Foram ordenados presbíteros no dia 12 de julho e dão-se a conhecer falando da sua vocação, do tempo de Seminário e partilhando a sua visão para o futuro. O José Máximo e o Rui Soares apresentam-se e respondem às questões da Voz Portucalense em entrevistas disponíveis em vídeo no canal YouTube da diocese do Porto.
Sou o José Máximo, tenho 26 anos e sou natural de Abragão.
P: Quando e como é que sentiu o chamamento para servir a Igreja como padre?
R: Desde muito novo fui sentindo que o ser padre podia ser algo que podia concretizar na minha vida. Então desde muito novo, creio que o seio familiar me ajudou muito a ser aquilo que sou hoje, a ter abraçado esta vocação. Então fui crescendo, muito novo, indo sempre à missa com o meu avô, com a minha família. E foi crescendo este amor a Jesus também partilhado pela minha família, mais uma vez pelo meu avô, que foi transmitindo estes valores, este amor a Jesus, que ele vivia intensamente. E acho que é muito isso. Esta família, esta família cristã, que nos ajuda, nos transporta, nos ajuda também a caminhar e encontrarmos um rumo, que o meu rumo passou então por entrar no seminário e por estar a momentos de ser ordenado sacerdote. O meu avô era um homem muito de Igreja, um homem que vivia intensamente a fé, e que me partilhou isso. Nas orações que fazíamos em comum, no Pai Nosso que me ensinou antes de entrar para a catequese, na vivência quotidiana da missa. Podia estar onde estivesse, começava o terço, às seis e meia da tarde, e lá íamos os dois rezar o terço. Portanto, eu creio que ter uma experiência feliz na família, termos uma família cristã, é isso que nos ajuda e nos transporta para o campo espiritual, nos ajuda a abraçar o ser padre sem medo.
P: Como foi a sua experiência de vida em Seminário?
O seminário foi uma experiência feliz, claro. Um tempo de descoberta, um tempo desafiante. De descoberta, de descobrir este Jesus, este Jesus que já amava, que já me tinha sido incutido este amor, mas também ir descobrindo Jesus através da universidade, este tempo mais exigente de estudo, que nos ajuda a descobrir melhor este Senhor, a quem queremos servir e a quem amamos. Foi um tempo também desafiante, o viver em comunidade, conhecer outros rapazes que também viviam a minha fé, também partilham este amor em Jesus, mas também muito bonito. O partilhar de experiências, acho que no seminário o fundamental é isto. A partilha de experiências, partilha de vidas, que nos ajuda a crescer, nos ajuda… O caminharmos juntos, o seminário também é um tempo de caminharmos juntos, de nos ajudarmos mutuamente. Porque todos os que estamos no seminário podemos ser padres. Então, todos juntos, neste caminho, nesta vocação conjunta, mais facilmente chegaremos a bom porto.
P: O que é ser padre hoje?
Ser padre acho que é ser homem do caminho, homem de estar junto das pessoas, homem do diálogo, da partilha, homem dos afetos, homem do bom ouvido, da boa escuta. O padre tem que ser aquele que está presente na realidade concreta. Um homem atento aos sinais dos tempos, aos sinais das pessoas. Não deixar ninguém de lado, o padre deve estar junto das pessoas, escutar a todos. Partilhar a vida, também com todos. Abraçar aqueles que são os desafios, que o Senhor Bispo nos vai colocar e que a Igreja também nos coloca a cada um de nós. Mas abraçar este desafio sempre com um sorriso no rosto, sempre tendo Jesus no coração. Também trazer este sorriso bonito de Jesus às pessoas. Acho que falta muito neste mundo as pessoas sorrirem, o estarem bem umas com as outras, num mundo agora muito com as guerras, acho que falta este sorriso. Este sorriso de Deus no mundo, ser essa presença ativa junto das pessoas. Não deixar ninguém de lado, mas com eles construir uma Igreja cada vez mais fraterna, cada vez mais unida e sempre em missão.
Sou o Rui, tenho 27 anos e sou natural de Ermesinde.
