Neste ano de 2026 a renúncia quaresmal tem as seguintes intenções: vítimas das recentes tempestades em Portugal; Missão de Calumbo (Angola) projeto “Sopas nutritivas” de um padre passionista; projeto “Renascer p’ra Esperança” da Juventude Missionária Vicentina em Chirrundzo (Moçambique), que desenvolve atividades de internato e cantina social para crianças; dar resposta aos pedidos de ajuda por motivo de guerras e calamidades. VP publica na íntegra a mensagem de D. Manuel Linda para a Quaresma.
1. A mensagem da conversão constitui um dos núcleos fundamentais do Evangelho. São Marcos, que foi o primeiro a pôr por escrito a Boa Nova de Jesus, diz-nos que este tema constituiu o início da sua pregação: “Cumpriu-se o tempo e o reino de Deus está próximo. Arrependei-vos e acreditai no Evangelho” (Mt 1, 15). Como se lembram, usamos estas mesmas palavras no rito de imposição das cinzas, no começo da quaresma. São Lucas, por sua vez, na conhecida parábola do filho pródigo, sublinha os dois elementos fundamentais da conversão: o regresso a Deus e a mudança no modo de se viver.
De facto, no hebraico, o próprio termo bíblico que exprime a noção de conversão quer dizer literalmente «andar na direção oposta». Foi o que fez esse grande Santo Agostinho. A princípio, muito longe de Deus, viria a converter-se radicalmente. E referem-se a essa mudança de caminho as suas palavras muito conhecidas: “Tarde te amei! Tarde te amei, ó Beleza tão antiga e tão nova! Eis que estavas dentro de mim e eu fora de mim. Estavas comigo e eu não estava contigo. Seguravam-me longe de ti as coisas que não existiriam senão em ti. Chamaste, clamaste por mim e rompeste a minha surdez. Brilhaste, resplandeceste, e a tua luz afugentou a minha cegueira. Exalaste o teu perfume e, respirando-o, suspirei por ti e te desejei. Eu te provei, te saboreei e, agora, tenho fome e sede de ti. Tocaste-me e agora ardo em desejos pela tua paz!”.
2. Esta mudança de estilo de vida não é, portanto, teórica ou somente intelectual: ela implica com a vida concreta e com as escolhas que fazemos. Implica com as nossas atitudes e comportamentos, formas de ver e de nos tornarmos presentes. Implica com o amor concretizado: na aceitação e resposta ao amor de Deus e na difusão que dele fazemos, em gestos de benignidade, aos irmãos e a toda a sociedade.
Na relação com Deus, a prioridade deve ser concedida ao timbre de uma fé que, cada vez mais, nos identifica e configura com Ele. Por isso, insistimos tanto na leitura orante da palavra de Deus, se possível em família, e também na oração, no sacramento da confissão e nos gestos de penitência, tais como a privação voluntária de alguma coisa de que gostamos, a abstinência de comidas mais requintadas e o jejum, especialmente na quarta-feira de cinzas e na sexta-feira santa.
3. Mas o amor de Deus é inseparável do amor aos outros. Por isso, sempre esteve na mente da Igreja viver a quaresma com uma especialíssima dimensão de solidariedade fraterna. E daqui nasce a proposta de gestos de paz e de harmonia, de reconciliação com os outros quando isso se impõe, a preocupação mais viva para com esse grande presente de Deus que é o mundo material e todas as criaturas e os indispensáveis gestos de solidariedade e fraternidade.
Nesta linha, escutados todos os organismos de aconselhamento diocesanos, decidi que, quer a renúncia quaresmal, quer o contributo penitencial, neste ano de 2026, serão repartidos em quatro partes iguais: 25% para as vítimas das recentes tempestades em Portugal; outro tanto para a Missão de Calumbo (Angola) onde um sacerdote português, passionista, mantém um belo projeto social de desenvolvimento de crianças, mormente por intermédio das «Sopas nutritivas»; para o projeto «Renascer p’ra Esperança», em Chirrundzo (Moçambique), da Juventude Missionária Vicentina, que desenvolve catividades de internato e cantina social para crianças; e o restante destina-se a dar resposta aos muitos pedidos de ajuda, provenientes do estrangeiro, que, por motivo de guerras ou de outras calamidades, nos chegam ao longo do ano.
4. Irmãs e irmãos, na lógica de Deus, a primazia de tudo é a fé, entendida como confiança e amor. Mas precisamente por isso, inerente à fé está a noção de conversão, ou seja, a reorientação de toda a nossa vida para Deus e sua vontade. Sem isto não há fé. E a vontade de Deus é que todos vivamos como irmãos. São palavras de Jesus: “Quem faz a vontade de meu Pai que está nos céus, esse é meu irmão, minha irmã e minha mãe” (Mt 12, 50). Nesta linha, o duplo mandamento do amor –o «amar a Deus sobre todas as coisas e amar os outros como a nós mesmos»- é o único caminho que se nos exige enquanto crentes. Caminho exclusivo. Mas caminho que, sendo tão essencial, tantas vezes nos afastamos dele…
É altura de regressarmos a essa via de salvação. É altura de acelerarmos os passos para a percorrer com alegria. Então, coragem! Caminhemos! Caminhemos na via de salvação, pois esta é a própria felicidade. Santa quaresma em ordem à Páscoa do Senhor!
+ Manuel, Bispo do Porto