Cerca de 40 participantes da Diocese do Porto viveram, nos dias 13 e 14 de dezembro, uma experiência profundamente marcante no âmbito do Jubileu dos Reclusos. O grupo incluiu visitadores voluntários, diretores e adjuntos de estabelecimentos prisionais, técnicos que acompanham pessoas privadas de liberdade, magistrados (TEP), um ex-recluso, familiares de reclusos e dois sacerdotes com longa experiência na pastoral penitenciária. Unidos por um mesmo desejo, caminharam juntos na esperança e na fraternidade.
A peregrinação levou o grupo a atravessar as Portas Santas das principais basílicas romanas, num gesto carregado de simbologia. Cada passagem foi vivida como memória do Batismo – da água, da luz e da veste nova – e como convite à renovação da fé e dos dons recebidos. Não se tratou apenas de um gesto exterior, mas de um caminho interior, no qual muitos sentiram que também os seus próprios corações precisavam de ser tocados, purificados e reabertos.
Um dos momentos mais significativos foi a Eucaristia celebrada no dia 14 de dezembro, durante a qual o Papa Leão XIV recordou, na sua homilia, que “a prisão é um ambiente difícil, onde mesmo os melhores propósitos podem encontrar inúmeros obstáculos” e que, apesar disso, é essencial avançar “com tenacidade, coragem e espírito de colaboração.”
O Santo Padre sublinhou também que “muitos ainda não compreendem que depois de cada queda deve ser possível levantar-se, que nenhum ser humano se reduz ao que fez”, lembrando que a justiça deve ser “um processo de reparação e reconciliação.”
Ao aproximar-se o Natal, o Papa exortou os presentes a abraçar com confiança a missão cristã: “Que ninguém se perca! Que todos sejam salvos! É quanto deseja o nosso Deus, nisto consiste o seu Reino.”
Estas palavras ecoaram de forma particular entre os participantes, muitos dos quais vivem diariamente a tensão entre normas rigorosas, ambientes exigentes e histórias humanas marcadas pela dor. A peregrinação tornou-se, assim, um espaço privilegiado de escuta e de compreensão mútua: entre quem decide, quem acompanha tecnicamente, quem visita de forma voluntária e gratuita e quem conhece por dentro a experiência da reclusão.
Para os voluntários, foi também um tempo de reconhecimento. Nem sempre é fácil fazer entender o valor de um tempo dado sem retorno, de uma presença fiel no meio de contextos duros e exigentes. Por seu lado, para quem trabalha nos estabelecimentos prisionais tornou-se ainda mais claro o peso humano, ético e emocional que envolve a missão de manter a ordem e ao mesmo tempo promover a dignidade das pessoas. Estes dias ajudaram a criar pontes, a humanizar olhares e a reforçar o respeito entre todos.
Esta peregrinação não resolveu todas as tensões, nem apagou as dificuldades. Mas marcou os corações. Relembrou que, mesmo atrás de portas fechadas, há vidas que esperam, pessoas que acreditam e uma esperança que insiste em não morrer. E confirmou que caminhar juntos — Igreja, instituições, magistrados, técnicos e diretores e pessoas comuns— é o único caminho possível para que a dignidade humana seja sempre colocada no centro.