe e forma, ajudando cada um a redescobrir a sua alma, a aproximar-se de Deus e a valorizar a pertença à comunidade cristã. Queremos ser mensageiros das surpresas do Evangelho, confiando que na Palavra de Deus reside a nossa garantia de esperança.
- O mistério da Encarnação desafia-nos a abraçar plenamente a nossa humanidade e a nossa fé, vivendo a novidade de cada dia abertos às surpresas de Deus e ao encontro fraterno. Como discípulos, acolhemos o chamamento à santidade e, porque crer é optar pela Vida, desejamos ser o fermento que transforma a história a partir de dentro (Mt 13, 33). Mais do que diagnósticos, o caminho sinodal pede-nos a coragem de assumirmos juntos o seguimento de Jesus Cristo. É para Ele que caminhamos, pois só n’Ele encontramos “palavras de vida eterna” (Jo 6, 68).
O Espirito Santo faz de nós sujeitos
- Inspirados pelos grandes documentos da Igreja e pelo recente caminho sinodal, reafirmamos que ser discípulo missionário é a nossa vocação comum e o segredo do futuro da nossa diocese. É tempo de um novo impulso e de uma transformação interior que nos leve a testemunhar a vida em Cristo com maior vigor. O sínodo desafia-nos a ser uma Igreja em saída à imagem de Jesus, Aquele que percorreu caminhos diversos para encontrar todos, usando uma linguagem profunda, mas acessível. Com empatia, Jesus escutou, curou e acolheu cada história, revelando o rosto de um Pai que é puro amor. Ao curar corpos e espíritos, Jesus mostrou que a autoridade do Reino se manifesta no acolhimento e no serviço.
- Pela graça do batismo, somos chamados a ser protagonistas deste sínodo, contribuindo com os dons que o Espírito distribuiu por cada um. Numa Igreja onde todos contam, reafirmamos que a comunhão é o oposto do isolamento: somos um corpo diocesano onde cada membro é vital para a missão. O sínodo será o nosso grande momento de encontro, permitindo-nos discernir, através do diálogo, as vias para o anúncio do Evangelho. Este é o momento de assumirmos, com verdade e coragem, uma conversão pastoral que responda aos desafios de hoje. É tempo de ousadia e de realismo, mas, acima de tudo, de uma confiança inabalável na graça que nos sustenta e no Senhor que nos acompanha e garante: “Eis que faço novas todas as coisas” (Ap 21, 5).
A experiência de caminharmos juntos
- Com o sínodo, a palavra é dada à comunidade para juntos darmos rosto ao futuro da nossa Igreja no Porto. As partilhas recentes foram essenciais para identificar as prioridades e os objetivos que agora nos guiam, desde a escolha do lema até à definição dos nossos eixos de ação. A formação cristã, a renovação das estruturas e a urgência missionária formam um todo indissociável: queremos aprofundar o nosso saber para sermos as testemunhas que o mundo atual exige, adotando formas de agir que promovam a proximidade e a conversão ao Evangelho.
- Nas 477 paróquias que compõem a nossa diocese, mas também noutras comunidades (secretariados, universidade, escolas, grupos, movimentos), seremos convidados a unir-nos em equipas sinodais. Através da oração e da escuta mútua, discerniremos juntos os caminhos da nossa Igreja, criando uma síntese que servirá de alicerce ao trabalho da Assembleia Sinodal, de onde sairão propostas a apresentar ao Bispo Diocesano para aprovação e promulgação, contribuindo para definir os passos futuros da nossa missão evangelizadora.
- O lema do nosso sínodo, ‘Ser Porto: Formar – Reformar – Transformar’, surgiu do contributo de muitos e traduz a nossa visão e a nossa identidade de Igreja diocesana: uma comunidade acolhedora que congrega a diversidade e se alegra na unidade. Assumimo-nos como uma grande comunidade cristã de portas abertas, onde o respeito pelo próximo é a base para partirmos juntos em missão e ao encontro da concretização dos sonhos que nos unem.
- O compromisso de Formar nasce da vontade de crescer e capacitar a comunidade para os desafios atuais. Seguindo o apelo bíblico de testemunhar a nossa esperança (1Pd 3, 15), procuramos uma formação que, mais do que elevar o intelecto, transforme o nosso modo de ser. Já o ato de Reformar foca-se na melhoria das nossas estruturas, tornando a instituição mais ágil e funcional para a missão. Trata-se de reorganizar para melhor servir, ajustando-nos às circunstâncias do presente. O horizonte final é Transformar: alcançar uma conversão pastoral autêntica e uma evangelização inspirada no Evangelho. Esta mudança só será real se formos nós, individual e coletivamente, os protagonistas desta transformação, iluminados pelo Espírito Santo e amparados pela graça de Deus.
- Ao longo dos próximos meses, viveremos a graça do nosso sínodo diocesano, com o desejo de que este evento se torne um processo contínuo, pois “o caminho da sinodalidade é precisamente o caminho que Deus espera da Igreja do terceiro milénio” (Francisco, Cinquentenário da Instituição do Sínodo dos Bispos, 2015).
Convidamos todos a acompanhar e participar nas etapas deste roteiro:
. 24 maio de 2026 (Pentecostes): Publicação do Decreto de convocação do sínodo diocesano;
. setembro a dezembro de 2026: ciclo de catequeses sinodais em toda a diocese;
. janeiro a junho de 2027: encontros das equipas sinodais para diálogo e discernimento, cuja síntese dará origem ao Instrumento de Trabalho;
. 08 dezembro de 2027: apresentação oficial do Instrumento de Trabalho;
. janeiro a abril de 2028: realização das três sessões da Assembleia Sinodal;
. 04 junho de 2028 (Pentecostes): Encerramento do Sínodo e divulgação das Propostas Sinodais.
Todos convocados e amparados pela oração
- Vivemos um tempo único na nossa diocese, onde a participação de cada um é esperada e valorizada. Uma das formas mais profundas de colaborar é através da oração, suplicando ao Espírito Santo que guie os nossos passos na construção de uma Igreja mais formada, participativa e missionária. Imploramos os Seus dons para que saibamos ler os sinais dos tempos, discernir com sabedoria as decisões futuras e fortalecer-nos na unidade e no serviço.
Em todo este percurso, colocamo-nos sob o olhar atento e maternal de Nossa Senhora da Assunção, padroeira da nossa diocese, que por nós intercede e continuamente nos convida a escutar e a seguir prontamente a vontade do seu Filho (Jo 2, 5).
Porto, 04 de junho de 2026, Solenidade do Santíssimo Corpo e Sangue de Cristo
D. Manuel Linda
D. Vitorino Soares
D. Joaquim Dionísio
D. Roberto Mariz