A sua ordenação presbiteral foi no domingo 12 de julho e dão-se a conhecer. Falam da sua vocação, do tempo de Seminário e lançam um olhar para o futuro. O Isaías Higuera e o João Silva respondem às questões da Voz Portucalense em entrevistas disponíveis em vídeo no canal YouTube da diocese do Porto.
Olá, sou o Isaias Higuera, tenho 31 anos, sou natural da Califórnia, nos Estados Unidos.
P: Quando e como é que sentiu o chamamento para servir a Igreja como padre?
R: É todo um conjunto, mas teve um momento específico. Um momento decisivo, por assim dizer. Eu podia invocar aqui toda a formação de família, propriamente também a formação cristã, mas o momento mais decisivo para mim foi… Estava num retiro, aquilo que nós chamamos convívio, foi proclamado o Evangelho de Jesus Cristo que diz que “Eu vim procurar e salvar o que estava perdido”, e eu nessa altura sentia-me de facto perdido, porque tinha-me afastado um pouco da igreja, da minha relação com Deus, para prosseguir o meu caminho como músico. Mas pronto, eu tinha cortado com esta relação com Deus e sentia-me de facto perdido, com um corte da identidade cristã. Então este Evangelho tocou-me profundamente, porque fiz um mais um. Deus veio procurar os perdidos e salvar aqueles que estavam perdidos, eu sentia-me perdido. Então reconheci que Ele me amava, que eu existia para Deus, que me estava a chamar para uma missão. Para O seguir, sobretudo. Depois a questão de O servir especificamente, sempre tinha escutado que podia ser ajudado através de um seminário, e que eles me ajudariam a discernir a vocação para me ajudar a mim a fazer essa mesma escolha. Então eu diria que esse momento decisivo foi ali. Para o servir foi todo um processo. E a Igreja foi-me ajudando a perceber o chamamento de Deus, para perceber se realmente era isso. Então diria que foi nesse momento inicial, mas também através de um percurso que me ajudou a definir propriamente aquilo que Deus queria para mim, para O servir. Então os meus pais, que são do Caminho Neocatecumenal… Eu sou aquilo que alguns chamam “filho do Caminho”, porque eles já faziam parte, a experiência própria deles também é interessante. Um casal, a minha mãe um pouco feminista, o meu pai um pouco machista. Então um casal já com muita turbulência no próprio matrimónio, a relação deles experimentou a salvação de Deus através do Caminho Neocatecumenal, a reconciliação sobretudo, e a reabertura à vida. Porque eles tinham duas filhas, e depois o primeiro filho, e para eles isso chegava. Então depois, através da catequese, de uma caminhada na fé, um itinerário de fé, que é aquilo que é, eles reabriram-se à vida, à possibilidade de terem mais filhos. É ali que nasço eu e o meu irmão gémeo, sou gémeo falso. Então eles reabriram-se à vida e nasci eu com o meu irmão. Então nesse sentido, nasci já dentro deste contexto, neste seio na Igreja, através do Caminho Neocatecumental, e é assim que eu pertenço desde então. Depois a verdade é que há um momento específico onde eu pertenço, ou passo a pertencer a uma própria comunidade, já não ligada à fé dos meus pais, mas fazendo o meu próprio caminho, eu próprio. E isso teria sido aos 13 anos, entrei na comunidade, lembro-me de que queria entrar na comunidade, porque os meus colegas também estavam a entrar nessa comunidade. Então esta alegria… Era para mim uma alegria entrar na comunidade.
P: Como foi a sua experiência de vida em Seminário?