P: Quando e como é que sentiu o chamamento para servir a Igreja como padre?
Então, eu não tenho propriamente um clique, não acordei propriamente e disse “vou para o seminário”. Na altura eu trabalhava, tinha acabado o 12º, não tinha entrado na faculdade na área da saúde, que foi a minha primeira área de eleição e estava a trabalhar. Na altura eu trabalhava no McDonald’s. E estava com os jovens, eu sempre fui muito ligado aos Missionários da Consolata, cresci lá, juntamente com a paróquia. Na altura estava numa atividade com jovens e a inquietação começou a surgir. “Porque não ser padre? Já que estou neste impasse, não entrei, se calhar foi por algum motivo.” E numa atividade com jovens num lar, durante a celebração da Eucaristia, eu olhei para o padre que nos acompanhava, para o sorriso que ele transmitia e disse: “Ok, eu quero ser esta pessoa que é capaz de levar este sorriso, uma alegria de Jesus, àqueles que são mais débeis, àqueles que estão mais afastados, àqueles que não conseguem naturalmente se reunir na comunidade”. E disse: “Ok, eu quero ser este, quero ser este exemplo, quero ser esta pessoa.” E foi a partir de então que decidi, depois falei com o meu pároco, como é que funcionava, como é que não funcionava. Eu na altura ainda estava a estudar, estava a fazer exames, e depois a partir daí, sim, foi o primeiro passo para estes anos todos que vieram depois logo a seguir. Os meus pais sempre foram muito serenos nesse aspeto, sempre apoiaram. “Portanto, se achas que é por aqui, força, nós apoiámos-te”. Os meus amigos também. Confesso que houve um ou outro que ficou ainda com uma pulga atrás da orelha, porque eu sempre fui… Era escuteiro, era acólito, era catequista, mas a minha postura também. Uma pessoa foi crescendo, conheciam-me. “Será que sim, será que não?” Mas sempre apoiaram, portanto, os meus amigos. Sempre tive o apoio deles e da família, portanto, sempre fui muito bem apoiado nesse aspeto.
P: Como foi a sua experiência de vida em Seminário?
Desafiante. Como era escuteiro, viver fora de casa para mim não era problema. Mas partilhar espaços comunitários com mais gente, com mais jovens da minha idade e mais velhos, o desafio foi gerir muito o nosso dia a dia, porque nem todos acordamos num bom dia, portanto temos às vezes o desafio de lidar com pessoas diferentes, com pessoas mais semelhantes a nós. Mas foi um bom desafio, deu para conhecer gente que faz parte do nosso caminho, apoios, e de estruturar também o nosso caminho em pilares, e a formação nesse aspeto foi muito importante. Porque nas dificuldades do caminho, o seminário foi casa, onde nos acolheu, e onde fez com que nós pudéssemos crescer para agora sairmos para o mundo. Para, como se costuma dizer, ganhar asas e voar.
P: O que é ser padre hoje?
Ser padre para mim hoje é ser próximo. Eu acho que acima de tudo as comunidades requerem do padre hoje uma proximidade. Muito mais do que fazer coisas, muito mais do que fazer grandes obras, eu acho que as pessoas requerem muito a escuta, de terem o padre como alguém que está disponível para escutar, do padre que está disponível para acompanhar. Porque num mundo tão dilacerado como o que vivemos hoje, a escuta, o acompanhamento, o estar presente, acho que para mim é o que faz sentido. Acho que é muito ao estilo de Jesus, que estava, que escutava, que também dizia as coisas quando eram precisas de ser ditas, acompanhava e dava conselhos. Mas acima de tudo a presença e o acompanhamento, acho que as pessoas… E para mim, ser padre é isso. O mundo de hoje precisa de que, mais do que dizer coisas sobre Jesus, que nós façamos e tenhamos a nossa vida segundo o estilo que Jesus nos propõe. Acho que acima de tudo, mais que o dizer, nós temos que ser. Porque acho que o testemunho vem pela ação e pelas atitudes, muito mais do que palavras muito bonitas ditas às comunidades.