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Rumos da política nas reflexões das Jornadas de Teologia


A configuração cristã da vida pública num ambiente de novos rumos da política, foi o mote para o evento que decorreu na Universidade Católica no Porto.

 

Nos passados dias 2 a 5 de fevereiro de 2026, o Campus do Porto da Universidade Católica Portuguesa (UCP) transformou-se num laboratório de reflexão. Sob o mote “Novos rumos da política. Configuração cristã da vida pública”, a Faculdade de Teologia reuniu pensadores nacionais para debater a urgência de uma presença cristã, ativa, livre e competente, num mundo em transformação acelerada.

 

Isabel Braga da Cruz, Pró-Reitora da UCP, abriu a sessão destacando a relevância do tema para o diálogo entre a Igreja e a sociedade. Frisou que o evento reforça a ligação direta entre a instituição académica e a formação do clero da diocese do Porto.

 

Na sua intervenção, D. Manuel Linda classificou a temática como “importantíssima e urgente”, sustentando que a política é intrínseca à condição humana. O bispo do Porto explicou a natureza interdisciplinar do debate afirmando que “não há política, nem moral fora da pessoa” e apresentou a política como um espaço ético, advertindo para os riscos de fragmentar estas duas esferas. Ao definir a fé cristã como “histórica”, o prelado concluiu ser imperativo interrogar continuamente a fé e a ética perante os rumos e a fluidez da história.

 

Abel Canavarro, coordenador das Jornadas, apelou a uma Igreja que seja capaz de “escutar e fazer uma leitura dos sinais dos tempos”. Deste modo, referiu o vice-diretor do curso de Teologia da UCP, o objetivo destas Jornadas foi lançar “pistas” sobre como o cristão se deve situar num mundo onde “os cristãos devem ser, não só portadores, mas também testemunhas dos valores” do cristianismo.

 

O orador do dia 2 de fevereiro foi Rui Ramos que analisou as bases históricas da “agenda internacional conservadora”. “Os conservadores são uma corrente política plural recente, estimulada pela oposição à Revolução Francesa”, sublinhou o historiador. Assinalou a evolução do conservadorismo em Portugal e alertou, em tom de ironia: “Quem se lembra constantemente da história perde um olho, quem se esquece dela perde os dois”.

 

No dia 3 de fevereiro a primeira conferência foi apresentada por Inês Espada Vieira que, recuperando o pensamento de Timothy Radcliffe, defendeu a prudência não como uma cautela passiva, mas como a “bela virtude de viver no mundo real com olhos bem abertos”, o que exige uma ação audaciosa. Para a investigadora, a política cristã é um programa de “encontro, reflexão e ação”.

 

No plano empírico, o conferencista Carlos Jalali descreveu as eleições legislativas de 2024 como um “terramoto” que alterou a configuração tradicional do sistema partidário português. O sociólogo demonstrou que, embora a clivagem religiosa clássica pareça diluída, a religiosidade continua politicamente relevante através de um “voto religioso flutuante”, agora ativado por temas morais e novos atores populistas. Esta análise nacional cruzou-se com a visão geopolítica de Jorge Botelho Moniz, que introduziu o conceito de Blokpolitik, evidenciando como a religião é frequentemente instrumentalizada por projetos políticos seculares da Rússia à China e aos EUA.

 

No dia 4 de fevereiro, o debate ganhou uma nova dimensão na mesa-redonda onde o saber académico se fez diálogo fraterno. Nesta, vários docentes da “casa” sentaram-se para partilhar as fundações do compromisso cristão sob prismas que se completam como peças do mesmo puzzle: Luís Castro trouxe para a mesa a densidade da perspetiva bíblica, iluminando as tensões que ferem o Médio Oriente. Jorge Teixeira da Cunha, argumentando que a política só encontra o seu norte na afirmação plena do ser humano, propôs uma Ordo Amoris, ancorada na parábola do Bom Samaritano. Para fechar este ciclo, Sérgio Leal apresentou a fecunda ligação entre a experiência sinodal e a democracia, defendendo uma participação autêntica que nasça de vínculos reais de pertença e da coragem de dar precedência ao primado da escuta.

 

O último dia, 5 de fevereiro, focou-se na justiça social. Nuno Ornelas Martins propôs uma “teologia da encarnação” para a economia, focada na misericórdia e no bem-estar, em oposição a visões que aceitam a pobreza como um mal inevitável do mercado. Por sua vez, Sónia da Silva Monteiro explorou a fenomenalidade do perdão no espaço público, discutindo limites em contextos traumáticos como o dos abusos na Igreja ou o trauma no Ruanda, defendendo que “o perdão é interpessoal, não é político”. José Azeredo Lopes abordou ainda as tensões fundamentais entre Estado, Soberania e Bem-Comum.

 

O sentimento comum nestas Jornadas foi de que o evento fomentou a crueza do realismo político com a luz perene da esperança teologal. Ficou transversal a visão de que “a Igreja não tem partido”, mas que há católicos nos partidos. O diálogo foi o “timbre” do encontro pois, como lembra Frei Bento Domingues, “fora do diálogo não há salvação”.