R: Tenho de contar um pouco, acho, como também fui enviado, um pouco por aí. Fui enviado num convívio, num convívio que se faz internacionalmente em Itália, acho que foi em 2017. E há um momento específico onde se faz à sorte, uma providência de Deus. Foi tirado o país, Portugal, depois foi tirado o meu nome. Eu devo dizer que sou um pouco inculto, nesse sentido, quando disseram Portugal, estava tão contente, não por ser Portugal, sinceramente nem sabia para onde é que era, mas estava tão contente de ser enviado pela Igreja, que nem me passou pela cabeça onde era Portugal. Depois é que eu vim a descobrir, fui pesquisando um pouco o que é que era o Porto, a primeira imagem que me apareceu foi aquela que se tira de Gaia, vendo todo o Porto. Foi belíssimo. E pronto, foi assim que eu fui enviado para Portugal. Estando já em Portugal, a minha experiência do seminário, é óbvio que não foi muito fácil, para já com a questão da língua. Quando eu cheguei, lembro-me, começámos logo a estudar na Universidade Católica, as aulas em português, e aqui no Norte tem-se uma pronúncia um pouco pesada… Então para mim parecia russo, não sei russo, mas parecia-me russo. E fui aprendendo. Também Deus, evidentemente, foi ajudando-me imenso nesta questão da língua. Perceber que é uma questão por amor às pessoas às quais fui enviado, faz parte, então, falar a mesma língua e com a melhor pronúncia possível. A experiência do seminário, então, nesse sentido, passa por isso, uma nova cultura, uma nova forma de pensar. Também me tem sido dada a experiência de poder adaptar-me, de gostar da experiência, de aprender, não só com as aulas, mas com as próprias pessoas, no dia a dia. Então a minha experiência passa por ali, culturalmente. A própria experiência do seminário é particular também. Desde a sua origem, de ser um seminário missionário e diocesano. Somos missionários desde o ponto de partida, como falei sobre a Califórnia. Então o próprio facto de já ser enviado aqui, é uma experiência de missão, mas também diocesana. Temos a consciência plena de que somos chamados para servir, neste caso, a Diocese do Porto. Então, isto tudo faz parte da experiência, de saber sempre ter este compasso, ou esta bússola, por assim dizer, de que nós somos diocesanos, mas missionários, e sem nunca perder isto. Isto tudo está dentro da experiência. Desde nós fazermos a evangelização, também ajudamos as paróquias, mas também não perdemos de vista que a nossa missão é aqui, mas também as portas ficam sempre abertas. Podemos, eventualmente, em comunhão com o Bispo do Porto, neste caso, fazer missão noutro sítio. Nunca fechamos essa porta, mas temos plena consciência de que a nossa missão, para já, é aqui.
P: O que é ser padre hoje?
R: O que é que é para mim ser padre hoje? Eu acho que, por um lado, não deixa de ser aquilo que sempre foi, porque é a questão da tradição. Ser padre é sempre fazer aquilo que a Igreja faz, e fez, e fará. Nesse lado, mas a questão do hoje, a parte do hoje na questão… É verdade que há desafios muito próprios dos nossos tempos, e eu acho que é preciso também ter consciência daquilo que está a acontecer à nossa volta, embora os desejos humanos sempre sejam os mesmos, é transversal a todas as épocas. Também ter consciência disso. Ser padre, nesse sentido, também penso que, por um lado, como disse Santo Agostinho, para parafrasear um pouco, porque não conheço a frase especificamente. Ele diz, no seu contexto, “bispo para vós, mas cristão convosco”. Então, acho que também, para um padre hoje, precisa de passar muito por ali, esta segunda parte de “cristão convosco”. De perceber que somos cristãos numa Igreja, num corpo, numa comunidade, mesmo na paróquia, de perceber que somos cristãos com os outros, chamados a presidir a essa mesma Igreja. E eu acho que passa muito por ali ter esta consciência de, quando toca presidir, estar à frente de certas coisas com a ajuda de Deus, sim. Mas também ter consciência de que há toda uma Igreja, todo um corpo que nos auxilia. Porque eu sei que uma das dificuldades, dos desafios, para um padre hoje, talvez seja um pouco a solidão, sentir pouca ajuda. Mas não é verdade, fazemos parte de um corpo enorme. Mesmo a percentagem é muitos cristãos, poucos padres. Nesse sentido, a Igreja, que é enorme, tem muitos auxílios, e eu vejo-o.
Olá, eu sou o João Nuno, tenho 27 anos e sou natural da Ilha da Madeira.
P: Quando e como é que sentiu o chamamento para servir a Igreja como padre?
R: Bem, a minha vocação nasceu muito de uma interrogação do que é que Deus quer para mim, de perguntar e no fundo de querer fazer a vontade de Deus. É verdade que experimentei muitas coisas no mundo, porque nunca pensei ser padre, ou seja, o ideal de ser padre para mim nunca foi um ideal, sempre procurei viver uma vida natural, como qualquer jovem. Procurei sempre constituir família, viajar, desfrutar do mundo. Mas a verdade é que dentro de mim nascia um vazio, ou uma interrogação maior, de que Deus, de certa forma, me chama a outra coisa. Sempre a rejeitei, mas a verdade é que pouco a pouco, também com a situação da minha família, numa altura particular de crise dos meus pais, e também com a questão do meu pai, sempre me disseram que Deus é bom, que Deus existe. E eu perguntei: “Se Deus é tão bom e se Deus existe, onde é que está Deus?” E isso fez-me olhar para mim e ver que, de verdade, o Senhor, que Deus, me chamava a uma coisa maior, que me chamava a dar a minha vida. Inicialmente não sabia bem se era para o presbiterado ou não, mas de verdade tenho experimentado e vi como Deus tem marcado a história, e que me chamou, e que me traz aqui até hoje. A verdade é que eu já estava na Igreja, os meus pais são católicos, praticantes, mas a verdade é que no meio de tantas interrogações, também próprias minhas, um dia também me convidaram a fazer parte dos encontros para adultos, jovens e adultos, e aí foi quando conheci o Caminho Neocatecumenal, e foi dessa forma que também me colocou a interrogação, e deixei-me levar pela vontade de Deus. Senti-me enviado em missão porque depois, quando entrei no Caminho Neocatecumenal, tinha outros jovens, e isso também atraiu-me. Inicialmente ia a estes encontros e também fazia parte do Caminho Neocatecumenal com outros interesses, talvez procurar constituir uma família, ter uma vida, digamos assim, normal. Mas a verdade é que, pouco a pouco, com a caminhada, e também com a descoberta de mim mesmo, fez-me ver que Deus me chamava a outra coisa e fez-me arriscar, confiar no Senhor. É verdade que não foi fácil, é verdade que foi um tempo de discernimento, colocar-me nas mãos de Deus. A verdade é que, Deus surpreendeu-me. Primeiro fui enviado, porque o processo para a entrada no Seminário Redemptoris Mater tem esta particularidade de sermos enviados a um convívio na Itália, e depois desse convívio sermos sorteados a ir a toda a parte do mundo. A verdade é que eu experimentei que Deus tinha sido poderoso, e tinha dado sentido aos meus sofrimentos. E aí fez-me colocar a minha vida e entregar-me. E vim até à Diocese do Porto enviado. Para mim é sempre um marco e um selo de Deus, porque vejo que não foi pela minha vontade. Coloquei também a minha vontade, é verdade, mas foi Deus que me enviou até aqui e isso tranquiliza-me. Eu vejo que a minha vocação não é fruto de um querer próprio, mas é Deus que marca a história e que tem-me trazido até aqui.
P: Como foi a sua experiência de vida em Seminário?
R: A minha vida, inicialmente, no Porto. Quando cheguei, tinha 20 anos, cheguei ao Porto. É verdade que na Madeira os dias são um pouco mais solarengos, e quando cheguei ao Porto era muito mais escuro. A adaptação, inicialmente, mesmo estando dentro do país, foi uma adaptação de entrar na realidade, porque aqui o povo do Norte é um povo muito acolhedor, é muito hospitaleiro, também como nós lá na Madeira, mas tinha uma outra forma de viver. E isso fez-me também entrar nesta realidade, encarná-la, e ver que, de verdade, Deus escolheu-me, trouxe-me aqui e me chama, essencialmente, a conhecer esta realidade da Diocese do Porto. Depois o meu percurso formativo no seminário Redemptoris Mater tem sido um tempo muito bom. É verdade que o tempo no seminário ajudou-me, essencialmente, a perceber que o fundamental, antes de ser padre, ser cristão, é descobrir que, verdadeiramente, Deus dá sentido às minhas feridas, que dá sentido à minha vida. E isso, como acréscimo, digamos assim, é o presbiterado: dar a vida, testemunhar este amor que recebi gratuitamente, e que hoje Deus me confirma e me convida verdadeiramente a testemunhar, a dar de graça. Como diz São Paulo, “dar de graça o que recebi de graça”. E é isso que me tranquiliza e que também dá força a enfrentar este novo desafio.
P: O que é ser padre hoje?
R: Para mim, ser padre hoje é, essencialmente, estar com as pessoas, ver os seus sofrimentos, ver a sua realidade e partir do princípio em que as pessoas procuram o mesmo que eu, que é um sentido para a vida. E tenho descoberto que este sentido para a vida é Jesus Cristo, que tem dado e é o único que tem dado sentido à minha vida. E então dar de graça isto, testemunhar o mundo, este amor de Jesus Cristo pela humanidade. Um Deus que é amor, um Deus que não nos pede que façamos o triplo salto, um Deus que não parte de pressupostos legalistas ou moralistas, mas do amor. Eu penso que hoje ser padre é testemunhar este amor no meio da sociedade e, essencialmente, levar as pessoas a Cristo, não obstante as nossas dificuldades, não obstante as minhas limitações, mas ver que Deus triunfa e que é muito mais forte do que aquilo que eu quero, do que as minhas ambições e que Deus não me tem tirado nada. Tem-me dado tudo de graça e, essencialmente, tem-me tornado forte no sentido de dar este amor e testemunhá-lo ao mundo.